18 de abr de 2015

A debilidade dos grandes - por Theofilo Silva

Não se pode falar de Poder sem falar de Shakespeare. Trata-se de duas palavras indissociáveis. 
Provo isso, mostrando que ninguém apresentou e deslindou as entranhas do poder com tanta argúcia e acuidade quanto o genial inglês — indo bem além do imprescindível Maquiavel, – tal a enormidade de situações envolvendo questões de poder contidas em suas peças imortais. Seja conquistando, obtendo, mantendo e perdendo-o. Ele põe suas personagens, condes, duques, princesas, reis e rainhas mentindo, roubando,  guerreando, matando, amando, construindo, trabalhando, administrando. 
Igualzinho aos nossos homens e mulheres nos dias de hoje. E ele fez isso porque sabia que é assim que o poder funciona. E sabia, acima de tudo, que a personalidade de alguém que detém o poder, principalmente poder político, dos líderes que dirigem um estado, é fator preponderante na condução dos negócios, e que suas fraquezas – orgulho, prepotência, libido, desejo, vaidade – podem condenar todo um empreendimento, até mesmo uma sociedade, ao fracasso. E que o sucesso é fruto do equilíbrio desses afetos num indivíduo e da solidez das instituições que o cercam.

Enviado por email por Theofilo Silva
de seu site Shakespeare Indignado

Pois o homem é falível – todo mundo sabe disso, mas ele mostrou quais são as falhas, e dissecou-as – tem pontos fracos, às vezes, um único ponto, traços de caráter e personalidade que podem destruir tudo, ele mesmo, e os que estão ao seu redor. Que o poder é assustador para qualquer um. E que, quando alguém o conquista, esse alguém mudará sua maneira de agir, pra melhor ou para pior: tornando-se cruel, despótico, centralizador, magnânimo, perdulário, generoso, paciente, apressado, distante, obcecado, perverso, neurótico. Daí que ele diz em Hamlet, pela boca do Rei Cláudio “Que a loucura dos grandes deve ser vigiada”.

Trago essa discussão porque observo que a sociedade tende a dar caráter de completude, até mesmo infalibilidade a seus líderes: sejam políticos, governantes, empresários, benfeitores, transformando-os em ídolos. Achando que eles são “completos”. O fato de alguém com enorme talento, coragem e capacidade de trabalho, que tem sob seu poder centenas, milhares e mesmo milhões de pessoas, não o transforma em alguém, como se quer pensar, em um ser “perfeito”. Pode ser o líder de uma empresa, uma grande corporação, uma cidade, país, exército, fundação, tribunal etc. Pelo contrário, com quanto mais situações ele precise lidar, tanto mais ele apresentará seus defeitos. É comum, ao se decepcionarem com um vencedor, as pessoas dizerem: “Como um homem que chegou tão longe pode ser tão burro”. A resposta é: pode! Shakespeare prova isso. Perguntem par a o Eike Batista!

Sabendo disso, em seu gigantesco palco, Shakespeare traçou a personalidade de Brutus, um homem muito rico, educado, honesto, respeitado, mas ingênuo,  que se deixa envolver numa trama montada por invejosos, fazendo-o participar da conspiração que matou o poderoso Júlio César, jogando  Roma na guerra civil. Ou de Otelo, um general competente, de cor negra, nobre e respeitado, que se acha incapaz de ser amado por uma mulher jovem e branca – que o ama verdadeiramente – e se deixa levar pelas maquinações de um sujeito perverso, matando sua jovem esposa. Ou de Lady Macbeth, que, para conquistar o reino da Escócia, envenena a alma do marido até ele matar o bondoso rei Duncan, obtendo o trono, para perdê-lo logo em seguida, cometendo suicídio. Ou do velho rei Lear, da Bretanha, que, incapaz de discernir o amor das filhas, acaba dividindo seu reino em três partes, provocando discórdia, guerra e morte.

Ninguém é perfeito, todos sabemos disso, mas, se damos poder a alguém, devemos estar preparados para surpresas. E é certo que aquilo que mais aparecerá do líder serão suas fraquezas. Administradores vivem sob pressão constante, e é sob pressão que as  falhas aparecem.

Hoje, a figura mais badalada na imprensa do país, chamado de maquiavélico, “durão”,  por sua “capacidade”, “inteligência” de grande negociador, é o presidente da Câmara Federal, o temido carioca Eduardo Cunha. Um indivíduo que adora parecer um vilão. Desafia tudo e a todos como se a Câmara dos Deputados se sobrepusesse a todas as instituições do país. Sempre que vejo Cunha, lembro-me da frase de Shakespeare em Macbeth “As múltiplas vilanias da natureza enxameavam nele”. Seu “calcanhar shakespeariano”, que muitos de nós já conheciam,  já nos foi apresentado pela Polícia Federal e Procuradoria da República. Portanto, vamos aguardar um pouco até que a tragédia se consuma.

Esse artigo não é sobre Eduardo Cunha, ele entrou aqui de gaiato. É um alerta para todos aqueles que pensam que seus ídolos são super-heróis.
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