Ismael Cardoso: O Amor Reginaldo Rossiano
do sitio http://ujs.org.br/
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Lembro-me perfeitamente de um dos meus primeiros porres na cidade de São Paulo, foi no boteco mais sujo e simpático que conheço, muitos irão se identificar, afinal, tomaram este e outros porres comigo no grande Bar do Damião, que mudou de dono e nome, mas, nós saudosos que somos, continuamos a chamá-lo assim.
No bar do Damião existe uma daquelas máquinas retrô que se colocam moedas para escutar música, na lista só ouvíamos Roberto Carlos, Wando e Reginaldo Rossi. Muitos bêbados e transeuntes ficavam nos espiando, imaginando o porquê daquelas belas moças, e rapazes nem tão belos assim, escutarem Reginaldo Rossi, cantarem Reginaldo Rossi, a explicação é simples, é que nós não deixávamos que o amor Avenida Paulista sufocasse o nosso amor Reginaldo Rossiano.
Em tempos de “Amor Avenida Paulista”, este amor de dois corpos cansados, separados pela gélida e imensa avenida aristocrática, Reginaldo Rossi faz muita falta.
O amor Reginaldo Rossiano rasga a Avenida Paulista em meio aos carros de motores quentes – como a cabeça destes seres infelizes – gritando eu te amo! Não posso viver sem você! Volta pra mim! E tasca-lhe um beijo que estes mauricinhos da “baladinha” jamais em suas vidas saberão o gosto, o significado, porque o beijo e o sexo Reginaldo Rossiano é esta coisa sangrada, dolorida, arranhada, de puxões de cabelos e longos gemidos, tudo isso misturado ao “Eu te amo”, “não posso viver sem você”. O amor Reginaldo Rossiano é Neandertal na sua vontade e ao mesmo tempo Shakespeareano no seu coração.
Reginaldo Rossi, com sua poesia, subverteu todas as lógicas, retirou o beicinho empinado dos que diziam “Mon mour” e colocou a brasilidade, o suor e um veneno bem gostosos de provar em “Mon amour, Meu bem, Ma Femme”. Subverteu a fábula da Raposa e as Uvas, que em não conseguindo alcançar o cacho de uvas foi se embora sem provar seu sabor. O amor Reginaldo Rossiano não é um amor acomodado que se despede no primeiro obstáculo, ele degluti a uva pedaço por pedaço, mesmo que a mãe da uva diga que só pode depois do casamento. O amor Reginaldo Rossiano não pode esperar.
Reginaldo Rossi, raposa que é, deve estar neste momento com sua uva em cima de sua lambreta, porque morreu numa sexta feira, aos 69 (meia nove) anos.
Adeus nosso Mon amour, o seu jeito de amar sobreviverá a esta tempestade chamada Avenida Paulista.

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