29 de out de 2016

Me enganem porque eu gosto

Foto Joaquim Dantas/Arquivo
Foto Joaquim Dantas/Arquivo
Estão me dando veneno e dizendo que vão me salvar
Caminhamos para o oitavo mês do afastamento de Dilma, mais de meio ano e todos os índices sociais e econômicos vão se deteriorando aceleradamente, já nos fazendo sentir saudades do “inferno petista”.

Só no mês de setembro tivemos quase meio milhão de desempregados a mais, em relação ao mês anterior, e isso diz muito.

O discurso dos golpistas esconde, escamoteia, ilude a claque, tonta, repetindo os sete anões: “eu vou, eu vou, eu vou pro matadouro, eu vou...”, com esperanças não sei de quê.

Lentamente, a exemplo do que acontece no resto do mundo ocidental, as classes sociais vão se tornando castas (embora com muita dificuldade, a mobilidade entre classes é possível. Entre castas, não).

A construção civil é o setor que mais emprega, principalmente a chamada mão de obra não qualificada, os trabalhadores de baixa escolaridade e, no entanto, a retração nos investimentos no PAC é enorme.

A redução, pela metade, dos investimentos na Petrobras, associada à quebra do monopólio de exploração no PreSal, desativará todo o setor de suporte, a começar pelas empreiteiras e estaleiros(as multinacionais, quando não têm os seus próprios estaleiros, já têm estaleiros preferenciais, todos no exterior), o que agravará o desemprego, com o fechamento de mais postos de trabalho.

Menos gente trabalhando, depreciação de salários, por causa do chamado exército de reserva(conjunto de desempregados), pronto para substituir a mão de obra ativa, trabalhando.

Mais desempregados e achatamento salarial, menor consumo.

Menor consumo, menor arrecadação. Menor arrecadação, maiores rombos nas contas públicas, menores investimentos.

Mas não basta extorquir diretamente o trabalhador, via salários miseráveis, é preciso tomar-lhe até os salários miseráveis, e aí as maiores taxas de juros do mundo, fazendo o trabalhador entregar o seu dinheiro, nos crediários e empréstimos bancários, consignados ou não, aos capitalistas.

Menor consumo, menor produção, maior desemprego, num círculo vicioso crescente, aprofundando a recessão.

Para gerar dinheiro, a venda do patrimônio público, diretamente, através das privatizações, ou indiretamente, através dos contratos de concessão.

Enquanto isto acontece no andar de baixo, em cima...

O governo permite a repatriação de dinheiro sonegado, fruto de propinas, lavado da criminalidade, produto da evasão de divisas... Mediante módico imposto, uma lavagem oficial de dinheiro.

Não cria impostos progressivos, deixando que tudo fique como está, com a ralé pagando a maior parte da carga tributária.

Não taxa as grandes fortunas nem cria impostos sobre a transmissão de grandes heranças(o Brasil é um dos poucos países a não cobrar esses tributos).

Não cobra impostos sobre os lucros do capital nem sobre as instituições financeiras(bancos, financeiras, bolsas...).

Não cobra a dívida ativa da União nem os impostos devidos pelos magnatas, o que corresponde a mais de 20% do nosso PIB, mais de um trilhão de dólares.

Mas para manter a patuléia acomodada, nas cercas, sem arrombar as porteiras, há que se criar uma casta intermediária, pelega, capataz, repressora, e aí...

Não há dinheiro para nada, mas o Judiciário levou quase 50% de aumentos salariais.

Não há dinheiro para nada, mas a Polícia Federal levou 32% de aumentos salariais.

Com isto a segurança física dos magnatas está garantida.

Mas não basta, é preciso convencer à manada que a fome que lhe será imposta é um mal necessário, e aí a renovação da concessão da Globo, o aumento de quase 500% nas verbas de publicidade institucional para esta emissora, o mesmo aumento, de mais de 600% de verbas publicitárias, para a revista Veja...

Mas há os que não lêem nem vêem televisão comercial e aí... As instituições religiosas continuam livres de tributação e fiscalização, para que os seus líderes comprem ou loquem canais de televisão, jatinhos, e ricos e felizes convençam o rebanho que só Jesus na causa, é só ter paciência porque Ele está voltando, e sé está assim é porque fudeus, digo é da vontade de Deus.

Paciência, brasileiros. A PEC 241 passou, vai ser assim só pelos próximos 20 anos, depois melhora, se for da vontade de Deus.

Bem vindos ao tupiniquim admirável mundo novo, tão bem descrito por Aldous Huxley, em seu romance.

Francisco Costa
Rio, 28/10/2016.
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