22 de fev de 2016

Jornalista diz que FHC pagou por dois abortos

REPRODUÇÃO/FACEBOOK
“Ele pagou. Pagou por dois abortos”, diz Mirian Dutra à Folha sobre FHC
Em entrevista à publicação, a jornalista contou ainda que o ex-presidente pediu que ela interrompesse a gravidez do filho Tomás. E que recebia dinheiro dele no exterior por meio de uma empresa

A ex-jornalista da Rede Globo Mirian Dutra Schmidt, 55 anos, que decidiu expor todos os detalhes sobre sua relação amorosa com Fernando Henrique Cardoso, disse em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, publicada na edição desta quinta-feira (18/2), que o ex-presidente pagou dois abortos e pediu que ela interrompesse, também, a gravidez do filho Tomás. “Durante os seis anos com ele, fiquei grávida outras duas vezes, e eu abortei”. E completou: “Ele pagou. Pagou por dois abortos.”

O caso voltou à tona depois que Miriam concedeu uma entrevista à revista BrazilcomZ, uma publicação feita por brasileiros que vivem na Europa. Ela contestou o resultado do exame de DNA que demonstrou que FHC não é o pai de seu filho, Tomás Dutra Schmidt.
De Madri (Espanha), onde mora, Mirian falou longamente com a Folha por telefone. “Eu não quero morrer amanhã e tudo isso ficar na tumba. Eu quero falar e fechar a página”, afirmou. A jornalista contou ainda que FHC bancou despesas de seu filho Tomás no exterior por meio de uma empresa.

Na entrevista, ela explicou que esses pagamentos coincidiram com o período em que Fernando Henrique comandava o país (1994-2002), mas não quis revelar a identidade da companhia. Segundo a reportagem apurou, a Brasif S.A. Exportação e Importação ajudou FHC a enviar ao exterior recursos para Mirian.

Em resposta, Fernando Henrique admitiu manter contas no exterior e ter mandado dinheiro para Tomás, mas negou ter usado a empresa para bancar a jornalista. Disse que todas as remessas que fez ao exterior foram legais e registradas na Receita Federal. Questionado sobre os abortos, o ex-presidente declarou que “questões de natureza íntima, minhas ou de quem seja, devem se manter no âmbito privado a que pertencem”.

Confira a entrevista concedida pela jornalista à Folha:

Folha – Por que decidiu falar, depois de 30 anos?
Mirian Dutra – Para mim foi muito difícil. muito complicado porque a minha vida inteira sempre foi trabalho e, de repente, essa história pessoal cruzou a minha vida.

Como foi a história de vocês?
Eu o conheci em janeiro de 1985, quando Tancredo [Neves] estava no hospital. Eu estava jantando no restaurante Piantella [em Brasília] com vários amigos jornalistas e ele entrou sozinho. Um amigo jornalista o convidou para a nossa mesa.

Logo que a gente se conheceu, um mês depois, ele disse para mim, era o governo Sarney: “Vai ter espaço para mim. Eu tenho que ser presidente. Só eu tenho capacidade para levar este país”.

Dei a entrevista na revista “BrazilcomZ” para desmentir tudo o que escreveram ao meu respeito. Eu não quero que meu nome fique numa rede social como uma rameira. Eu fui uma pessoa apaixonada por um homem.

Descobriu que estava grávida…
Eu estava grávida de quase três meses. Eu não estava aguentando mais essa história toda de ser amante, de ser a outra. Aí eu fiquei quieta, esperei ele voltar [de viagem] e, quando voltou, foi jantar na minha casa.

Quando disse que estava grávida, ele disse “você pode ter este filho de quem você quiser, menos meu”. Eu falei: “não acredito que estou escutando isso de uma pessoa que está há seis anos comigo”.

Ele pediu para você abortar?
Pediu. Óbvio. “Eu te pago o aborto agora”, disse. Aliás, vou te contar uma coisa mais séria ainda. Durante os seis anos com ele, fiquei grávida outras duas vezes, e eu abortei.

Ele soube?
Ele pagou. Pagou por dois abortos. Eu não queria ter outro filho, eu tinha minha filha estava muito feliz. Nunca pude tomar pílula, colocar DIU [método intrauterino], porque tenho um problema de rejeição absoluta a hormônio que venha de fora. Ele sabia disso.

O que houve a partir daí?
Aí que, pela primeira vez, em seis anos, ele deixa de falar comigo. Porque sentiu que a decisão era firme. Aí eu disse que não tinha que contar para ninguém quem era o pai, que era livre e desimpedida.

Ficaram sem se falar até o nascimento do seu filho?
Ele foi umas duas ou três vezes na minha casa. Quinze dias depois do nascimento, ele foi me visitar. Minha mãe estava lá [em casa] quando ele foi conhecer o filho. Só que eu tinha decidido que eu iria embora [do Brasil]. Aí antecipei todos os meus planos e meio que fugi mesmo. Lembro que, quando do impeachment do Collor, vi esse homem [FHC] lambendo as botas do Itamar [Franco], que ele criticava a vida inteira. Fui buscar trabalho em Portugal. Recebi ajuda do [ex-senador] Jorge Bornhausen, que era meu amigo de Santa Catarina.

