2 de ago de 2017

Carta aberta a Jean Wyllys

Caro deputado federal Jean Wyllys,

A situação da Venezuela é realmente dramática, mas, no texto publicado em sua página no Facebook, você se limita a apresentar a versão estereotipada dos fatos veiculada pela mídia golpista brasileira, que reproduz os press releases das agências de notícias norte-americanas.

Você não buscou fontes alternativas de informação e acredita ingenuamente numa mídia atrelada aos interesses do grande capital.

Uma mídia que esconde a realidade dos campos de concentração mantidos pelos Estados Unidos em Guantánamo e em outros lugares no mundo para prisioneiros detidos sem direito a defesa ou mesmo acusação formal, que esconde os crimes de Israel na Faixa de Gaza, dos neonazistas na Ucrânia, do governo neoliberal de Macri na Argentina, e que considera “ditadores” todos os líderes que não são submissos ao Império norte-americano.

Esta tem sido, aliás, uma prática rotineira de seu partido, o P$OL – basta recordarmos o entusiasmo com que Luciana Genro saudou o golpe de estado na Ucrânia, as declarações de Marcelo Freixo em sua visita à FIERJ no Rio de Janeiro ou as suas próprias declarações de louvor ao sionismo e aos crimes do estado terrorista de Israel.

Porém, vou me ater, aqui, apenas às suas recentes declarações no Facebook sobre a Venezuela, que causam escândalo a todos os que se identificam com a esquerda, pelo seu explícito alinhamento com a política externa norte-americana.

O texto diz:
“A ditadura de Nicolás Maduro, cada dia mais descontrolada e sem limites, reprime as manifestações com uma violência inusitada, cercea as liberdades públicas e avança sobre os outros poderes, eliminando os poucos resquícios de institucionalidade que ainda restam no país.”

Por que você considera “ditadura” um governo que foi eleito nas urnas, com a participação de candidatos de partidos oposicionistas, com a presença de observadores internacionais e que realiza constantes plebiscitos para consultar a opinião pública? Um governo que convocou uma Assembleia Nacional Constituinte para que o povo decida com liberdade e soberania quais serão os rumos para o seu país? Isso é “ditadura”?

Quanto à suposta “repressão” e “autoritarismo” do governo Maduro: como você acha que um governo legítimo e democrático deveria agir em relação a “manifestantes” que usam bazucas e armas de fogo em protestos violentos, que matam policiais e parlamentares governistas e usam helicópteros armados para atacarem prédios públicos? Você considera legítima essa forma de “manifestação”?

Mais adiante, você escreve:
“90% da população decidiu não votar. E a resposta do governo foi ‘maquiar’ os resultados depois de horas sem saber o que dizer, mentir ao mundo e ameaçar com um processo de cassação contra a procuradora e com enviar os deputados da oposição para a cadeia!!”

Qual é a sua fonte de informação sobre isso? As declarações de parlamentares oposicionistas da direita venezuelana, cuja credibilidade é a mesma de Ronaldo Caiado? Aliás, você não se envergonha de compartilhar as mesmas opiniões sobre política internacional de gente como Caiado, Bolsonaro, Aécio Neves e Aloysio Nunes Ferreira, que fazem do discurso contra o “bolivarianismo” e o “Foro de São Paulo” uma versão atualizada do velho e surrado discurso anticomunista?

A seguir, você diz:
A ‘Constituinte’ de Maduro é (...) um jogo de cartas marcadas. O objetivo era substituir o atual parlamento, com maioria da oposição, que venceu por ampla maioria as últimas eleições que Maduro permitiu, porque as seguintes foram suspensas. Foi por isso que a imensa maioria da população não foi votar ontem nessa farsa de eleição com partido único, apesar das ameaças do governo contra servidores públicos e beneficiários de programas sociais.”

Sei que o nobre deputado tem pouco conhecimento de história e teoria política, ou até mesmo da simples realidade imediata, agora, você afirma que a Venezuela tem “partido único”, mesmo que, no atual Congresso venezuelano, os partidos de oposição tenham maioria (fato inusitado numa suposta “ditadura”)! Onde está a coerência, caro deputado?

