1 de mar de 2017

Vaticano vive intrigas ao estilo "House of Cards"

Foto: FILIPPO MONTEFORTE / AF
Com ajuda de nove cardeais, Francisco responde a cartazes e panfletos anônimos publicados por religiosos descontentes com intenção papal de abrir igreja para os divorciados que voltaram a se casar no civil 

No último episódio do duelo entre o Papa e os conservadores, Francisco responde, com a ajuda de nove cardeais, a cartazes anônimos e a um panfleto satírico, intrigas próprias da série House of Cards.

O Papa argentino quer abrir a igreja aos fiéis "em situação irregular", como os divorciados que voltaram a se casar no civil.

O chefe da igreja católica deixa a critério dos bispos que os divorciados casados pela segunda vez possam receber a comunhão em alguns casos. Essa recomendação papal enfurece os guardiões intransigentes de um dogma milenar. Para eles, o casamento é indissolúvel e as relações com um novo cônjuge constituem um pecado mortal de adultério.

Quatro cardeais conservadores enviaram há alguns meses ao Papa uma carta na qual o acusam de semear confusão e pedem uma resposta as suas "dúvidas" sobre as recomendações relacionadas à família publicadas em abril. Entre eles figura o cardeal americano Raymond Burke, considerado o conspirador chefe, que pede inclusive que o Papa seja sancionado por "seus erros".

Não é a primeira vez que Burke ataca. Agiu desta forma há dois anos, o que lhe valeu o afastamento de um posto de responsabilidade no Vaticano, sendo relegado a chefe da Ordem de Malta.

Suspeita-se que tenha atiçado uma revolta nesta ordem católica, o que levou o Papa a exigir no fim de janeiro a partida do Grão-Mestre. Francisco nomeou no dia 4 de fevereiro o número três do Vaticano para encarrilar novamente os Cavaleiros de Malta no bom caminho espiritual, relegando ao monsenhor Burke o papel de figurante.

Neste mesmo dia, os romanos encontraram mais de 200 cartazes anônimos espalhados pela cidade. A frase "Mas onde está a misericórdia?" aparecia em um cartaz sob o retrato do pontífice argentino com semblante mal-humorado; em outros cartazes era acusado de ter "ignorado os cardeais" e "decapitado a Ordem de Malta". Há uma investigação em andamento.

Na semana seguinte, o Papa foi alvo da divulgação de um falso "Observatore Romano", o jornal oficial do Vaticano, que o ridicularizava colocando em sua boca respostas ambíguas às perguntas dos cardeais descontentes.

Cardeais ao resgate
O "C9", um grupo de nove cardeais que aconselham o Papa sobre reformas internas, não ficou de braços cruzados. 

"Em relação aos acontecimentos recentes, o Conselho dos Cardeais manifesta o seu total apoio à ação papal", escreveram na segunda-feira. 

No universo da Santa Sé, onde o respeito pelo Papa é considerado garantido, este apoio não passou despercebido. Ele permite que Francisco pareça menos isolado nos corredores do Vaticano. Também pode ser interpretado como um sinal de fraqueza de seus opositores.

Um dos cardeais do C9, o alemão Reinhard Marx, explicou na quarta-feira que o grupo não queria dramatizar, mas era o momento de reiterar a "lealdade ao Papa". 

"Está claro que temos discussões e tensões na Igreja, mas sempre será assim", acrescentou. 

Outro cardeal, responsável pela interpretação dos textos legislativos, publicou um livro confirmando a possível comunhão dos divorciados que voltam a se casar, ou seja, em sintonia com Francisco. Nos últimos meses, o pontífice, que goza de grande popularidade no mundo, se defendeu, afirmando que dormia "como uma pedra", ignorando os que veem tudo "em branco e preto".

Fonte Zero Hora
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