19 de mar de 2017

Axé, Mãe Orminda do samba curitibano!

Mãe Orminda teve seu ganha-pão como escrivã de polícia, mas procurou conciliar a vida do trabalho com a arte musical / Reginaldo Reginato
Mãe Orminda foi a primeira mulher a cantar um samba-enredo na avenida

por Ricardo Prestes Pazello no Brasil de Fato 

Oitenta mil pessoas. Assim estava a Marechal Deodoro em 1978. O locutor, que apresentava o carnaval de Curitiba, grita no microfone: “minha nossa senhora, uma mulher!” O desfile da escola de samba D. Pedro II começa e, da avenida, ressoa uma voz feminina. O feito inédito coloca Mãe Orminda na história do samba brasileiro.

Orminda de Oliveira Rosa – conhecida como Mãe Orminda por ser a ialorixá do Ilê de Omulu, terreiro da Vila Izabel – foi a primeira mulher a cantar um samba-enredo na avenida. Tinha seus 35 anos mas já cantava desde os 12. O início foi na antiga Rádio Guairacá, em um tempo em que o rádio se impunha como o principal veículo de comunicação de massas. Escondida do pai, aos 15 anos já era nome conhecido entre os calouros da PRB-2, primeira rádio do Paraná.

O samba nunca foi profissão de ninguém, muito menos em Curitiba. É, isto sim, um modo de vida – em Curitiba, no Rio de Janeiro ou em qualquer lugar do Brasil. Mãe Orminda teve seu ganha-pão como escrivã de polícia, mas procurou conciliar a vida do trabalho com a arte musical. Assim é o mundo dos sambistas, até a indústria cultural alçar alguns deles ao estrelato, algo difícil na periferia brasileira.

No mês da mulher, nada mais necessário que lembrar a trajetória de uma sambista negra, de fé afrobrasileira, filha da classe trabalhadora, que dedicou seu talento ao cenário musical local

Apesar disso, a menina crescida em Curitiba mas nascida em Ipiranga, interior do Paraná, torna-se um dos mais importantes nomes do samba no estado. Dona de voz maviosa e potente, levou o samba curitibano para cantar nas quadras de escolas de samba do Rio e ao lado de Leci Brandão.

No mês da mulher, nada mais necessário que lembrar a trajetória de uma sambista negra, de fé afrobrasileira, filha da classe trabalhadora, que dedicou seu talento ao cenário musical local. Seja no Impacto 8 (1977) ou no Divina Luz (1992) – grupos musicais que integrou, sendo que no último ela se mantém na ativa, com mais de 70 anos de idade – vale lembrar o samba-enredo da Acadêmicos da Realeza, de 2000, e saudar: “Axé, Mãe Orminda”!

Para ficar por dentro
Artigo Velha guarda do samba no Paraná, de Rodrigo Juste Duarte (no livro A [des]construção da música na cultura paranaense, organizado por Manoel J. de Souza Neto)
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