21 de mai de 2015

Conheça a candidata à presidência da UNE

Conheça Carina Vitral, candidata à presidência da UNE

De Brasília
Joaquim Dantas
Para o Blog do Arretadinho

Carina Vidral concedeu uma entrevista ao sítio da União da Juventude Socialista, UJS, onde falou sobre o começo de sua militância no Movimento Estudantil, entre outros assuntos. Natural de Santos, no Estado de São Paulo, ela acredita que "a luta é mudar o foco da universidade, fazendo com que ela perceba que mudou o perfil social do estudante.

Confira a íntegra da entrevista:

Carina, nesse final de semana o movimento Abre Alas definiu você como candidata à presidência da União Nacional dos Estudantes (UNE). Como foi sua caminhada até aqui?

Eu comecei relativamente cedo no movimento. Com 17 anos, fui do Centro dos Estudantes de Santos (CES), ainda no colegial. Esse é um centro estudantil na minha cidade que reúne universitários e secundaristas e é uma entidade bastante antiga, até mais antiga que a própria UNE. É uma daquelas entidades que ajudou a fundar a UNE.

Depois do CES, estudei economia na Federal de Santa Catarina e participei do Centro Acadêmico Livre do curso, o CALE, do qual fui vice-presidenta e algumas vezes concorri ao DCE da universidade. Através desse trabalho que desenvolvi e o reconhecimento que tive, fui para a União Nacional dos Estudantes (UNE) como diretora de universidades públicas na gestão 2011-2013, presidida pelo Daniel Iliescu.

Enfrentamos, nessa época, uma greve das universidades federais bastante mobilizada. Fizemos uma grande passeata em torno dos 10% do PIB para a educação com a participação da Camila Vallejo (atualmente deputada pelo Partido Comunista chileno), o “Ocupe Brasília” – um movimento bastante importante, que pautou a volta da meia entrada, o Estatuto da Juventude, e os 10% do PIB. Toda aquela experiência foi muito importante para mim.

No final da gestão, eu comecei a me focar bastante no acompanhamento das universidades em São Paulo, o que propiciou que eu fosse eleita presidenta da União Estadual dos Estudantes (UEE-SP), já que eu havia voltado para meu estado e transferido meu curso para a PUC-SP.

De volta a São Paulo, também foi bastante interessante a experiência que vivemos. Essa gestão da UEE iniciou nas passeatas de junho de 2013 após um congresso realizado em Ibiúna, que é a cidade que sediou o histórico Congresso da UNE de 1968. Nessa atividade, marcada pelo debate sobre a Ditadura Militar, democracia e a memória do movimento estudantil, fui eleita presidenta e logo em seguida já fomos para as grandes manifestações daquele mês nos defrontar com as reações violentas e repressivas da PM, que trouxeram para o presente essa época que não queremos voltar, que é a Ditadura Militar.

Ainda temos resquícios disso na PM de todo Brasil, mas em São Paulo em especial ela é bastante violenta e criminaliza os movimentos sociais. O Congresso que era, portanto, para falar do passado, falou da repressão do presente e foi bastante significativo. Pautamos as questões de junho, o aumento de tarifa e a questão do transporte. Essa luta culminou na aprovação do passe-livre estudantil na cidade de São Paulo que deu direito a mais de 500 mil estudantes e é fruto da luta da UEE-SP.

Desde a eleição 2014, o Brasil vive um elevado acirramento político. O Congresso Nacional mais conservador desde 1964 já mostrou a que veio e avança na aprovação de medidas que retiram direitos das/os trabalhadoras/es, como o PL 4330, da terceirização, e a PEC 171, da redução da maioridade penal. Qual papel que a UNE pode jogar nesse contexto?

A gente avançou muito em direitos para a juventude nos últimos anos. Isso é fruto da luta do movimento estudantil e acumulo de formulação de políticas públicas que reivindicamos, mas também de um amplo diálogo de um governo que se abriu para os movimentos sociais e se permitiu a ouvir o povo. Tivemos uma geração que conquistou muitos direitos e agora, com esse Congresso Nacional conservador, nossas vitórias estão em xeque.