Convido você a ler o que Alfredo Serrano Mancilla, doutor em Economia pela Universidade Autônoma de Barcelona e diretor executivo do Celag (Centro Estratégico Latino-americano Geopolítico), escreve sobre as eleições venezuelanas:

“O povo venezuelano saiu a votar sem medo; 8.089.320 venezuelanos deram seu visto à Constituinte (41,53%), muito próximo ao recorde histórico (que Chávez teve em 2012). Muitos o fizeram porque são chavistas e estão dispostos a dar seu voto em qualquer circunstância. Aí estão, seguramente, mais de 5 milhões e meio que já o fizeram nas eleições parlamentares de 2015, apesar das dificuldades econômicas. Mas também votaram todos aqueles que tiveram algumas críticas ao chavismo, ou que tinham certo descontentamento, mas que agora estão absolutamente fartos da violência da minoria opositora que está impedindo a vida cotidiana. (...) Sem dúvidas, esta eleição demonstra algo que a oposição, nacional e internacional, não quer aceitar: o chavismo como identidade política segue muito presente no país.”

Por sua vez, o Conselho de Especialistas Eleitorais Latino-americanos (Ceela), integrado por ex-presidentes e magistrados de órgãos eleitorais do continente, destacou em um relatório a “robustez e fiabilidade do sistema eleitoral venezuelano”, bem como “a necessidade de se respeitar a vontade expressa pelo povo nas eleições para a Constituinte, realizadas neste domingo (30)”. O relatório, que será entregue ao Conselho Nacional Eleitoral (CNE) da Venezuela, reitera a necessidade de se respeitar a vontade do povo num processo que registou alta participação, para eleger 537 dos 545 constituintes.

Você reconhece que “parte da oposição à ditadura em que se converteu o governo de Maduro é composta de uma elite egoísta e irresponsável que, com o objetivo de controlar a principal riqueza do país (o petróleo) e privatizar sua exploração comercial, sabotou economicamente a Venezuela, precipitando o país no abismo em que hoje se encontra”, mas não diz que essa oposição golpista, aliás majoritária – assim como acontece no Brasil – é apoiada e financiada pelos Estados Unidos, em sua estratégia de derrubada de todos os governos progressistas na América Latina, para reconvertê-la à triste situação neocolonial. A “outra oposição”, que você menciona em seu texto, é formada por uma suposta “esquerda” trotsquista, que, assim como o P$OL e o P$TU no Brasil, cumpre o triste papel de ser linha auxiliar da extrema-direita golpista e do imperialismo (ou você se esquece da participação de seu partido nas “jornadas de junho” de 2013, em que vocês marcharam nas ruas lado a lado com os fascistas que derrubaram Dilma em 2016?).

A grave situação de desabastecimento nos supermercados venezuelanos é causada pelos grandes empresários desse país, numa operação de sabotagem econômica com objetivos golpistas, assim como aconteceu no Chile, na época de Salvador Allende. Tenho conhecimento que você e o seu partido foram corresponsáveis pela deposição da presidenta eleita do Brasil, Dilma Rousseff, mas procure se informar sobre as sabotagens realizadas pelos grandes capitalistas em nosso próprio país, como a redução de investimentos para prejudicar a economia, elevar o desemprego e provocar o descontentamento popular. Mesmo um ex-Big Brother Brasil de pouca inteligência política poderá compreender isso, com algum esforço e estudo.

Para concluir, sugiro ao nobre deputado: caso queira saber o que significa realmente autoritarismo, terrorismo de estado e violência policial, faça uma visita à Faixa de Gaza, onde os sionistas israelenses mantêm dois milhões de palestinos num imenso campo de concentração a céu aberto. Ah, claro! Lembrei-me agora! O seu partido, o P$OL, recebe doações de empresas com capital acionário israelense, como a Taurus e a Gerdau (ambas indústrias armamentistas) para financiar suas campanhas políticas! Desculpe-me pelo esquecimento! Finalizarei a minha carta aqui, declarando que não nutro o menor respeito pela sua pessoa e por seu partido, e sim o mais veemente desprezo que se possa ter por traidores quintas-colunas, lambe-botas do imperialismo norte-americano.

Claudio Daniel, poeta e militante comunista no Blog Carta a Pele de Lontra
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