23 de jun de 2016

Um cachê para o Safadão na festa de São João

Wesley Safadão
Foto TV Globo
Opinião
Editorial do Blog do Arretadinho sobre o cachê de Wesley Safadão nos festejos de São João em Campina Grande
Por Joaquim Dantas

O que há de errado em um cantor cobrar mais de R$ 500 mil para fazer uma única apresentação nos festejos de São João? Nada!

O que deve servir de motivo para reflexão sobre este tema são os aspectos que o cercam. Todos os noticiários da grande mídia pautaram a "polêmica" do valor cobrado pelo cantor Wesley Safadão, para se apresentar no próximo dia 25 nos festejos de São João em Caruaru, no estado de Pernambuco, mais de R$ 500 mil para uma única apresentação.

O Ministério Público Federal, MPF, questionou a diferença do valor cobrado pelo cantor, para cantar em Caruaru e em Campina Grande Grande, na Paraíba, no mesmo dia. Enquanto a prefeitura da cidade pernambucana vai pagar mais de meio milhão de Reais para o cantor, a prefeitura da cidade paraibana pagará R$ 195 mil pelo mesmo show no mesmo dia.

As questões periféricas deste tema é que deveriam ser tema de questionamento do MPF, por exemplo, a população da cidade de Campina Grande sofre com um racionamento de água, desde 2014, sem que o poder público faça os investimentos necessários para solucionar o problema, sem falar nos outros problemas que afligem os moradores da cidade paraibana nas áreas da Saúde, Educação e Segurança e que dependem, exclusivamente, das ações do Executivo municipal.

Já na cidade pernambucana de Caruaru, a situação não é diferente nos quesitos que interferem no cotidiano do cidadão e que parecem distantes de encontrar solução, como saneamento público, por exemplo. Além da diferença de 300% no valor pago  entre as duas prefeituras, levando em conta as necessidades básicas da população, um valor ou outro é uma imoralidade.

Honestamente, não vejo este assunto como uma polêmica, mas como uma questão objetiva. As festas juninas no Nordeste são, além de tradicionais e seculares, uma grande fonte de renda para a população e de arrecadação para o Estado. A questão objetiva é a de que, ao invés da prefeitura desembolsar mais de meio milhão de Reais para um único cantor, dividisse esse pagamento com a iniciativa privada e contemplasse os músicos regionais, que interpretam o verdadeiro forró, diferente do Safadão, que é um intérprete do forró de plástico, como bem batizou esse ritmo o cantor Chico Cesar, que quando exerceu o cargo de secretário de Cultura da Paraíba, fez valer uma Lei que estava esquecida e que proíbe o pagamento de cachês, com recursos públicos, aos artistas que não interpretem as tradicionais manifestações culturais da Paraíba.
Chico Cesar Foto Joaquim Dantas
Chico Cesar
Foto Joaquim Dantas

Safadão não surgiu na cena musical ontem, ele tem mais de 12 anos de carreira. Ele começou por acaso na banda Garota Safada, formada pela mãe, pelo tio e por outros integrantes da família. 

Um certo dia, o antigo vocalista se negou a subir no palco minutos antes do show e Wesley assumiu o microfone. A carreira foi crescendo progressivamente e a fama começou no Nordeste. Em 2013, ele assinou um contrato com duas empresas, uma delas administrada pelos "sertanejos" Jorge e Mateus.

O forró de plástico surgiu na década de 1990 e um dos protagonistas da transformação do forró pé de serra em forró de plástico e em um grande negócio, foi o empresário Emanuel Gurgel. Ele conta que, nessa época, o forró era considerado brega e visto com muito preconceito pela mídia.

Gurgel "estilizou" o ritmo tradicional com coreografias e letras "sensualizadas", além de inovar na divulgação dessas bandas. 

Após administrar alguns fracassos, Gurgel lançou a banda Mastruz com Leite, que fez um grande sucesso. Antes as bandas só tocavam três músicas de forró pé de serra no Nordeste, geralmente nos intervalos dos shows. O Mastruz tocava durante cinco horas e para segurar o público, a formação da banda possuía dois músicos para cada função. Depois ele introduziu guitarra, baixo, dançarinas com roupas sensuais e jogos de luz nos shows, recriando o estilo.

No início dos anos 2000, enquanto o mundo brigava contra a internet e a pirataria, os empresários do forró de plástico desenvolveram uma estratégia que usava a internet e a pirataria como instrumento de divulgação. 

Eles começaram a distribuir os CDs das bandas gratuitamente e lucrar a partir dos eventos e menções a empresas dentro das músicas. No meio do show, o cantor dava um “alô” para determinada marca, esse show era gravado e distribuído gratuitamente em CDs e posteriormente, via downloads na internet, divulgando o nome da empresa junto. Uma estratégia muito parecida com essa foi adotada também na cena tecnobrega, na região Norte, alguns anos depois do forró de plástico.

Para ampliar a divulgação das bandas os empresários passaram a comprar horários nas rádios locais, com o objetivo de fidelizar o público com o ritmo, em seguida, começaram a comprar epaço em programas de TV como o Domingão do Faustão, ampliando o alcance das bandas em todo o território nacional.

Como se pode perceber, desconstruímos a tese de que ritmos como o interpretado por Safadão, são "uma preferência nacional", mas sim, uma imposição do capital.

Polêmicas à parte, viva o autêntico forró, viva Gonzagão!

com informações de Agatha Justino
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