14 de set. de 2012

O neofascismo playboy e o mimimi lacerdista no RJ

O neofascismo playboy de Marcelo Freixo

Por Miguel do Rosário em Ocafezinho
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O poder é violento, corrupto, mau e totalitário. No entanto, é uma força da qual não se pode fugir. Está na natureza, pairando como um fantasma, implacável, nos assombrando dia e noite. Há inimigos por toda a parte. Antes de haver sociedade organizada, havia predadores, fome, doenças, cataclismas. A lista depois foi aumentando: guerras, epidemias, miséria, escravidão.

Assim como Io era caçada, onde quer que fosse, por um monstro, é a nossa sina sermos perseguidos pela besta do poder.
Aristóteles explica esses movimentos em sua obra Política: uma aristocracia, em tese, é um governo dos melhores; logo, porém, se torna uma oligarquia, porque esses “melhores” se corrompem e geram filhos mimados e violentos. A oligarquia explora o povo, que se rebela e elege um líder para defendê-lo dos opressores. Surge a ditadura. O ditador enlouquece com tanto poder concentrado em suas mãos e se torna um déspota. O povo se rebela e cria uma democracia. O governo do povo. Entretanto, o ciclo não pára aí. O povo cria uma ditadura da maioria, com a qual oprime os que pensam diferente, que não raro são os melhores, os mais valentes ou mais instruídos. A democracia condenou Sócrates, por exemplo. Daí surge articulações para se criar novamente uma aristocracia. E a roda volta a girar outra vez.
O poder, no entanto, não é apenas mau. Ele também liberta o homem e a sociedade, inclusive através da violência. O poder vence guerras, liberta povos, constrói pontes, descobre vacinas, fabrica navios capazes de cruzar oceanos e interligar civilizações, financia a instrução em massa de um povo.

Dialético, o poder. Repleto de contrastes brutais.

