8 de jan de 2017

O amor é sábio! O ódio é tolo!

Dom Juan Ricthelly Foto Joaquim Dantas
Dom Juan Ricthelly
Foto Joaquim Dantas
Um detalhe curioso sobre essa questão dos presídios, é que um dia eu já pensei como as pessoas que comemoram os massacres hoje, já fui alguém que repetia que 'Direitos Humanos eram coisa de bandido', e achava que preso tinha mais era que se lascar mesmo, ninguém mandou escolher aquela vida de crime, então agora que se foda, não é problema meu o que se passa dentro de um presídio.

Dom Juan Ricthelly
Para o Blog do Arretadinho

E assim pensei durante muitos anos. Até que um dia ganhei uma bolsa para estudar Direito, e de forma inconsciente tirei uma fotografia mental da pessoa que eu era quando cruzei a catraca da universidade no primeiro dia de aula, alguma coisa me dizia que eu não sairia dali a mesma pessoa na última vez que cruzasse a catraca, e assim foi.

Bati boca com professores algumas vezes que insistiam em defender aqueles 'animais', assisti contrariado palestras sobre a Questão Carcerária, achando um absurdo todo aquele tempo gasto para falar do sofrimento de seres que eu não via como seres humanos.

E no meio do turbilhão de coisas que é cursar uma faculdade, você acaba sendo levado a ler, pensar, refletir e tantas outras coisas. Quantas vezes não me esforcei em vão para me agarrar aos meus conceitos e preconceitos? Conseguia segurá-los durante algum tempo, mas sei lá, estava me tornando racional demais, e esse tipo de postura era incompatível com a razão que começava a brotar em mim, e no fim ela sempre vencia.

O legal da razão, é que ela não força, é sutil, não dá saltos. Ela é silenciosa e sem pressa, planta uma ideia aqui e agora, a germina calmamente, para em algum momento brotar e crescer sem esforço, e quando você para, já é tarde, foi tocado e já não é mais possível voltar atrás.

Um texto aqui, outro ali, um debate, um livro e outro... E assim se segue.

Um dia esbarrei com Cesare Beccaria, ele era sempre mencionado pelos professores, um filosofo italiano do século XVIII, que já naquela época criticava e denunciava os abusos e a ineficiência do cárcere, em seu livro Dos Delitos e das Penas. Em outro li Vigiar e Punir de Focault, e como fiquei chocado ao ler sobre a execução de Damiens logo início do livro, eu achava bacana presos sofrerem, afinal a prisão era pra isso mesmo não é? Causar sofrimento àqueles que causaram sofrimento aos outros? Né? Não daquela vez, aquilo mexeu comigo, qual era o problema? Ele era um criminoso, tinha que ser punido! Era só uma execução em praça pública com o seu corpo amarrado em cavalos que iam despedaçar o seu corpo... Não sei! Talvez eu não fosse o mesmo.

Por acidente ganhei um livro de crônicas de um tio, e o devorei despretensiosamente, até que cheguei no seguinte texto:

[...] João Silva estava com fome e não havia dinheiro. A fome venceu a sua dignidade e a sua consciência: roubou um pão e correu, não fugindo por tanto tempo graças à eficiência da polícia local. Antes de apanhado, arrancou ferozmente metade do alimento com uma mordida somente. João foi algemado e, segundo testemunhas, estava estranhamente feliz. Quem sabe na prisão, segundo seus pensamentos, seria mais bem alimentado [...]

João, antes Silva, foi julgado e ganhou nova identidade. João Ladrão-de-pão foi condenado a três anos e quatro meses de prisão em regime fechado. O juiz considerou a sentença justíssima, afinal tratava-se de um perigo á sociedade. Tempo demais por tão pouco, assim pensava. E para ao menos justificar esse tempo, João decidiu entrar para a universidade do crime, sendo educado nas artes brutas e iniciais da malandragem. Virou João Ladrão.

João Ladrão bateu, assaltou, roubou. Plantou medo no coração de alguns cidadãos da classe média-alta. Foi preso e sorriu novamente, pois estava voltando para mais uma temporada na universidade. Lá aprendeu a fina arte do assassinato, enquanto lecionava cadeiras das artes brutas da malandragem para ladrões-de-pães como ele um dia fora.

João saiu da prisão formado e na sua assinatura constava o novo sobrenome: agora seu nome era João Assassino. De volta à sociedade, plantou medo em todos os corações. Mestrado em latrocínio, doutorado em seqüestro, doutor João Assassino foi preso novamente, sorrindo sarcasticamente durante o seu novo julgamento.
 
E assim voltou para a sua casa, a velha e boa universidade do crime. Mas desta vez a olhava com outros olhos. Efetivado, doutor João Assassino lecionou as mais nobres cadeiras de finas artes do assassinato e orgulhava-se de cada turma de assassinos formada por ele.

João foi morto por um colega professor enciumado. Sua morte era a maneira perfeita do descarte de detritos produzidos pela sociedade.

Quem sabe nosso método de ensino pudesse mudar para algo tão eficiente quanto à escola do crime, patrocinada por nós mesmos[...] .

E ali decidi sobre qual seria o tema da minha monografia, 'Sistema Carcerário Brasileiro: Universidade do Crime'. E comecei uma busca sobre tudo o que era relacionado ao tema, vídeos, artigos, livros, revistas, dados, leis... E quanto mais eu me aprofundava, mais convencido eu ficava do quanto eu estava equivocado em pensar da forma que pensei durante muitos anos. 

Ao ler o parecer final da CPI do Sistema Carcerário do Congresso Nacional de 2009, tive uma dimensão do tamanho do problema que são os presídios no Brasil. Só para se ter uma ideia, haviam relatos de detentas que na falta de absorvente, usavam miolo de pão francês, homens que não viam a luz do sol há dois anos, pessoas que estavam presas sem julgamento, tortura, mortes brutais, abusos sexuais...

Sempre que alguém me perguntava sobre o que seria a minha monografia, uma discussão infindável se seguia e eu saia como o defensor de bandidos ao final.

Apresentei a minha monografia, fui aprovado com uma boa nota, me tornei uma partidário radical dos Direitos Humanos e ao cruzar pela última vez a catraca da universidade, olhei a fotografia mental que havia retirado lá atrás no primeiro dia, e eu não era mais a mesma pessoa, e como me senti feliz por isso.

Então quando vejo esses discursos odiosos pela internet, tento me apegar a um pensamento simples: Há esperança! Se eu mudei, qualquer um pode mudar!

Eu não era uma pessoa má, assim como não acredito que a maioria seja. Eu só era ignorante. Por sorte há cura pra isso.

Por fim termino com um pensamento de Russel:

"O amor é sábio! O ódio é tolo!"
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