30 de out de 2016

A PUTA

A PUTA

Ela é uma puta, só uma puta, não mais.
Pasto para repasto de todos, não mais.

De carnes devidamente tarifadas
E sexo cronometrado, é desaguadouro
De instintos, talvez necessidades
Que perambulam libidos e camas.

Execrável porque exemplo de pior estirpe,
Quase delito inscrito em pouca roupa
E maquiagem, talvez disfarce, esconderijo.

Ontem resolvi seguir a puta.

Curioso do humano, do que se esconde
Onde colam rótulos, resolvi seguir a puta,
Descobrir em que meandros palmilha
As horas fora do expediente.

Ela despediu-se das amigas,
Parceiras e concorrentes nas calçadas,
E se encaminhou para o terminal dos ônibus.

Desceu em subúrbio onde mora a miséria
E a morte faz incursões diárias
Para casamentos continuados,
Com a aids, as diarréias, as balas perdidas.

Entrou no supermercado, ar de preocupada,
E saiu com duas bolsas, materialização
De gemidos, obscenidades, esperma e cio
Em comida, material de limpeza e outros.

Caminhou bom pedaço de muitos metros
E chegou em casa, atravessando a porta.

Não bastou. Incursão interrompida
É só passeio, não se justifica.
Era preciso eu saber mais, ver mais,
E sorrateiramente caminhei para a janela.

Em redor da puta crianças brincavam,
Felizes, vasculhando as bolsas,
Farejando novidades para os paladares.

Numa poltrona rasgada, toda manchada,
Em trajes domésticos e não maquiada,
A puta tinha no colo uma contradição,
Talvez fruto de um amor proibido
Ou distração na hora em que trabalhava.

Doce e despida do rótulo,
Absolutamente doméstica,
Longe dos clientes e das calçadas,
Uma mãe amamentava.

Francisco Costa
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