Todo governo, democrático ou despótico, oligárquico ou popular, carrega a maldição do poder.
Primeiro porque não é possível satisfazer a todos. Segundo porque o tempo do poder é diferente do tempo do homem. Os governos são lentos, a vida passa rápido. Terceiro porque o governo tem mãos grandes demais para lidar com os delicados problemas dos indivíduos.
Um fulano começa a usar crack e se autodestruir. Para tirá-lo dessa vida, não basta cuidar de sua saúde, é preciso entender seus problemas pessoais, e o Estado quase nunca possui essa sutileza. Talvez a Áustria, com 8 milhões de habitantes, e uma arrecadação fiscal per capita sete ou oito vezes superior a do Brasil, seja mais sutil e delicada com o indivíduo. O Brasil, com seus 200 milhões de habitantes, e problemas acumulados ainda maiores, vive outra realidade. Uma cidade como o Rio, com 8 milhões de pessoas, certamente enfrentará momentos de quase cegueira em relação aos problemas pontuais que atormentam os cidadãos.
É cada vez mais difícil para o Estado olhar os casos individuais. E, no entanto, ele tem de olhar. Tem de cuidar de todo mundo.
Explode uma crise, que se torna especialmente dramática na saúde. Não há médicos, enfermeiros e funcionários suficientes. Eles não ganham bem.
No entanto, a culpa não é apenas do prefeito. Há enfermeiros pilantras, que roubam remédios e não trabalham adequadamente. Há médicos corruptos e relapsos. Há burocratas insensíveis e incompetentes. A sociedade não se mobiliza. A direita, com apoio do PSOL, derruba a CPMF, mesmo após acordo de que ele iria integralmente para a saúde pública… Em seis anos, perdemos quanto? R$ 250 bilhões?
Qual a solução? Manter a bunda na cadeira? Resignar-se?
Não!
A solução, naturalmente, passa pela política, pela eleição do melhor candidato possível, mas não só isso. Ela passa também, e em maior grau ainda, pelo esforço individual de cada um de se tornar um profissional mais competente. Esta é essência da justiça, segundo Sócrates. Cada um fazer o que lhe compete. Estudar, trabalhar, lutar pela vida, pela política, pela arte, pelo amor. Nenhum país ou cidade do mundo, ao menos em ambientes democráticos, se desenvolveu porque ficou esperando um governo salvador, liderado por um santo. Eu dou muita importância à política, ao governo, mas dentro de um conceito de construção coletiva, dentro de uma lógica republicana e democrática. Acreditar em Messias é o fim da picada.
O melhor caminho é o mais difícil, mais árduo, mais demorado, mas o único que dá resultados concretos. Só o pequeno burguês tem ilusão de um triunfo rápido e fácil sobre as dificuldades. O povo tem bom senso e sabe que as mudanças requerem uma construção. Ele não é resignado, contudo. Ele se revolta quando tem de se revoltar, queima ônibus, vota na oposição, mas ele também agradece quando percebe que as coisas estão indo no rumo certo, sabe que é necessário apoiar, e sobretudo entende que ele mesmo deve se esforçar para contribuir.
Naturalmente, para que o maior número possível de pessoas tenha oportunidade de se aperfeiçoar, é preciso que haja um ambiente econômico favorável.
O que tudo isso tem a ver com a eleição no Rio de Janeiro?
Tem tudo a ver, porque eu vejo emergir na cidade uma flor bela, sedutora, e terrivelmente venenosa. Chamá-la-ei de neofascismo playboy. Como sempre, vem da classe média, da velha e tradicional classe média, sobretudo da zona sul.
Sua beleza reside em seus aspectos oníricos. Podemos ter um mundo melhor? Sim, podemos! Uma cidade mais justa? Yes, we can!
Obama venceu as eleições!
Mas ora vejam. Se Obama, a autoridade máxima de seu país, pertencente a um dos dois partidos mais fortes dos Estados Unidos, com apoio da mídia, da intelectualidade, do mundo inteiro, não conseguiu fazer muita coisa, causando terrível decepção a seus eleitores, mesmo tendo maioria no Congresso nos dois primeiros anos de sua gestão, o que poderia fazer um prefeito sem nenhuma base parlamentar, de um partido pequenino, isolado, e que faz oposição ao governo mais popular da história?
Não creio que poderia fazer muita coisa além de proselitismo partidário, sempre botando a culpa nos outros. O Estado é uma máquina complexa, perigosa, com a qual se deve lidar, no mínimo, com extrema prudência. Não adianta ser afobado. Também não se pode ser lerdo, claro, mas para fazer as coisas andarem mais rapidamente, é preciso força política. Para isso Chávez, Cristina, Rafael Correia e Morales se esforçaram, primeiro, para articular uma base partidária e legislativa forte, e só depois promoveram as reformas políticas mais importantes.
Pretender realizar mudanças por fora dos canais democráticos tradicionais, vender a ideia de que é possível governar sem base legislativa ou partidária, sem articulação com as forças sócio-econômicas da cidade, e ainda fazendo oposição às esferas políticas superiores, me parece ou pura porralouquice lisérgica ou uma nova roupagem para o fascismo. Uma turminha que tentou isso antes possuía ao menos o apoio dos militares e da mídia. De onde viria o apoio necessário à estabilidade? Dos conselhos de bairro? Tá bom.
