14 de jul de 2016

Projeto leva o esporte para todas as aulas

Transforma estimula o desenvolvimento de valores olímpicos de forma transdisciplinar nas escolas, e não apenas na Educação Física

por Camila Leporace

Qual é a relação do esportes com a educação? Como ela se constrói e quais frutos pode gerar? O projeto Transforma, do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos, busca mostrar que se trata de um relacionamento sólido, capaz de abrir uma série de oportunidades de aprendizado que vão além dos esportivos, sensibilizar e ampliar os conhecimentos de alunos e professores – muitas vezes de forma surpreendente.

O Transforma teve início em 2013, três anos antes de o Rio de Janeiro se tornar a primeira cidade da América do Sul a sediar as Olimpíadas. Começou com um piloto que envolveu cerca de 15 escolas do Rio. Hoje, está em cerca de 10 mil instituições de ensino nos 26 estados do Brasil e no Distrito Federal. Ao serem convocadas para o piloto, inicialmente as escolas enviaram apenas professores de Educação Física para participar. Mas a ideia não era limitar o programa a essa disciplina.

É o que conta Vanderson Berbat, gerente de Educação do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016, em entrevista ao Porvir. “O programa visava desenvolver habilidades socioemocionais e, por isso, podiam participar professores de qualquer disciplina. Não é um programa de esportes. Utiliza o imaginário olímpico para qualquer temática de aula”. Berbat define o Transforma como uma ferramenta livre, para ser usada da maneira como cada escola quiser. Para começar a participar, basta acessar o site do projeto, que disponibiliza materiais didáticos, vídeos e tutoriais.

Valores olímpicos e paralímpicos
Uma grande preocupação do programa está relacionada à absorção de valores olímpicos e paralímpicos pelos alunos. Berbat cita como valores olímpicos o respeito, a excelência e a amizade, e paralímpicos a igualdade, inspiração, determinação e a coragem. E explica como eles foram inseridos no ambiente escolar pelo Transforma.

“Estes valores precisaram passar por uma tradução pedagógica para entrar na escola, já que, falando a sua linguagem, ganham maior aderência junto a seus vários públicos. Foram, então, elaborados cinco valores educacionais: equilíbrio entre corpo, vontade e mente; alegria do esforço; busca pela excelência; jogo limpo e respeito pelos outros”.

O professor de Educação Física Fábio Dionízio, da escola SESI de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, traça um paralelo entre os valores olímpicos e o cotidiano de seus alunos. “Os alunos passam a refletir sobre o comportamento e as relações dentro e fora da escola, o que contribui para o combate ao bullying”.

Aluno do nono ano no SESI, o estudante Natã da Rocha demonstra clareza em relação a essa conduta. “Os valores trabalhados mostram que devemos respeitar o próximo em todas as decisões, manter o jogo esportivo, nunca desrespeitar o companheiro, sempre buscando o motivo e objetivo do jogo ou campeonato. Isso tudo sabendo que um dia você vence e no outro você pode perder”.

Para que as escolas trabalhem os valores sugeridos em sala de aula, Berbat aponta várias sugestões. “Gincanas criativas; estudos de caso e exemplos reais de atletas e ex-atletas, objetivando melhorar o clima escolar, aumentar a frequência discente, prevenir bullying, valorizar a diversidade, elevar a autoestima e desenvolver nos alunos a alegria do esforço”.

O gerente de Educação do Comitê recomenda que toda atividade seja finalizada com um bate-papo que faça pensar. “Os alunos devem ser convidados a refletir sobre o que foi conversado ou experimentado, a imaginar o que fariam nas mesmas situações e a compartilhar suas impressões. Os professores, atentos às falas dos alunos, devem ressaltar os valores na medida em que aparecem”.

Jovens líderes
O Transforma estimula que as escolas tirem estudantes do seu papel tradicional de receptores de informações para atuar como o que o programa chama de Agentes Jovens: eles tornam-se multiplicadores dos conhecimentos adquiridos, levando-os aos colegas de sala de aula. Isso intensifica, ainda, os valores olímpicos e paralímpicos entre os estudantes. É o que explica Lucia Helena de Sousa, diretora da Escola Municipal Tenente General Napion, no Rio de Janeiro.

“Resgatamos alunos indisciplinados, que eram líderes negativos, sempre envolvidos em confusões, e os transformamos em Agentes Jovens, líderes e motivadores de boas ideias e exemplos”. Segundo Lucia, direcionar os alunos com aptidão para a liderança para esse papel de influenciadores positivos gerou impacto não só no comportamento como no boletim, aumentando as notas, e ainda na participação nas aulas e na frequência às salas de leitura da escola.