O papel da UNE para o próximo período será muita mobilização, porque se antes já achávamos que o ciclos de mudanças tinham atingido um certo limite e era necessário muita passeata para fazer o projeto mudancista avançar, agora precisamos mais ainda para resistir ao avanço do conservadorismo e aos retrocessos que estão sendo propostos. Então, acredito que mais do que nunca as reformas estruturais no Brasil são urgentes, necessárias, sobretudo, a “mãe das reformas”, que é a Reforma Política.

O Congresso Nacional é o reflexo mais claro de um sistema eleitoral pautado pelo financiamento privado de campanhas. Os congressistas, em sua maioria, não estão ali para representar a vontade popular, mas defender seus interesses particulares ou os de quem bancou suas campanhas. Isso precisa mudar. E a UNE pode cumprir um grande papel nesse sentido. Por isso, acredito que um dos focos da UNE para o próximo período será seguir com sua campanha pelas eleições limpas e formando a Coalizão pela Reforma Política que tem como projeto acabar com o financiamento privado de campanhas.

Nos últimos anos, aumentou o número de universidades em todo país e projetos como PROUNI, FIES e as cotas modificaram a composição social no ensino superior. Qual o desafio que está posto para a UNE permanecer em sintonia com a sua base?

O primeiro desafio é se aproximar muito do estudante que ascendeu a esses direitos. Porque um estudante que ingressa numa universidade privada por meio do PROUNI, por exemplo, traz consigo uma visão de que o Estado é bastante precário, já que ele teve acesso de forma limitada a serviços básicos e fundamentais, como saúde e educação. É natural, portanto, que ele acredite que essas conquistas e esses direitos são conquistas individuais e não vitórias coletivas.

Eu acho que na medida em que a UNE consegue convencer de que além do esforço individual o ingresso na universidade é também vitória coletiva da luta que a UNE e o conjunto do movimento estudantil protagonizaram no último período, ela faz com o estudante compreenda a importância dessa luta e que é fundamental uma nova agenda em busca de mais direitos.

Teremos no próximo período 50% dos alunos nas universidades que ingressaram naquele espaço através de cotas, isso significa a necessidade de uma radicalização na política de assistência estudantil, pois nos patamares de investimento que se tem hoje não são suficientes.

Acredito que a luta é mudar o foco da universidade, fazendo com que ela perceba que mudou o perfil social do estudante. E isso tanto nas públicas, mas principalmente nas privadas. Se nas universidades federais e em algumas estaduais ainda existe bandejão, bolsa de assistência estudantil e uma série de políticas de amparo ao estudante de baixa renda, nas privadas o que acontece é ao contrário disso. Nessas instituições existem milhares de estudantes que pegam ônibus lotado, passam quase 3 horas no transporte coletivo, chegam na universidade e, apesar da bolsa do Prouni ou financiamento do FIES, pagam para todo tipo de serviço. Até um comprovante de matrícula. E não há nenhuma política de assistência estudantil. Pelo contrário. Serviços como alimentação, Xerox e outros são utilizados para aumentar, ainda mais, os lucros dos tubarões do ensino. Ou seja, o estudante da universidade privada precisa se organizar muito para conseguirmos que os direitos que temos nas públicas cheguem também a um estudante de universidade particular.

Além disso, a mudança na composição social no ensino superior coloca um desafio a mais para a UNE, que é ampliar suas bandeiras de lutas para contemplar o anseio das mulheres, das/os jovens negras/os, LGBT´s e trabalhadoras/es que tiveram mais oportunidades de ingressar nas universidades. E isso precisa ser refletir também no movimento estudantil. Precisamos fortalecer o Encontro de Negros, de Mulheres e de LGBT´s da UNE, erradicar o preconceito na sociedade, mas partindo do movimento estudantil. E isso só é possível empoderando ainda mais nós mulheres, as/os negras/os, e os LGBT´s nas direções das entidades estudantis. Inclusive na UNE.

Não é menor a UNE ter tido uma jovem mulher presidenta nessa gestão, oriunda das fileiras da UJS, e para o próximo período a UJS apresentar a candidatura de outra mulher. Até agora apenas cinco mulheres presidiram a entidade e nunca uma mulher foi sucedida por outra. É a primeira vez que há essa possibilidade.