É um fascismo pós-moderno, reunindo doses cavalares de demagogia e faturando descaradamente em cima da campanha moralista da mídia contra a política.
São quatro ingredientes básicos:
O medo atávico do cidadão contra o poder estabelecido.
O desgaste inevitável do poder: um governante tem de governar e isso implica em tomar medidas nem sempre populares, como fazer remoções, cortar ponto de grevistas e organizar o comércio ambulante. Nem sempre, além disso, tais medidas são bem feitas. No caso da prefeitura do Rio, a organização do comércio ambulante cometeu erros gravíssimos.
Um ambiente midiático altamente carregado de preconceito contra a política e os políticos.
Muita demagogia.
Basta faturar em cima desses itens, e eis um candidato pronto para ser embalado e vendido pela mídia. Uma pena que Marcelo Freixo seja de esquerda. O blogueiro maluco da Veja (que é uma espécie de polvo profeta) não vai aceitar. Não tem problema. Daqui a dois anos a mídia inventa um de direita, mais a seu gosto. Como já fez antes, aliás.
Freixo é um teste. Vencendo, ficará provado que nossa democracia é frágil bastante para eleger qualquer um que tiver um rosto bonito e um discurso demagógico. Não precisamos mais de partidos e seus eternos conflitos internos, de longas e complexas articulações políticas com os movimentos sociais, o empresariado e sindicatos. Não precisamos mais construir ideias, nem confrontá-las com a dura realidade. Basta pegarmos um político de boa aparência, apoiado por um punhado de celebridades, carregá-lo de simbolismos poderosos e pronto! Temos um vencedor! E se ele não obedecer à mídia, será derrubado rapidinho, como foi Collor. Sem apoio legislativo, não poderá se dar ao luxo de comprar uma briga com os gigantes da comunicação.
Estou convencido que, nestas eleições do Rio de Janeiro, ao contrário do que pensa o “senso comum”, temos o seguinte quadro. Eduardo Paes representa a esquerda. Marcelo Freixo, a direita. Paes tem um vice do PT e os apoios do ex-presidente Lula, Dilma, Oscar Niemeyer, Cacá Diegues, Flora Gil, Jandira Feghali e PDT. Freixo tem apoio de Babá, setores do PSDB, Caetano, dois terços do Projac e… Berg. Dá o que pensar, não é?
As pessoas, desinformadas por uma mídia histericamente conservadora ou por seus próprios preconceitos ideológicos & partidários, não fazem ideia do que aconteceu no Rio de Janeiro nos últimos quatro anos. Ou então esqueceram subitamente. Não é por ignorância do povo que Paes está se elegendo no primeiro turno. Tanto é assim que pouquíssimos prefeitos, mesmo com ajuda de Lula e Dilma, experimentam um cenário eleitoral tão favorável.
O bairro de Santa Cruz, por exemplo, foi beneficiado com um programa de saneamento básico de R$ 218 milhões, através de um convênio entre prefeitura e governo federal. Tenho discutido com algumas pessoas pela internet, e um rapaz, se achando muito de esquerda, veio defender o César Maia, dizendo que este tinha feito, pelo menos, o Favela Bairro. Pois é, o Favela Bairro foi um excelente projeto, melhorou a autoestima de centenas de comunidades e bairros, mas era um programa fundamentalmente estético. Não chega aos pés de um programa como o supra-citado, em Santa Cruz. O rapaz não tinha informação nenhuma sobre as realizações da prefeitura, pelo jeito. Nem das que foram feitas, nem das que ainda virão.
Outro veio falar da quantidade “horrorosa” de contêineres no Caju, sem atentar de que esta é uma consequência do aumento exponencial do comércio exterior pelo porto do Rio, fato extremamente positivo em termos de geração de renda, impostos e empregos.
Prefeitura e governo federal estão investindo R$ 3 bilhões na Rocinha, Cantagalo, Pavão, Pavãozinho e Alemão, em obras de infra-estrutura. Foram construídos os primeiros grandes túneis e vias para facilitar o acesso à zona oeste do Rio. A prefeitura do Rio construiu e reformou vários hospitais na zona oeste e fez do Rio uma das cidades mais integradas ao Bolsa Família (inclusive lançando um programa complementar, o Cartão Família Carioca) e ao Minha Casa Minha Vida.
A zona sul – e seus avatares da periferia – não enxerga essas coisas e, no calor da campanha, adere a um discurso raivoso e lacerdista, centrado apenas na “moral” do prefeito e repleto de promessas totalmente demagógicas.
Não tenho certeza acerca do caráter de Eduardo Paes. Também nunca tive certeza sobre o caráter de Lula, apesar da minha grande admiração por ele como estadista. Durante todo o tempo em que defendi Lula dos mesmos ataques hoje desferidos contra Paes, eu repetia: “não boto a mão no fogo por ninguém, mas acusação tem de ser provada”. Não creio que Paes seja “bonzinho”, mas também não acho que Lindbergh Farias, por exemplo, nosso senador petista, seja um modelo de santidade. Não interessa, porém, o que eu “acho”, baseado apenas em meus preconceitos. Se há alguma coisa concreta contra Paes, então que se ponha num papel e se denuncie ao Ministério Público. Mimimi lacerdista em época de eleição é oportunismo.