Experimentação, prática e variação de papéis
Os professores de Educação Física, por sua vez, foram deslocados do papel de recreadores para assumir uma função central, sendo convidados a inovar em suas aulas ao introduzir novos esportes aos alunos. Nesse contexto, o improviso e a criatividade têm se mostrado bons aliados. É o que reforça a professora Raquel Lopes Augusto, do SESI Jacarepaguá. “Nas aulas práticas, utilizamos materiais alternativos ou recicláveis para o aprendizado das modalidades trabalhadas, como o jornal, a garrafa pet, papelão, cabo de vassoura, areia, meião, bambu e cano de PVC”.

Na escola municipal Luiz Biella Souza, de Jundiaí, São Paulo, também houve essa iniciativa. “Os alunos e professores foram desafiados na produção de materiais para tal prática e o resultado foi de grande valia”, contam Valter de Almeida e Moizes Neto, professores de Educação Física e Esportes.

Além de conhecer novos esportes, os alunos têm sido convocados pelas escolas a experimentar a prática de esportes paralímpicos. O SESI estimulou o vôlei com os estudantes sentados, simulando a forma como atletas paralímpicos fazem. A aluna do sexto ano do SESI Monintthelly Forte gostou de experimentar, e sentiu que a prática contribuiu para aumentar a sua empatia. “É sempre bom estar com os amigos fazendo parte de um grupo, uma equipe, e faz eu me colocar no lugar de uma pessoa que não pode andar”.

Transdisciplinaridade
Caracterizado pela intensa experimentação, o Transforma ainda propôs para os coordenadores pedagógicos das escolas o desafio de integrar os temas olímpicos a todas as disciplinas ensinadas. Assim, todos os professores são instigados a variar os exemplos em sala de aula, utilizando os esportes no contexto do conteúdo das matérias. Segundo Julio Natalense, líder de Tecnologia e Sustentabilidade da Dow – uma das patrocinadoras dos Jogos Olímpicos – levar a temática dos esportes aos alunos de uma maneira mais prática contribui para despertar a sua curiosidade, já que eles saem do lugar-comum. E é um conhecimento que pode ser associado a disciplinas clássicas como Física, Química ou Matemática.

Isso acontece quando alunos são apresentados, por exemplo, a explicações sobre como se constrói um estádio e qual a necessidade de utilizar um impermeabilizante no processo; como o uso de certos materiais nos uniformes dos atletas pode servir para evitar a umidade extrema; o que acontece com o corpo de um atleta quando há o doping – oportunidade em que se pode também reforçar valores; conceitos de Física e Estatística ligados ao futebol e ao basquete, e por aí vai.

Localizada na periferia de São Bernardo do Campo, São Paulo, a Escola Municipal Profª Suzete Aparecida de Campos encontrava-se sem conexão à internet quando Fernanda Borges – uma professora voltada à educação tecnológica – decidiu estimular seus alunos a utilizar peças de LEGO para desenvolver projetos relacionados às olimpíadas.

“Como eles poderiam estar inseridos na questão das olimpíadas utilizando uma ferramenta tecnológica? Foi assim que surgiu a ideia”, conta. “Iniciei o “Projeto Olimpíadas” com os alunos do 2º ano do ciclo 2 (ensino fundamental 2) oferecendo reportório a respeito do tema citado com vídeos e reflexões. Após essa etapa, cada grupo escolheu uma modalidade olímpica e, por meio do LEGO, desenvolveu construções que simulam as modalidades escolhidas. O projeto culminará em uma sala temática na qual a comunidade poderá observar e manusear essas construções conhecendo um pouco mais a respeito dos trabalhos desenvolvidos”.

Professora de Matemática da Escola SESI Jacarepaguá, Glória Luna conta também uma experiência que realizou com seus alunos, relacionando os esportes à matéria que leciona. Ela levantou com eles diversos aspectos envolvidos nas Olimpíadas – as diferentes modalidades esportivas, os atletas brasileiros que representarão o país, os espaços construídos para o evento, os pontos turísticos da cidade do Rio de Janeiro, os custos estimados para construção de espaços olímpicos e outros. E usou tabelas e gráficos para registrar tudo.

”Criamos imagens referentes às olimpíadas e registramos em papel quadriculado de forma simétrica. Aplicamos o conhecimento de adição e subtração de números positivos e negativos, registrando o saldo de tabelas de jogos. Com essas atividades, participamos mais ativamente da temática”, conta a professora.
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