19 de fev de 2017

Carta aberta a um vassalo do capital

(Em desagravo a Raduan Nassar)

Senhor Roberto Freire
A ausência do Excelência credite ao fato de excelente o senhor não ter absolutamente nada. O senhor é o meu reconhecimento à sua senilidade, à sua decrepitude.

Eu poderia abordar diversos aspectos da sua biografia e do seu comportamento, a começar pela contradição do senhor ter sido funcionário público de confiança dos generais, em plena Ditadura Militar, ao mesmo tempo em que membro do Partido Comunista e líder nas Ligas Camponesas, de Miguel Arraes.

Não é possível que o aparato de informações das Forças Armadas, que sabiam até das cores das nossas cuecas, em nossas gavetas, não soubessem disso.

Não é possível que, com toda a esquerda sabendo disso, não tivesse aparecido um traidor para denunciá-lo, um indiscreto ou leviano, para comentar, entregando-o, algum camarada que não tenha resistido à tortura, citado-o como camarada.

O que não tenho notícia é de algum militar justiçado por camponeses, com a recíproca não sendo verdadeira, com muitos camponeses morrendo por pedir reforma agrária. 

Lembrei-me disso quando o ouvir gritar, em plena cólera: “esse histrionismo oposicionista está com os dias contados.”, frase perfeita na boca do General Médici, do Coronel Ustra, e de outros da escola onde o senhor se formou, travestido de comunista.

Os do seu partido, PPS, linha auxiliar do PSDB/Dem, simples puxadinho, se ufanam do senhor não estar nas delações da Lava Jato.

Verdade, de um depoente entre setenta e sete depoentes, o único do qual sabemos o teor do depoimento, faltando que saibamos dos outros setenta e seis, o senhor não aparece, mas os seus correligionários têm memória curta, o seu nome está no Mensalão do Dem, o que talvez o tenha credenciado a fazer parte desse governo.

Mas, apesar do espaço até aqui gasto, o que me motivou a escrever-lhe foi o episódio de ontem, na premiação do escritor Raduan Nassar.

O senhor reparou onde se deu a premiação, e com um número muito restrito de convidados?

Na varanda da casa do premiado, única maneira de homenageá-lo, já que avesso às pompas e circunstâncias, à exposição pública, aos holofotes da mídia, ao contrário dos políticos.

Depois, homem sensível, de intelecto apurado e afinado, Raduan fez da própria premiação um ato político, transformando o discurso de agradecimento pelo prêmio num manifesto, um libelo contra o golpe.

E o senhor falou depois, questionando o prêmio.

Lembro-lhe que não foi um júri de políticos que julgou a obra dele, mas de literatos brasileiros e portugueses, e ele venceu por unanimidade.

A mesma unanimidade que o governo do qual o senhor faz parte está quase alcançando, com mais de 80% de rejeição.

Logo, coerente com a linguagem neoliberal, para o qual tudo soa e tisne tom metálico, de moeda: vidas, destinos, pátria, moral e caráter, o senhor se referiu ao “prêmio pecuniário dado pelo governo brasileiro.”

Mais que uma demagogia barata, a sua afirmação foi hilária, típica das limitações dos que pensam com cifras.

Antes de comentar o valor alardeado, uma pequena biografia do laureado: Raduan escreve muito, tem publico cativo e poderia viver da sua obra e de atividades paralelas (palestras, tardes e noites de autógrafos, textos para jornais e revistas...) mas, sensível, decepcionou-se com a sociedade e o sistema, percebendo que há mais Robertos Freires que Paulos Freires e Gilbertos Freires, decidiu deixar de escrever e ir para o campo.

Comprou uma fazenda com terras degradadas, extremamente ácidas e tomadas por gramíneas invasoras, imprópria ao gado.

Fez seguidas calagens e adubações, por anos, tornando-as férteis e implantando diversas culturas, conseguindo produtividade acima da média nacional.

Poderia fazer o que é regra na agroburguesia, aplicar o próprio capital no mercado financeiro, contrair empréstimos subsidiados, entrar para a UDR e a SNA, apoiar a Bancada do Boi, mas, ao invés, aplicou na própria fazenda, reinvestindo, e nas pequenas propriedades vizinhas, de agricultores pobres, por doação.

Já com idade, fez convênio com uma universidade pública e transformaram a fazenda num campo avançado, para estudos de agronomia.

Agora, aos oitenta anos, pegou um pedaço da fazenda e deu para o seu funcionário mais antigo, o que começou com ele e permaneceu fiel, e o resto da fazenda ele doou para a universidade, com o compromisso dela formar agricultores familiares, produzir pesquisas para a agricultura familiar. 

Sr. Roberto Freire, os que lhe cercam quando foram governo nunca construíram uma única universidade pública, e agora querem privatizar as que os outros construíram, acabando com a universidade pública no Brasil.

Os que Raduan defendeu construíram 18 universidades e 55 campi.

Vamos agora ao valor pecuniário que o governo deu, segundo as suas palavras.

Primeiro que governos não dão nada, são a ponte entre a fonte, o tesouro nacional, o erário público, o dinheiro do cidadão contribuinte, do povo brasileiro, e o destinatário, nem sempre chegando ao destinatário, como bem demonstra a lista da Odebrecht, onde os do governo ao qual o Sr. pertence são maioria.

Segundo que este dinheiro não foi dado por iniciativa do atual governo. Este prêmio, Camões, foi criado há muitos anos, por iniciativa do governo português, em parceria com o governo brasileiro, com 12 brasileiros já tendo vencido.

O governo apenas cumpriu compromisso previsto em contrato.

Finalmente o valor pecuniário, jogado na cara do premiado como se fosse uma fortuna: cem mil euros, menos de quatrocentos mil reais, insuficientes para comprar um dos tratores ou colheitadeiras guardadas nos galpões da fazenda de Raduan, vinte e cinco vezes menos que o seu chefe, Temer, recebeu da Odebrecht, cinquenta e oito vezes menos que o seu colega de ministério, José Serra, recebeu da Odebrecht, com a diferença de que o dinheiro recebido por Raduan é lícito, sem necessidade dele golpear a democracia para livrar-se da justiça.

Raduan discursou em nome de milhões de brasileiros, enquanto o Senhor... Sob vaias e gritos de fora Temer, falou pelo ditador.

Francisco Costa
Rio, 18/02/2017.

Na foto, Raduan e Dilma, quando, na iminência do golpe, ele saiu de sua fazenda, o que raramente faz, e foi à Brasília, para dar o seu abraço de solidariedade.
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