20 de abr de 2016

Mais de mil mulheres compareceram ao Abraço da Democracia

Foto Mídia Ninja
Mais de mil mulheres compareceram ao Abraço da Democracia na noite dessa segunda-feira (19) na Praça dos Três Poderes, em Brasília. 
Com rosas nas mãos, elas vieram oferecer carinho à presidenta Dilma Rousseff e manifestar apoio ao seu governo. 

por Renato Cortez

O ato foi organizado em desagravo às declarações do deputado Jair Bolsonaro (PP/RJ), que dedicou seu voto de apoio ao impeachment em homenagem ao coronel Brilhante Ustra, torturador acusado de seviciar centenas durante a ditadura militar, inclusive Dilma Rousseff.

O evento foi organizado de última hora, ontem, pelas amigas Dapheny Feitosa e Luiza Almeida. Moradoras de Águas Claras – bairro de Brasília que concentra grande quantidade de apoiadores do golpe travestido de impeachment – elas contam que ficaram impressionadas com a adesão espontânea ao evento. Pensado como uma resposta aos ataques machistas que caracterizam muitos dos posicionamentos de Jair Bolsonaro, Dapheny e Luiza dizem que além de demonstração de sororidade, o ato também quis chamar a atenção para o clima de ódio que floresce no Brasil.

As amigas acreditam que atividades dessa natureza mostram que “as mulheres não estão sozinhas”, aludindo à violência de gênero manifestada de formas diversas em nosso cotidiano. “Não podemos permitir que mulheres aguerridas no combate à ditadura sejam motivo de chacotas, cada uma de nós é violentada quando violentam a presidenta”. As amigas também dizem que o ato serve para ajudar as pessoas a “saírem do armário”, isto é, a para que outros defensores da Democracia percebam quem podem e devem sair às ruas para impedir a aventura golpista em curso.

A necessidade de oferecer amor e carinho pela presidenta deu a tônica da atividade. “Isso aqui é um ato de carinho, de reconhecimento, de solidariedade. Nenhuma mulher merece ouvir o que Dilma tem escutado”, lamenta Viviane Valente, uma das presentes. Outra que se declarou chateada com o ódio despejado contra a presidenta foi Flávia Rizzini. Acompanhada do filho Gabriel, disse que o voto dedicado a um torturador foi “um tapa na cara de todas as mulheres”. Emocionada, ela foi para se solidarizar “com quem sofreu na Ditadura para que o meu filho tivesse a Democracia que hoje querem tirar”.

Integrantes do governo também estiveram presentes. A ministra do Desenvolvimento Social e Combate a Fome, Tereza Campello, estava lá. No asfalto, entre centenas de mulheres e carregando uma rosa branca, ela conversou conosco. Disse que foi “como uma forma de acolhimento, para mostrar que estamos todas  na luta”. Falou também que o Abraço oferecido à Dilma “tem a cara de quem defende a Democracia, alegre, com sorrisos nos rostos”, chamando atenção para a retórica do ódio trabalhada em palavras e gritos de ordem da oposição.

Sexismo
O não reconhecimento da diversidade brasileira e a pauta sexista explorada pela oposição foi comentada pelas mulheres presentes à Praça dos Três Poderes nessa segunda. Ester Maria, professora universitária na Bahia, afirma que o Abraço da Democracia é “uma forma de dizer que não aceitaremos a nulidade da diferença”. Para ela, “a institucionalidade tende a fortalecer práticas conservadoras” e uma das saídas para isso é a educação. “Nós, professores, precisamos assumir os conflitos ao educar a nossa juventude para ela conhecer, para ela se reconhecer”, chamando atenção para uma brasilidade que, subsidiariamente, também é vítima dessa crise política.
Foto Mídia Ninja

O fato de a mandatária da nação ser uma mulher é fator crucial para a natureza dessa crise. “Quem odeia a Dilma, odeia o Lula. Mas as críticas ao Lula ficam no âmbito da capacidade, enquanto Dilma focam no pessoal, em coisas intrínsecas à mulher. Chamaram ela de louca”, reclama Sueli Bellato, da Comissão Brasileira de Justiça e Paz, vinculada a CNBB. “Essa agenda de ódio é acessória para a imposição de uma agenda de direita”, acredita. Para Sueli, as políticas sociais do governo incomodam e o processo de impeachment é “um esculacho de um congresso machista com uma mulher honrada e digna”.

Retribuição do carinho
O ato teve início por volta das 18h. Às 19h, aproximadamente mil e quinhentas pessoas estavam em frente ao Palácio do Planalto, na sua maioria mulheres. Quando os ponteiros do relógio marcavam 19h26min, a presidenta Dilma Rousseff apareceu nas janelas e saudou a multidão na rua. E, para delírio geral, seguiu em direção ao corredor de acesso a rampa do palácio para descer em direção às milhares de pessoas que foram ali para manifestar seu carinho ela.

Ovacionada, ela caminhou por toda a extensão da calçada em frente ao Planalto. Sorriu para fotos e recebeu, além do carinho e amor das mulheres e homens presentes, pétalas e flores das mãos que lá estavam para apoiá-la e conduzi-la rumo ao futuro que o Brasil espera. 
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