Parte das bandeiras de lutas que a UNE apresentou em suas mobilizações nos últimos anos – como os 10% do PIB, 75% dos royalties e 50% do fundo social do pré-sal para a educação – tornaram-se leis ou programas parcialmente implementados. Que ciclo a UNE pode abrir a partir daqui a fim de ampliar as conquistas na educação?

Temos um marco importante que essa gestão da UNE que se encerra conseguiu concretizar, que é a aprovação do Plano Nacional de Educação (PNE).

O PNE é o nosso guia para os próximos 10 anos. Ele propõe metas para a educação brasileira, como por exemplo, a inclusão de 35% dos jovens no ensino superior a ser alcançada ao longo desse período. A aprovação do plano em lei não significa automaticamente sua concretização. O Brasil já teve outros planos nacionais de educação aprovados onde os governos simplesmente os desconsideraram. Então, a luta precisa ser pela implementação do PNE e de suas metas ousadas no que diz respeito ao acesso, à assistência estudantil e, principalmente, de investimento, com os 10% do PIB, a destinação dos royalties e o fundo social do pré-sal para a educação.

A efetivação desses direitos é a principal luta para o próximo período, porque isso coloca a educação em outro patamar e a possibilidade concreta de construir a Pátria Educadora que estamos sonhando.

O vasto movimento social brasileiro cresceu recentemente com o surgimento de diversos coletivos propondo maneiras diferenciadas de organização e atuação. Como a UNE pode dialogar com eles?

A UNE precisa ser bastante ampla. O movimento estudantil é “estudante em movimento”. Ou seja, cada um desses coletivos- seja de mulheres, LGBT e de negros e negras, os grupos de pesquisas, as atléticas e outros – são organizações que movimentam os estudantes nas universidades ao lado dos centros acadêmicos e DCE’s. Então a UNE reconhece esses coletivos e esses estudantes como parte de sua base de atuação e precisa cada vez mais se aproximar dessa diversificação do movimento.

É muito simbólico, por exemplo, a realização na gestão atual do maior Encontro de Mulheres da História da UNE. Isso com certeza reflete o movimento estudantil que encontramos na base, que são os coletivos de mulheres se proliferando por todo o Brasil nas universidades públicas e privadas. O desafio da UNE é potencializar todo esse círculo virtuoso de organização, que tem como marco a Jornada de Junho de 2013, que convenceu uma geração de jovens sobre a importância de se organizar.

Agora precisamos disputar o rumo dessa vontade de participar, dessa vontade de se organizar, porque também é verdade que vários jovens como nós estão se organizando através de pautas conservadoras. É desafio da União Nacional dos Estudantes está cada vez mais enraizado nas universidades, disputar o conteúdo dessa organização, disputar para que ideias avançadas possam estar na mente e nos corações dos jovens e dos estudantes brasileiros.

Carina, deixe uma mensagem aos milhares de estudantes que estão se organizando em seus estados para participar do 54º Congresso da UNE.

O Congresso da UNE é o evento mais bonito que eu já participei na vida. São milhares de estudantes de todos os cantos do Brasil. Uma oportunidade imensa de aprender muito com nosso país, conhecer sotaques diferentes, experiências diferentes, poder lutar e marchar ao lado de estudantes aguerridos de todo Brasil. Poder discutir os rumos da universidade brasileira, da própria política do Brasil e dos nossos sonhos.

Então os estudantes que estão se organizando, se elegendo como delegados nas suas universidades precisam vir com sentimento de muito amor, de muita esperança no coração. Precisa acreditar que nós jovens, estudantes de todo Brasil, vamos mudar cada vez mais a nossa sociedade. Já conquistamos muito no último período e tenho certeza de que com muita luta e muita passeata no próximo período vamos conquistar uma universidade cada vez melhor, cada vez mais inclusiva, mais acessível e que contribua para o desenvolvimento do Brasil. Esse é o sentimento.

Esse é o recado que tenho para dar a todos e a todas estudantes do Brasil. Nos encontramos no Congresso da UNE em Goiânia do dia 3 a 7 de Junho.
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