8 de fev. de 2013

"O que há além?" - indagou o neandertal

"O que há além?" - indagou o neandertal


Não faz muito tempo, senti-me atraído por estudar história da humanidade. Essa atração não aconteceu do nada, mas graças a um programa do History Channel, cujo nome é justamente Humanidade: A História de Todos Nós. Tomei conhecimento da série enquanto viajava pela gringa, durante minhas férias do trabalho, e felizmente, ao retornar, vi que ela também era transmitida por aqui (e confesso que assisti-la em português é bem melhor). Assumo que não vi todos os episódios, e ainda espero apanhar algumas reprises. Mas, intrigado pelo assunto, fui atrás de livros que, paralelamente, pudessem também suprir certas curiosidades minhas a respeito de como deixamos de viver de maneira selvagem e criamos as primeiras sociedades.
Então, comecei a ler A Short History of the World: The Story of Mankind from Prehistory to the Present Day, de Alex Woolf (ao contrário da série de TV, não sei dizer se há alguma tradução para o português). Apesar de extenso, como você pode imaginar, é um livro rápido de se ler e de fácil compreensão para não historiadores, pois sintetiza bem os principais fatos históricos até os dias de hoje.
Um dos aspectos mais interessantes da nossa evolução é como um animal frágil como nós, desprovido de atributos físicos como: presas, garras, grande velocidade e força, olfato e audição aguçados ou visão telescópica, superou ambientes tão adversos e chegou aos dias de hoje, com tamanho desenvolvimento cultural e tecnológico. E isso foi possível por, desde sempre, convivermos em bando, criando laços com outros de nossa espécie, dividindo atividades e, acima de tudo, por termos encéfalo desenvolvido e polegares opositores – atributos que dariam conta de nossas fraquezas e superariam as habilidades de outras espécies.
Entretanto, nossa capacidade de construirmos coisas e moldarmos o ambiente a nossa volta não é o único fator que nos diferencia dos outros seres de nosso planeta. Somos também dotados de uma curiosidade que nos move desde sempre e faz com que possamos descobrir novas ferramentas e remédios que aumentam nossa qualidade e tempo de vida, bem como nos lança a novos continentes e (quem diria?) outros planetas, nos faz olhar para o céu e explorarmos as constelações, a fim de um dia podermos responder as três principais dúvidas de nossa existência: quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Obviamente que, para essas grandes indagações, ainda encontramos mais respostas no campo filosófico e teológico do que no científico.
Nossos ancestrais já eram intrigados por questões transcendentais ao mundo material desde muito tempo, digamos 300 mil anos. O Homem de Neandertal foi um dos primeiros hominídeos a enterrar e velar seus mortos.  E o desenvolvimento de uma adoração a forças até então desconhecidas por nós, sob as quais não detínhamos domínio, bem como as práticas e rituais religiosos foram muito importantes para criação de condutas sociais que dariam base a futuras civilizações.
A partir do momento que o homem deixou de ser nômade e passou a ser sedentário, era necessário um meio de manter o controle das tribos que se formavam; era preciso desenvolver uma hierarquia sofisticada. E o meio encontrado para esse propósito foi a religião. Conjecturo que isso não tenha acontecido por acaso. Ora, o que seria mais comum entre os indivíduos dessa época do que seus laços religiosos? Seria muito mais fácil administrar um grupo de pessoas dizendo-lhes para fazer algo porque assim ordenava algum deus do que tentar convencê-los pela razão. É necessário termos em mente que as marés, o dia e a noite, as tempestades e todos os fenômenos naturais eram inexplicáveis para o homem primitivo e tudo isso ficava a cargo das divindades. E esse mesmo regime, no qual não havia dissociação entre figuras sobrenaturais e líderes de civilizações, foi utilizado por grandes impérios, tais como o Egípcio e o Romano, por exemplo – faraós e imperadores, respectivamente, eram considerados deuses (ou semideuses) encarnados.
As leis das civilizações antigas eram baseadas em seus princípios religiosos, mesmo porque tudo em seu cotidiano era desse jeito. Do Código de Hamurabi até o desenvolvimento de um sistema judicial mais avançado, como o romano ou saxão, passaram-se milhares de anos. Mas a dissociação entre os dois mundos (divino e real/lógico) não deixou completamente de existir, embora esse sistema tenha se reestruturado ao longo dos séculos por meio das instituições religiosas.
Desde que o imperador Constantino aderiu ao cristianismo, algo que também marcou a decadência do império romano, podemos ver a força que uma religião organizada tem sobre diferentes povos. Ao longo da Idade Média, rei nenhum era coroado sem aprovação do alto clero, e insurgências populares contra a opressão da realeza eram contidas pelo baixo clero, que mantinha o povo temente e ignorante.
O problema das instituições religiosas é justamente o fato de, até hoje, elas se ocuparem com outras coisas que não a própria religião, o desenvolvimento do pensamento teológico, a busca pelo entendimento da alma humana. Tudo bem que a filosofia e a ciência devem muito a figuras como Santo Agostinho, Tomás de Aquino e tantos outros, mas infelizmente elas almejam mais o controle do homem do que sua libertação.
A exigência de que os fiéis entreguem seus pertences à igreja em troca de indulgências divinas, a obrigação de que a mulher permaneça em posições subalternas ao homem, a intolerância à orientação sexual dos indivíduos, as punições atrozes aos pecadores e o semitismo religioso são consequências de pensamentos absolutamente anacrônicos, não compatíveis com as sociedades modernas.
A humanidade deu um tremendo salto científico e tecnológico nos últimos séculos, e mais ainda nas últimas décadas, o que não foi acompanhado pelas diversas religiões e seus seguidores ao redor do mundo. E, em vez de tentarmos assimilar e diminuir essa lacuna de maneira pacífica, acabamos gerando apenas mais ódio e exclusão.
Não acredito, no entanto, que a religião seja uma praga para o homem. Muito pelo contrário, correntes de pensamento não institucionalizadas que espalham o bem e a tolerância, e que buscam tratar das questões humanas pacificamente são exatamente uma forma de nos curarmos da mesquinharia espiritual na qual estamos imersos há muito tempo – especialmente depois da conquista do mundo pelo capitalismo voraz que conhecemos, e que certamente irá nos levar à nossa extinção.
A curiosidade pelo que há além da matéria e a negação de sua finitude terrena são aspectos intrínsecos ao homem, e jamais deixarão de existir enquanto habitarmos esse planeta. Por isso, precisamos ser tolerantes  aos que simplesmente não conseguem ver o mundo por perspectivas tão exatas e racionais, às diferentes opiniões e culturas. E precisamos rever a maneira com que buscamos as respostas que fogem do campo da ciência, tendo em mente que nenhuma delas é imutável e inquestionável - e menos ainda ferramentas de domínio, mas caminhos para nossa libertação.
Há uma ironia ou prepotência sutil ao chamarmos nossa espécie de homo sapiens (homens sábios), quando ainda há tanto à nossa frente para que sejamos realmente humanos uns com os outros e para que usemos nossa sapientia em benefício comum.
Enquanto houver  extremismo, não aceitarmos as diversidades e não verdadeiramente buscarmos nossa elevação como seres humanos, a cada dia que passa, nós nos tornamos mais primitivos que nossos ancestrais das cavernas.

Por http://contandobobagens.blogspot.com.br

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