7 de mai de 2016

Gregório Duvivier: 'Jovens estão ensinando a gente como se faz política'

Laura Carvalho, Gregório Duviver, Leonardo Sakamoto e Guilherme Boulos: união para fortalecer a resistência
CAROLINA SPORRER / ARQUIVO FACEBOOK
Humorista e escritor exalta mobilização dos estudantes durante debate em São Paulo. Camila Lanes, da Ubes, acusa mídia de tentar criminalizar ocupação da Assembleia Legislativa e do Centro Paula Souza
por Helder Lima, da RBA

São Paulo – A mobilização dos estudantes secundaristas, que nesta semana ocuparam a Assembleia Legislativa de São Paulo e o Centro Paula Souza, é exaltada pelo escritor e humorista Gregório Duvivier como exemplo para a ação política frente ao grave momento político que o país enfrenta. "Os jovens estão ensinando a gente como se faz política", disse Duvivier na noite desta sexta-feira (6) ao público que se reuniu na Praça Roosevelt, região central da capital paulista, para acompanhar o debate "Resistência! Sem medo, sem ódio, a luta continua", promovido pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e Frente Povo Sem Medo.

"Onde eu estava na compra da reeleição de Fernando Henrique Cardoso (em 1998), por que eu não estava ocupando nada", indagou Duvivier ao observar que a ocupação se tornou um forte instrumento da luta política. "Essa é a forma hoje, só assim as coisas mudam de verdade", afirmou, depois de comentar que a votação do impeachment pelo plenário da Câmara Federal, em 17 de abril, foi um episódio vergonhoso e repulsivo. "As pessoas começaram a perceber que é uma batalha contra o povo, contra as conquistas sociais e está muito longe de ser uma batalha contra a corrupção. O impeachment está acontecendo em nome de um golpe, em nome de 1964", disse, lembrando a instauração da ditadura que perdurou por 21 anos no país.

Na sequência de Duvivier, a presidenta da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (Ubes), Camila Lanes, que atuou na ocupação de quatro dias do plenário da Assembleia, afirmou que a grande mídia tentou criminalizar a mobilização dos estudantes pela instalação da CPI da merenda, classificando-a como invasão. "Mas aquele lugar nos pertence; na democracia, é lugar do povo, do filho do trabalhador, de todos que fazem deste país algo melhor", disse.

Camila destacou que sua principal mensagem a partir de agora é a necessidade de mobilização para enfrentar o golpe em marcha com o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, cuja admissibilidade será votada no plenário do Senado na próxima quarta-feira (11).

O debate contou também com o líder do MTST Guilherme Boulos e com a professora de Economia da USP Laura Carvalho. A mediação foi feita pelo jornalista Leonardo Sakamoto. Todos eles ressaltaram a necessidade do campo progressista se manter unido para resistir ao golpe articulado pela coalizão entre legislativo, judiciário e mídia conservadora.

Boulos disse que o caso da sem-teto Edilma Aparecida Vieira dos Santos, baleada na quarta-feira (4) pelo PM Robson Vieira do Nascimento, durante manifestação do MTST em Itapecerica da Serra, reflete as tensões que marcam a crise política neste momento. "Foi o PM que atirou, mas o gatilho não foi apertado somente pelo PM, mas também pelo Bolsonaro (deputado Jair Bolsonaro, PSC-RJ), pela Rede Globo, pelo pastor Silas Malafaia", afirmou, referindo-se aos conservadores que têm disseminado ódio contra a esquerda no país. Ele também disse que o deputado estadual João Paulo Rillo (PT) se tornou alvo de quatro pedidos de cassação por ter apoiado a mobilização dos estudantes.

Depois de considerar que o impeachment sem crime de responsabilidade é um golpe marcado por escárnio, hipocrisia e cinismo, sobretudo frente ao fato de que o relator do processo no Senado, Antonio Anastasia (PSDB-MG), "usou e abusou das pedaladas fiscais", Boulos disse que o eventual governo de Michel Temer não terá sustentação nas ruas do país. "Quem foi à avenida Paulista contra a Dilma também não quer o Temer, que é biônico, feito por eleição indireta". Boulos classificou a agenda de governo de Temer como "de uma regressão social sem precedentes no país". E também destacou que "haverá uma ampla resistência aos retrocessos que ele quer impor".

A professora Laura Carvalho falou sobre as contradições que marcam a crise política. Ela citou como exemplos o abandono por Dilma da agenda de ampliação de direitos que a elegeu em 2014, e o caso das pessoas que querem o fim da corrupção, mas, para tanto, estão dando poder aos corruptos – a maior parte dos parlamentares que apoiam o impeachment sofre acusações criminais.

Laura fez uma análise sobre a situação do governo de Dilma, e disse que o programa Ponte para o futuro, lançado pelo PMDB como norte do possível governo de Michel Temer, levará a um aprofundamento das medidas de ajuste e de ataque a direitos trabalhistas. "Essa agenda do PMDB terá mais força dentro do Congresso para passar, e se não resistirmos os retrocessos serão imensos", afirmou. "Temos de aproveitar a união do campo progressista para resistir; a única luz de otimismo que temos é a união, e os estudantes ocupando. Vamos lutar e resistir em cada espaço que a gente domina."
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