10 de mai de 2016

De gravata borboleta, ambulante ganha a vida vendendo água no semáforo

FELIPE MENEZES/METRÓPOLES
Pedro Henrique Santiago vai às ruas elegante e aposta na simpatia para conquistar clientes perto da Rodoviária do Plano Piloto. 
Estratégia tem dado resultado, e ele já sonha em abrir um negócio
“Boa tarde, senhora; boa tarde, senhor. Aceita uma água bem gelada por apenas R$ 2?” Quem passa no semáforo do Eixo Monumental perto da Rodoviária, no sentido Esplanada, é recebido dessa maneira por Pedro Henrique Santiago, de 27 anos.

A história poderia ser a de mais um ambulante tentando ganhar a vida no centro de Brasília. Mas o vendedor, nesse caso, veste camisa social e gravata borboleta, com um chapéu estilo fedora na cabeça. Entretanto, o acessório imprescindível é a simpatia, principal estratégia para conquistar os clientes.

Eu morava em Florianópolis e vim para cá há menos de um ano. Arrumei uns bicos de ajudante de mecânico, servente de pedreiro e de garçom, até que tudo acabou e eu fui vender água no semáforo. No primeiro dia, só vendi 24 garrafas e lucrei pouco. Então, fui dar uma volta no shopping e pedi uma água, mas custava R$ 4,90, e dispensei. Sentei no banco perto da lanchonete e fiquei observando. O garçom vinha com uma bandeja, todo elegante, tratava o povo bem e tinha um monte de gente comprando, mesmo a água sendo tão cara. Aí, pensei: ‘Se eu fizer isso, será que consigo vender mais?’. No primeiro dia com a roupa social, vendi o dobro: 48 garrafas"
Pedro Henrique, vendedor
O sucesso do “empresário das ruas” também está no cardápio variado. “Além da água normal, eu tenho água com gás, refrigerante e suco. Tenho umas balinhas também e umas gomas de mascar que as crianças sempre gostam”, conta. Atualmente, Pedro Henrique vende cerca de 60 garrafas de água por dia, sem contar as outras bebidas, que fazem com que o número de itens ultrapasse os 100. “Eu já fiz teatro e fui garçom. Aposto na apresentação, na educação e na boa postura. A bandeja tem gelo, guardanapo. Tudo para agradar o cliente.”

“Depois que eu vim aqui para esse ponto, há três meses, apareceram alguns concorrentes e eles estão vendendo água por R$ 1. Mas eu não vou abaixar o meu preço, né? Já tenho os meus clientes, que passam aqui só para me ver e que compram só porque eu estou vestido assim. O povo no carro com ar condicionado gosta disso. Tenho água com gás só por causa de uns três clientes que gostam”, declarou o ambulante. Mas o trabalho não é fácil. A roupa quente sob o sol forte se somam às buzinadas quando ele está na frente de um carro quando o sinal abre. A resposta aos apressadinhos é um sorriso e um pedido de desculpas.

“Para sair daqui, só se for um emprego bom demais. Aqui eu faço meu horário, uso minha criatividade, tenho a liberdade de inovar e fazer o que quero. Já trabalhei em lugares em que toda vez que eu ia sugerir algo para o meu chefe, ele não deixava. Quero isso mais não”, desabafa. E, para o futuro, ele já tem grandes planos. “Assisti a umas palestras na internet sobre administração e gostei. Acho que estou no caminho certo. Por isso, comecei um cursinho pré-vestibular para ver se consigo entrar numa faculdade.”
Ainda na informalidade, o ambulante também sonha em, um dia, abrir um bar. Para isso, junta o dinheiro que ganha nas ruas e tenta se manter bem informado por meio da internet. Entre um sinal verde e um amarelo nesta terça-feira (9), quer ler sobre a própria história publicada no Metrópoles. “Você pode mandar o link da matéria para o meu e-mail ou pleo WhatsApp?”, questionou. Claro, Pedro Henrique. O link já está no seu smartphone.

do Portal Metrópoles
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