17 de jan de 2017

Será que sou um machista de esquerda?

“Nada é mais parecido com um machista de direita
do que um de esquerda”
Quem pensa que só os reaças de direita são machistas, engana-se à décima potência, tem muito machista de esquerda sim, não duvide!

De Brasília
Joaquim Dantas
Para o Blog do Arretadinho

Talvez alguns proponham me queimar na "fogueira santa de Israel", do bispo Macedo e de seus comparsas mas, por incrível que possa parecer, existem machistas de esquerda sim.

Um caro e valoroso amigo, "galo doido brigador" pelas causas sociais e socialistas (tomara que ele não leia este post, ou melhor, tomara que leia sim), surpreendeu-me recentemente com um comentário machista. Disse-me o mancebo que "se minha mulher me disser que não gosta mais de mim e quer se separar, tudo bem, sem problemas, isso pode acontecer", aí soltou a bomba: "mas se aparecer em casa grávida de outro, ao menos umas porradinhas eu dou nela, essa gravidez me desmoralizaria perante a sociedade, mesmo que eu naõ deva satisfações à sociedade...", disparou na lata.

Meu queixo só não caiu porque fiz um enorme esforço para que isso não acontecesse.

Outro militante histórico de esquerda aqui da cidade, também surpreendeu-me e à outras pessoas com um comentário público em uma rede social onde postei um vídeo de um rapaz que estava com os olhos vendados em uma praça pública e com um cartaz ao seu lado onde lia-se "sou gay. Você me abraça ou me mata?"

O "gajo" comentou o meu post de forma não só machista mas, disfarçadamente homofóbica (embora muitas pessoas divirjam da palavra "disfarçadamente") . Disse o incauto que não abraçaria o rapaz do vídeo porque o abraço é uma atitude muito íntima entre "amigos" e que "só o respeito" à perspectiva de gênero do "outro", bastaria. Pensamento que impediu-me responder ao seu comentário: "pai, afasta de mim esse cálice", ou cale-se.

Após ser surpreendido por duas vezes, em menos de 72 horas por essas duas declarações, a querida amiga Virgínia Sousa, minha "idala" que toca o foda-se "Fridamente Khalo"  e muito bem resolvida em Goiânia, GO, presenteou-me com o texto que publico abaixo de autoria de Danilo Castelli no sítio  papodehomem.com.br. Leia e tire suas conclusões e reflitamos, amém:

Sinais de que sou um machista de esquerda, por Danilo Castelli

Esta lista contém pensamentos e atitudes de machismo de esquerda, algumas que eu tive, eu e outras que eu vi em outros. Ela vai sendo atualizada à medida que eu encontro novas.

Quando eu sempre tenho o "burguês", "pequeno-burguês", "liberal" e "pós-moderno" preparado para desqualificar o feminismo que me incomoda, seja essa caracterização adequada ou não.

Quando eu minimizo ou rejeito as lutas feministas, dizendo "O verdadeiro problema é o capitalismo" (e, dessa maneira, demonstro a minha ignorância sobre como capitalismo e patriarcado se articulam e a influência reacionária que o machismo tem sobre a classe trabalhadora).

Quando, assim como a direita justifica a ordem social classista-hierárquica com argumentos biologizantes, eu faço o mesmo com relação aos comportamentos e papéis de homens e mulheres. Dessa maneira eu contribuo para a invisibilização e, portanto, para a marginalização de todas as pessoas que não se encaixam ou desafiam a heteronorma e os papéis de gênero.

Quando eu não perco a oportunidade de dizer "O verdadeiro problema é de classe" toda vez que dizem algo a partir de uma perspectiva de gênero.

Quando, em vez de ouvir uma companheira para aprender, eu espero a minha vez para falar.

Quando eu faço mansplaining e/ou gaslighting com as companheiras.

Quando eu só vejo o machismo nas suas manifestações mais visíveis e explícitas (feminicídio, tráfico de pessoas, violência doméstica, estupro, discriminação no trabalho) e me recuso a vê-lo em suas manifestações mais sutis (assédio sexual na rua, desigualdade na divisão das tarefas domésticas, microviolências, violência simbólica).

Quando denuncio com muita firmeza os atos de machismo cometidos por burgueses, políticos, figuras públicas e até dirigentes de outros partidos, mas me faço de distraído sobre o machismo na minha classe social, no meu trabalho, na minha organização.

Quando só denuncio o machismo e a homo/transfobia de políticos, empresários, comunicadores, policiais ou outros agentes diretos da opressão e nunca questiono o machismo dos homens da classe trabalhadora em geral, nem dos meus companheiros de partido em particular.

Quando desqualifico as lutas feministas que me incomodam dizendo "Feministas eram as de antigamente", que é uma maneira mais politicamente correta de chamá-las de "feminazis".

