17 de mai de 2016

A origem do "prato do dia"

Caio Porto
 No portão da escola, nos corredores do escritório, no grupo de WhatsApp da família, no Twitter, na vida. Não há lugar no planeta que resista à melancolia que se instaura nas manhãs de segunda-feira.
Mas fiquem tranquilos, nada dura para sempre. Poucas horas se passam até que empenhados garçons comecem a aparecer nas calçadas dos seus estabelecimentos, com panos de prato nos ombros, carregando simpáticas e pequeninas lousas de madeira. Na superfície verde-escura, está escrita a mensagem que representa, talvez, o primeiro sopro de felicidade do dia: " Prato de hoje – Virado à paulista".

Na opinião da professora Paula Pinto e Silva, doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo, o prato do dia é a comida de casa colocada na rua, em um restaurante. Autora do livro Farinha, feijão e carne-seca: Um tripé culinário no Brasil colonial(Senac), ela afirma que ao se estipular uma escolha do cardápio relacionada a um dia da semana, existe aí uma forma de vínculo de quem precisa comer fora com a comida. "Está ligado a um contexto urbano. Na cidade pequena, a pessoa volta para casa e almoça; na metrópole, você sai pela manhã e retorna à noite", ressalta. Quando se institui nessa rotina um prato fixo para cada dia, cria-se uma chance de se estabelecer uma "mínima constância" na alimentação. "Não importa o que aconteça, toda quarta-feira tem feijoada. Se ele não comer nessa semana, certamente pode comer na próxima", diz.

ORIGENS
Segundo a pesquisadora, as raízes dessa tradição encontram-se ainda no século 19, no Rio de Janeiro, sede do império, diante de todas as situações que montavam o cenário da época. Nesse quadro estão, por exemplo, a própria transferência de toda a corte portuguesa para o Brasil e a consequente chegada de viajantes da Itália, França, Portugal, Inglaterra. E, também, a presença de gente daqui, que rumava para a mesma cidade em ebulição, como fazendeiros falidos da região da cana-de-açúcar no Nordeste.

"É o início do restaurante no país, ou do comer fora. A literatura chama de 'casas de pasto', que serviam refeições aos homens solteiros, que não estavam ali com a família", explica. E nessa nova rotina, os estabelecimentos passam a estipular receitas fixas através de cardápios (ou ementas, para os portugueses).

Em tempos mais recentes, segundo Paula, a tradição do prato feito nosso de todo dia e está na mesa do seu restaurante predileto, com direito a diferenças regionais. "O prato do dia é a escolha que a sua região fez por você", afirma.

RANGO E IDENTIDADE
Além da nutrição, a professora explica que a comida é um veículo de expressão de identidade. "Quando como, falo quem sou e de onde vim", cita a especialista, que salienta, até mesmo, o papel de apontar para o futuro que uma simples refeição possui. "Quando os restaurantes de comida japonesa chegaram a São Paulo, por exemplo, quem os frequentava eram apenas os orientais ou, então, pessoas mais abertas a novas experiências, a pratos que não se comia naquela época, mas que poderiam ser adotados no futuro", diz.

Agora que já sabe de onde veio essa história toda de cada dia ter seu prato típico, selecionamos cinco opções em estabelecimentos tradicionais da capital paulista para você bater aquele rango nervoso.

Por Marcelo Daniel
em Vice
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