Quero acreditar, aí sim, nas instituições: temos tribunal de contas no município, tribunal de contas no estado, tribunal de contas da União, Ministério Público do Rio, MP federal, Justiça Estadual, Justiça Federal, Justiça Eleitoral, Corregedoria Estadual, Ouvidorias, Polícia Federal, imprensa, blogs, ongs, entidades internacionais. Se Paes cometer um erro, há toda uma estrutura de poder o vigiando. Ele terá de ser imensamente esperto para enganar todo mundo, e ainda tocar um governo que lhe granjeie popularidade para poder prosseguir na vida política. O momento que vivemos é diferente daquele onde vemos prosperar um Maluf. Temos uma Lei da Informação. Temos internet. Temos instituições mais fortes e mais combativas.
O povo não guarda mágoas. Não quer saber se Paes xingou Lula no passado, depois mudou de partido e agora é seu amigo. Isso não interessa. É da política. Lula também xingava Sarney e depois foi obrigado a compor com ele, visto que Sarney era presidente do Congresso Nacional e apoiou suas políticas. O que interessa é se fez um governo razoável, que beneficiou o pobre, e se tem condições políticas para seguir governando. O povo tem uma intuição política muitas vezes superior a de setores da elite. O princípio da moralidade, segundo Kant, reside no bom senso, ou seja, na sabedoria popular. Se Paes veio para nosso lado, ótimo!
A elite carioca vive embriagada pelo que ela acha ser “cultura”, mas que não passa de ideias mal ajambradas, com base em dados distorcidos que leu nos jornais. Essa esquerda esverdeada, pós-moderna, conceitual, pode ser desmascarada pela presunção com que acredita nas soluções fáceis. Vamos cruzar a cidade com trens! Ora, é fácil, né. Tem que arrumar uns 300 bilhões de reais e remover umas 2 milhões de pessoas. Isso eles não falam. O interessante é que não querem metrô no Leblon… ou seja, é tudo papo furado.
E ainda temos propostas realmente bizarras, como exigir contrapartida cultural de samba-enredo. Freixo enche a boca para falar que as escolas recebem “verba pública”, e compara com edital da Funarte ou Minc, que exige contrapartida social. Comparar exposição de arte ou edição de livro infantil com as escolas que fazem o Carnaval da Sapucaí, que tem décadas de história, emprega dezenas de milhares de pessoas e protagonizam a festa mais importante no calendário turístico do Brasil?
Solução? Montar um Conselhão para decidir se o samba merece ou não o cachê da prefeitura. O socialismo libertário tirou da cartola uma ideia estalinista. Maravilha. A prefeitura não tem que se meter nem atrapalhar a vida das escolas de samba! Tem que ajudar e pronto. A contrapartida é o próprio samba, que naturalmente será o melhor possível, visto que a escola quer ganhar prêmios, vender discos e ficar mais famosa. Se o samba for ruim, vendido, comercial, a escola será rebaixada e/ou venderá poucos discos. Freixo está achando que a turma do samba é um bando de suburbanos sem noção de arte?
Quanto à venda de ingressos sem cartão de crédito, alguém tem que lembrar a Freixo, que os bilhetes são vendidos em poucas horas. E os recursos são, por direito, da Liesa, que é a Liga das Escolas de Samba. Criminalizar a Liesa é bem coisa de lacerdinha burguês da zona sul. Quero ver um almofadinha zen desses ter competência e culhão para organizar um carnaval do porte do que é feito no Rio de Janeiro. A contrapartida do carnaval da Sapucaí são os milhões de turistas que atrai para o Brasil, com seus euros, empregos e impostos. Não fosse o carnaval da Sapucaí, o seu IPTU seria mais alto, playboy.
Nem venham falar que os “mais bem informados” votam em Freixo, e mostrar os números da pesquisa Datafolha. O Serra também ganha disparado entre quem tem curso superior. Ninguém é mais bem informado politicamente porque fez faculdade. Lula não tinha faculdade e Machado de Assis não terminou o ensino médio. Numa democracia, todos são iguais. O voto do pobre com ensino fundamental tem o mesmo valor, moral e político, de um professor da PUC com doutorado na Sorbonne.
E também não venham me encher o saco dizendo que sou petista, lulopetista, que isso é panfleto eleitoral, etc. Esse é um texto político, francamente panfletário, cheio de exageros e simplificações. Sou apenas um blogueiro sem filiação partidária, que escreve porque gosta, e apoia quem acha melhor diante da conjuntura local e nacional. O que importa são os conceitos que eu tento desenvolver e os dados e argumentos que trago à tôna. Peço desculpas pelas expressões agressivas e às vezes vulgares, mas elas tem um poder de síntese importante. Boa sorte a todos e que vença o melhor!

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