Mas ele reconheceu o filho…
Nunca fez.

Por que você não o desmentiu na época?
Em 2009, ele foi para os Estados Unidos e simplesmente colocou na cabeça do Tomás que o Tomás não poderia contar para mim, mas que iriam fazer um DNA. Ele visitava o Tomás nos EUA depois da Presidência. Mas nunca foi criado com pai nenhum. Nunca me casei, nunca tive namorado, esse departamento [namoro] se encerrou na minha vida.

Ele bancou seu filho fora do Brasil?
Quando Tomás fez três anos de idade, isso foi mais ou menos em 1994, aceitei que ele pagasse o colégio do Tomás, pois queria que ele estudasse num bom colégio. A partir daí, ele pagou. Quando vim para Barcelona, que quando eu digo que fui exilada, porque eu queria voltar para o Brasil e não permitiram que eu voltasse…

Quem não permitiu?
[O então senador] Antonio Carlos Magalhães pediu para que eu não voltasse para o Brasil, o Luís Eduardo Magalhães [filho de ACM]. Diziam para ficar longe. Diziam “deixa a gente resolver essas coisas aqui”. Aí eu pensei e achei que, para os meus filhos, era melhor eu ficar [no exterior], pois eles seriam muito perseguidos no Brasil.

Eu tinha que ter metido a boca no trombone no começo. Eles não aceitaram porque estavam em plena história da reeleição. Isso isso foi quando Fernando Henrique estava tentando mudar a Constituição. Uma coisa estranha porque eu lembro que quando [José] Sarney quis ficar cinco anos, ele estava na minha casa jantando e deu um baile: “como este homem pode ficar cinco anos? O poder tem que ser quatro anos, e renovável”. E aí tem uma história muito cabeluda nisso tudo, que ele, por meio de uma empresa, mandava um dinheiro para mim.

Que empresa?
Não sei se eu posso falar. Não quero falar. Foi por meio de uma empresa que ele bancou.

Você não quer nominar, mas tem como provar? Algum recibo?
Tenho. Tenho contrato. Tudo guardado aqui. Muito sério. Por que ninguém nunca investigou isso? Por que ninguém nunca investigou as contas que o Fernando Henrique tem aqui fora?

Contas?
Claro que ele tem contas. Como ele deu, em 2015, um apartamento de € 200 mil para o filho que ele agora diz que não dele? Ele deu um apartamento para o Tomás.

O exame de DNA diz que o Tomás não é filho dele…
Dele [e gargalha]. Óbvio que é dele.

Você afirma então que ele forjou o exame de DNA?
Não estou afirmando nada, mas tudo me parece muito estranho, porque eu nunca me neguei a fazer o exame de DNA. Não vou afirmar porque isso seria uma irresponsabilidade da minha parte. Além do mais, uma mulher sabe quem o pai. A não ser que provem que Deus é o pai do meu filho.

Você teve alguma outra relação no período?
Claro que não.

Gostaria de voltar à empresa. Como foi esse acerto para você receber esse dinheiro?
O ex-marido da minha irmã, o Fernando Lemos [morto em 2012], era o maior lobista de Brasília e era ele quem conseguia tudo. Eu sempre fui muito ingênua nessas coisas. Eu não devia nada a ninguém, por que eu ficaria cheia de pecados e pruridos? Eles fizeram contrato comigo como se eu fosse funcionária deles [da empresa], só que eles nunca me permitiram trabalhar e aí eu ganhava.

Isso acabou quando?
Dois anos depois que ele saiu do governo.

Por que você nunca expôs essa história? Você, como jornalista, não sabia que era irregular uma empresa pagar em nome do presidente?
Eu acho que eu tinha que ter feito um escândalo quando eu fiquei grávida. Depois, as coisas foram acontecendo, entendeu? Meus filhos ficaram maiores e eu já não podia ficar fazendo tanta confusão.

E por que você decidiu falar agora?
Porque eu estou cansada de ver pessoas escrevendo coisas erradas, essa história do DNA. Estou cansada de tudo isso. Eu não quero morrer amanhã e tudo isso ficar na tumba. Eu quero falar e fechar a página. E quero tentar ser feliz, porque eu não consegui até hoje.

Alguém está por trás de sua quebra de silêncio?
Ninguém. Eu vivo absolutamente sozinha na Espanha, nunca vivi tão sozinha como agora. Vivo com um cachorrinho chamado Xico, com X. Não tenho vida social, não tenho nada, até pela minha fibromialgia e pela polipose adenomatosa. Eu não estou falando isso para tirar proveito de absolutamente nada. Estou lavando a minha alma. É muito difícil você ser xingada por milhões de pessoas e não vou deixar isso acontecer mais. Não podia entrar na Justiça contra porque eu trabalhava na TV Globo.

E agora que não trabalha mais você optou por falar…
Exatamente. Eu agora não devo mais nada a ninguém.

do Portal Metrópoles
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