30 de jul de 2015

Um erê banhado por omolú

Escritor enaltece a adaptação de Guimarães Rosa na peça Miguilim Inacabado, do diretor Valdeci Moreira

Do Gama
Joaquim Dantas
Para o Blog do Arretadinho

A sensibilidade do escritor Paulo Kauim ficou evidenciada no texto que ele escreveu após assistir a peça Miguilim Inacabado, do premiado diretor de teatro Valdeci Moreira, no Teatro Espaço Semente do Gama.

Foto divulgação
Além de reconhecer o talento dos atores o escritor elogia aspectos como figurino, iluminação, música, entre outros.

Confira:

Um erê banhado por omolú

Por Paulo Kauim

Vau, Milho Verde, Corinto, Curvelo, São Gonçalo do Rio Preto, Buritis, Urucúia, Serro, Serra do Espinhaço, Gama, Mutum, Ponte Alta do Baixo, Nonada: o sertão está por toda parte. A arte inquieta da Companhia Semente de Teatro, feito bacantes, rasga a pele de nossa alma em sua nova encenação: Miguelim Inacabado. O texto é uma livre adaptação da novela Campo Geral de Guimarães Rosa.

A encenação levou um ano e meio de ensaios. Durante a pesquisa, o Valdeci foi até Cordisburgo, cidade natal do Rosa, para trazer a carne das palavras, a atmosfera do lugar e o seu silêncio.

Eu já havia assistido outras adaptações das narrativas do Rosa para o teatro, feito Vau da Sarapalha, A hora e a vez de Augusto Matraga e História de Algum Lugar. Infelizmente não assisti a montagem de Meu Tio Iauretê, com direção do Roberto Lage e com o Cacá Carvalho atuando. No cinema eu vi as adaptações Noites do Sertão, A terceira margem do rio e A hora e a vez de Augusto Matraga.

O poeta russo Maiakóvski afirma que o povo é o inventa línguas. Rosa, via Joyce, vai trazer todo esse vocabulário do universo do sertão para os seus escritos. Sempre com uma caderneta, ele anotava tudo que os seres das gerais diziam.

É sempre um risco adaptações literárias para serem erigidas sobre o tablado. Um exemplo é Vau da Sarapalha. Temos uma encenação surpreendente ( no melhor estilo Eugenio Barba ), porém, o espetáculo não consegue afastar-se da literatice. Miguelim Inacabado engendra essa urdidura dramatúrgica. A fala de cada personagem do Rosa, baila na boca dos atores. Tornou-se um texto cênico dançarino.

Em psicanálise, diz-se que o diabo é a sedução, a tentação, o desvio. No grande sertão do Valdeci e do Ricardo César, isso fica evidenciado. Há um ditado espanhol que diz assim: "quanto menor o lugar, maior o seu inferno". É assim que em Miguelim Inacabado, o Rosa nos leva ao porão-mutum da alma humana para aparar e amortecer nossos fantasmas.

Nessa encenação, a música é um signo central, um tipo de coro grego. A música funciona como a cor e a fala do rito. A disposição da plateia em círculo, contribui para fazer a gira e ao som ancestral da alfaia, nos faz entrar em transe.

A iluminação, a música, a cenografia, o figurino e os adereços vão entrelaçando-se com a irradiante e impecável interpretação de cada ator na trama. É incrível e comovente o trabalho feito com o corpo e a voz dos atores Léo Thilé, Jura Camilo, Jussy Nascimento, Sara Tavares, João Camargo, Crys Lira, Thiago Bellargo, Murillo Medeiros e Matheus Trindade. A composição criada para cada personagem é brilhante. Viva o artesanato do gesto antropológico de cada um em cena.

Através dos olhos de um menino, Rosa vai desvelar nosso universo adulto-embaçado com seus conflitos familiares, religiosos, éticos, existenciais, amorosos e sexuais. Se no mito de Platão é necessário sair da caverna para enxergar outras miradas, nesse texto, o Rosa vai fazer com que o menino-míope-sonhador bote os óculos.

E como diz uma das personagens: “e que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo".

É impossível o espectador não sair transformado após essa travessia. Viva a arte que muda a paisagem do sertão dentro de cada um de nós.

Teatro é arte total
Semente
Mutum
Rosa
Evoeros



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Ficha Técnica

Encenação e Direção: Valdeci Moreira e Ricardo César

Dramaturgia: Valdeci Moreira e Sara Tavares

Elenco: Leo Thilé, Jura Camilo, Jussy Nascimento, Sara Tavares, João Camargo, Crys Lira, Thiago Bellargo, Murillo Medeiros e Matheus Trindade.

Cenário e figurino: Ricardo César

Iluminação: Valdeci Moreira

Sonoplastia: O grupo

Cabelo e Maquiagem: o grupo

Arte Gráfica: Wilton Oliveira

Fotografia: Luiz Alves, Marli Trindade

Texto: Baseado na obra Corpo de Baile - de Guimarães Rosa

Produção: Marli Trindade – (61) – 8415-2782 – 8126-1989

Telefones Valdeci Moreira: (61) 3385-3439 - 9817-8156 – 8181-2556

E-mail: valdecimsouza@gmail.com e sementeciadeteatro@gmail.com

Classificação: 14 anos

Datas: 10 de Julho a 02 de Agosto, sempre sexta, sábado às 21hs e domingo às 20hs.
Ingressos: R$: 30.00 (Inteira) e R$: 15.00 (Meia)
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