1 de abr de 2017

Café com a História - Por Marcelo Pires

“No caso do golpe de 1964, talvez o depoimento mais contundente seja o livro de Sylvia de Montarroyos, Réquiem por Tatiana, memórias de um tempo de guerra e de uma descida aos infernos. 

Ali se lê o pior da experiência: o retrato da humanidade ferida. Como nos campos de concentração nazista, a crueldade se faz independente de diferenças políticas e partidárias. 

Visa ao âmago da alma, humilhá-la, provar que nada possui para se orgulhar. A primeira mulher sujeita aos métodos de intimidação da ditadura no Brasil venceu. A tal ponto se recusou a abrir a boca que enlouqueceu, ficou com os maxilares presos, incapaz de se alimentar. 

Transferiram-na para um manicômio. A insanidade mental do regime repetiu algumas vezes o exercício: transferiu para o outro, a vítima, a sua demência. [...] 

Décadas depois a cena da posse na presidência da República de Dilma Rousseff, uma militante de esquerda, torturada e presa política em passado recente, de repente elevada à testa do governo pelo voto popular, fala por si. Gostando ou não, a tropa alinhada à sua frente bateu continência. 

Um visitante ingênuo, no meio do público, testemunhando o evento, sem consciência do que teria havido no entretempo, diria que a Terra girara e pusera o planeta de cabeça para baixo...” 

Ecos do Golpe: a persistência da ditadura 50 anos depois. Mauro Iasi e Eduardo Granja Coutinho (orgs.)
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