28 de abr de 2016

Secretária de Segurança nomeou a ex-doméstica para o seu gabinete

Foto MICHAEL MELO/METRÓPOLES
Márcia de Alencar lotou, no próprio gabinete, a empregada doméstica que, até o mês passado, trabalhava na residência dela no Plano Piloto
A mesma secretária de Segurança que conta com a estrutura do Estado para lhe apoiar em questões pessoais acredita que pode suprir as carências administrativas com soluções caseiras. Márcia de Alencar nomeou sua ex-empregada doméstica como servidora da pasta que comanda, com salário de R$ 2.242,74. Na manhã desta quarta-feira (27/4), o Metrópoles revelou que a secretária tem, à disposição, servidores e viaturas oficiais para fazer a escolta e o transporte escolar de seus familiares.

Tradicionalmente, a maioria dos cargos comissionados do gabinete da Secretaria de Segurança é ocupada por profissionais ligados às forças, com perfis técnicos e experiência na área. Abriu-se uma exceção para acomodar a assessora Vanderlice Dias de Sousa. Conhecida como “Vanda” pelos porteiros do prédio onde vive a secretária, a mulher trabalhou, até duas semanas atrás, como empregada doméstica no apartamento de Márcia de Alencar.

Agora, no entanto, Vanderlice dá expediente na pasta da ex-patroa. Ela foi nomeada servidora comissionada, com gratificação DFA-12. O ato administrativo foi publicado na edição do Diário Oficial do DF (DODF) de 15 de abril. Desde então, Vanderlice atua como assessora do gabinete de Márcia, das 14h às 20h. Na função, ela atende telefonemas e recebe visitantes, entre outras funções.

Entorno
A reportagem foi até a casa de Vanderlice, no Entorno do DF, e conversou com uma filha da servidora pública. A moça confirmou que a mãe trabalhava, até o mês passado, na casa de Márcia de Alencar, mas largou os afazeres domésticos para assumir o cargo no gabinete da chefe da Segurança Pública do DF.

Esta não é a primeira vez que Márcia de Alencar tentou levar Vanderlice para a administração estatal. Em outras duas ocasiões, a ex-empregada doméstica chegou a ser nomeada para um cargo comissionado de assessora técnica.

No primeiro caso, em agosto de 2015, ela seria lotada na Subsecretaria de Segurança Cidadã, na época em que Márcia chefiava o departamento. Entretanto, não conseguiu tomar posse. Oficialmente, a nomeação foi tornada sem efeito porque Vanderlice não assumiu o cargo em tempo hábil. Naquele período, ainda lhe faltava a escolaridade mínima necessária, o ensino médio. Em 23 de março deste ano, houve uma nova tentativa. Vanderlice foi nomeada novamente para o mesmo cargo, mas também não entrou em exercício.

A ex-doméstica só passou a integrar os quadros do funcionalismo local este mês, após ser nomeada como assessora de gabinete da ex-patroa. A posse só foi possível porque Vanderlice cursou um supletivo e, finalmente, conseguiu o grau de instrução mínimo exigido para o cargo. Até 2014, quando Vanderlice trabalhava em uma unidade das Lojas Americanas de Valparaíso (GO), ela ainda não havia concluído o ensino fundamental.

Ao ser questionada sobre a nomeação de Vanderlice, a Secretaria da Segurança Pública disse que “a servidora mencionada foi nomeada em cargo compatível com seu nível de escolaridade e que, desde então, desempenha funções administrativas na secretaria”. Ainda por meio de sua comunicação social, a pasta sustentou que “não há nenhuma irregularidade administrativa na nomeação da assessora”.

Carona na viatura
O uso de veículos funcionais da Secretaria de Segurança para transportar parentes de Márcia de Alencar foi revelado pelo Metrópoles nesta quarta-feira (27). Quem leva e busca os familiares da secretária na escola é um 2º sargento da PM. O transporte é feito, diariamente, com uma das viaturas descaracterizadas da pasta.

A rotina do policial que atende a secretária começa cedo. Ele chega ao prédio onde a família de Márcia mora no Plano Piloto por volta das 6h30. E, ao longo do dia, faz, pelo menos, quatro viagens para cumprir sua missão. Duas de manhã, quando leva e busca um dos familiares de Márcia na escola; e outras duas à tarde, para, mais uma vez, deixar no colégio e trazer de volta para casa outro parente da secretária de Segurança.

Márcia de Alencar se vale de um ofício assinado pelo chefe da Casa Militar, Cláudio Ribas, que, desde 1º de abril, recomendou à colega o uso de escolta no dia a dia — Ribas ainda sugere que a providência se estenda para os familiares mais próximos da secretária. Em um evento público na manhã desta quarta (27), no entanto, Ribas admitiu que nunca existiu uma ameaça real à integridade da secretária e que essa a medida tem um valor preventivo.

Explicações na CLDF
O episódio repercutiu nesta quarta (27) na Câmara Legislativa. Os deputados tentaram aprovar um requerimento para convocá-la, mas a proposição foi negada. Onze parlamentares estavam ausentes, dois votaram contra e dois se abstiveram.

No entanto, o deputado Júlio César (PRB), líder do governo na Casa, afirmou ter ligado para a secretária para fazer um convite. No telefonema, Márcia teria confirmado a presença diante dos distritais na tarde de 5 de maio, a quinta-feira da semana que vem.

do Portal Metrópoles
Colaborou Manoela Alcântara
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