3 de jun de 2015

Teixeira indiciado, a Globo treme

Indiciamento de Ricardo Teixeira: O medo invade o Jardim Botânico
Em janeiro deste ano Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF, foi indiciado por supostamente ter cometido quatro crimes: lavagem de dinheiro, evasão de divisas, falsidade ideológica e falsificação de documento público. A polícia federal suspeita da movimentação de R$ 464 milhões entre 2009 e 2012. Duas gritantes diferenças chamam a atenção quando comparamos esta operação da PF com outras em andamento, despertando alguns questionamentos que apontam para certo endereço no Jardim Botânico.


1ª – Apesar de envolver o nome de uma figura poderosa, um famoso e badalado ex-presidente da CBF, em nenhum momento o indiciamento, ocorrido há mais de cento e cinquenta dias, vazou para a imprensa, o que só veio a ocorrer nesta segunda-feira (1º/6), através de reportagem “exclusiva” da Revista Época (Grupo Globo).

2ª – A própria PF admite que durante o ano de 2014 tentou por diversas vezes ouvir Ricardo Teixeira sobre as suspeitas, mas seus advogados, que já tiveram acesso aos autos e, portanto, conhecem as acusações (como é garantido por lei) sempre protelaram o depoimento. Nem por isso foi solicitada contra Ricardo Teixeira qualquer medida de “condução coercitiva”, como é tão comum ultimamente.

É pública e notória a voracidade com que parte da Polícia Federal procura os holofotes globais. Não raro as equipes do grupo Globo, avisadas com antecedência, chegam ao local onde está se efetuando uma prisão, mesmo antes dos agentes. Pois as câmaras precisam estar bem posicionadas quando se trata de um preso “conveniente”. Como, então, acreditar que seja mero acaso que um fato de grande impacto midiático (o indiciamento de Ricardo Teixeira) só tenha vindo à tona cinco meses depois, justo quando acaba de ocorrer a rumorosa prisão de José Maria Marin e outros seis dirigentes pelo FBI, durante o Congresso da Fifa? A suposição de que o grupo Globo sabia sobre o indiciamento de Ricardo Teixeira há muito tempo e o ocultou até o limite do possível, não é apenas uma hipótese legítima, é praticamente inescapável. Afinal, é muita coincidência. O escândalo da Fifa, que ganha ainda maior dimensão com a renúncia de Joseph Blatter nesta terça-feira (2), iria atrair a atenção de toda a mídia internacional, e esta, inevitavelmente, voltaria a sua atenção para a CBF, tornando impossível esconder as acusações contra Teixeira. Assim, a Globo antecipa-se aos fatos e revela a “bomba” que estava longe dos olhos do público. Se este raciocínio está correto, surge em seguida outra pergunta: o que leva a Globo a tentar abafar o caso e qual a razão da extrema paciência da PF, tão inquieta em certas ocasiões?

O medo no Jardim Botânico
Quem tem o triste hábito de se informar pela mídia hegemônica, dificilmente fica sabendo do real alcance das denúncias que sacodem o mundo do futebol. A revista Época, em determinado trecho da reportagem sobre o indiciamento de Ricardo Teixeira, que durante 18 anos foi membro do comitê executivo da Fifa, cita de passagem, como coisa de menor monta, que o dirigente teria “recebido propina de J. Hawilla, dono da Traffic Group, empresa que negocia direitos de transmissão de torneios de futebol, como a Copa do Brasil”. Mas isso soa um tanto nebuloso. A CBF detém os direitos de negociação dos campeonatos que organiza. Como clientes potenciais no Brasil, apenas no máximo cinco grupos de comunicação com poder econômico suficiente para participar da disputa. A coisa fica mais clara quando se sabe que, em confissão à polícia americana, o próprio dono da Traffic, J. Hawilla, afirma que a empresa é meramente uma “repassadora de propina”. Neste caso então, a hipótese que se afigura é que talvez a propina em questão tivesse em vista comprar os dirigentes para garantir, a determinada emissora, preferência em face da disputa com as outras. Isso explicaria por que a Record, em passado recente, perdeu a disputa com a Globo pela transmissão do campeonato brasileiro mesmo tendo apresentado a melhor oferta. Outro exemplo deste tipo aconteceu em 2012, quando a Fifa prorrogou, sem licitação, a exclusividade da emissora dos irmãos Marinho para as Copas do Mundo de 2018 e 2022. Na ocasião, a Record soltou a seguinte nota:

“A Rede Record vem a público manifestar absoluta surpresa com a decisão da Fifa de prorrogar o acordo de direitos de transmissão das Copas do Mundo de 2018 e 2022 para o Brasil com uma outra emissora sem qualquer licitação”.

“A Record foi informada em 2010, logo após o término da Copa do Mundo, pelo diretor de TV da Fifa, Sr. Niclas Ericson, de que haveria uma concorrência pelos direitos de transmissão dos eventos promovidos pela Fifa em 2018 e 2022, conforme provam e-mails trocados entre executivos da Record e da Fifa. No encontro realizado no Hotel Fasano, no Rio de Janeiro, a direção de nossa empresa ouviu garantias de que a licitação seria pública, transparente e aberta em regime semelhante ao que a Fifa realiza em países do mundo inteiro. Na oportunidade, a Record também entregou à Fifa um documento oficial afirmando que concorda com todas as condições para a aquisição dos eventos”.

Outra coincidência interessante é que este fato aconteceu em fevereiro de 2012. Menos de um mês depois, 19 de março, Ricardo Teixeira renuncia ao cargo de membro do Comitê Executivo da Fifa. Terá sido o último serviço prestado antes da aposentadoria?

O medo no Jardim Botânico 2
Certa emissora do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, terá realmente alguns motivos para preocupação se Ricardo Teixeira resolver falar. Mas apurar, doa a quem doer, as falcatruas no futebol brasileiro, não será um caminho fácil. Desnecessário frisar o poderio da Globo e da própria CBF não só na mídia, mas no parlamento, no poder judiciário e na própria polícia federal que, como vimos, costuma ter dois pesos e duas medidas, dependendo se o assunto interessa ou não à Globo. Quem duvida deste poder, que leva o jornalista Luiz Carlos Azenha, autor do livro “O lado sujo do futebol”, a encarar com ceticismo uma investigação séria quanto ao papel da Globo na história, veja o vídeo da excelente entrevista que ele concedeu a Paulo Henrique Amorim. O jogo sem dúvida é difícil. O adversário é forte e bem treinado e o juiz que vai apitar a partida, provavelmente, está no bolso do outro time. Mas tem muita bola a rolar ainda neste gramado e garra é o que não falta à nossa equipe. Vamos ao ataque.


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