Quando eu acho que a solução do machismo passa unicamente por realizar certas reformas institucionais e um pouco de "conscientização" e excluo a revisão dos meus privilégios masculinos e a minha própria autotransformação.

Quando intelectualizo as discussões numa perspectiva de "objetividade científica" como desculpa para não simpatizar com o ponto de vista "demasiadamente subjetivo" das vítimas do machismo.

Quando eu dou mais valor para as minhas OPINIÕES sobre gênero e diversidade sexual do que para as EXPERIÊNCIAS das mulheres e das pessoas LGBT e as TEORIAS que existem a partir de estudos rigorosos.

Quando banco o "cético" como desculpa para não pesquisar propriamente sobre o assunto já que... Quem precisa de dados se já tem A teoria revolucionária?

Quando ridicularizo as reivindicações feministas/LGBT dizendo que são "exageradas", sem fazer o mínimo de esforço para me colocar no lugar das pessoas marginalizadas.

Quando demonstro incômodo e fico hostil diante da crítica radical do machismo, levando tudo para o pessoal e dizendo coisas como "Eu não tenho culpa pelos séculos de opressão".

Quando todas as minhas posições sobre a questão são projetadas para não ficar alinhado com a direita, mas sem que isso implique um compromisso real da minha parte com essa causa.

Quando eu me acho no direito de emitir qualquer opinião ignorante, preconceituosa e paranoica sobre questões de sexo/gênero, já que elas não são importantes o suficiente para eu estudar.

Quando eu acho que são "os outros" que têm que me convencer, e não eu que tenho que aprender.

Quando eu pesquiso só o suficiente para aprender alguns termos (como "feminismo da terceira onda") e aparentar erudição com o objetivo de conservar as minhas opiniões prévias.

Quando eu concordo com as pessoas de direita perguntando "Por que feminismo e não igualismo?", o que indica que o assunto não me importa nem sequer para fazer uma pesquisa no Google, mas eu me sinto ameaçado ou deslocado por um movimento que prega liberdade e poder para as mulheres.

Quando aponto o fato - verdadeiro - de que existem machistas nas organizações de esquerda, porque seus membros também vêm da sociedade capitalista e patriarcal que eles combatem, mas faço isso para justificar esse machismo nos companheiros e não para colaborar com a tarefa de desafiá-lo e erradicá-lo.

Quando eu digo "Depois da revolução nós vemos".

Quando, assim como os machistas da direita querem negar o patriarcado procurando exemplos de mulheres que agridem homens ou denúncias falsas ou situações nas quais os homens sofrem mais do que as mulheres, eu procuro situações nas quais há feminismo burguês ou branco ou misândrico para justificar que a esquerda não tem nada a aprender com o feminismo.

Quando eu sou muito revolucionário falando sobre capitalismo e socialismo, mas me torno "pragmático e realista" falando sobre machismo e feminismo.

Quando digo que o socialismo não tem nada para adotar do feminismo, porque "a questão da mulher" já estava colocada em algum texto socialista de séculos atrás.

Quando, diante de uma expressão de ódio e raiva pelos assassinatos, os abusos e o discurso que minimiza a violência contra a mulher e as pessoas LGBT, eu me coloco num lugar progressista e dou sermões do tipo "Não é assim, nós temos que educar". Afinal, não sou eu quem tem que conviver com a impotência e a tristeza de pertencer ao grupo vulnerável.

Quando eu ponho mais ênfase em criticar o feminismo por causa de como ele comunica as suas ideias do que em criticar a mente fechada machista da maioria dos homens, produto de privilégios e não só de "ignorância".

Quando eu me irrito com as propostas de discriminação positiva ou de cotas para as mulheres e as pessoas LGBT e as recuso com argumentos meritocráticos que acredito que são não burgueses (idoneidade, esforço, luta).

Quando, do meu conforto como maioria simbólica, rejeito as medidas de cotas femininas na política, dizendo que "ter mais mulheres na política não vai melhorar a situação das mulheres trabalhadoras".

Quando eu reclamo que "Estou sendo discriminado por ser homem" porque as mulheres têm espaços próprios nos quais homens não podem entrar, me negando a entender por que ou para que elas precisam disso. A mesma coisa com "Estou sendo discriminado por ser hétero" em referência a espaços exclusivamente LGBT.

Quando eu digo que, como o socialismo é contra toda opressão, não é preciso ser feminista.

Tudo o isso não é nenhum segredo. Muitas mulheres, gays e pessoas trans já viveram isso: não tem nada mais parecido com um machista de direita do que um machista de esquerda.

por Danilo Castelli no sítio papodehomem.com.br:
Este artigo foi criado na minha conta do Facebook em 26/10/2012. Desde então, foi compartilhado em vários blogs e foi modificado várias vezes. Esta versão é a mais recente.
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