30 de jun de 2016

Por que o feminismo é tão importante no contexto atual brasileiro?


Por Monaliza Maelly Fernandes Montinegro

“Democracia, substantivo feminino passível de feminicídio porque ousou vestir saias pela primeira vez"Maria Gabriela Saldanha

A guerra contra o feminismo há muito foi declarada. Mas, no Brasil, a ofensiva foi intensificada justamente no momento em que a primeira mulher chegou ao cargo mais importante no país. Foi com a primeira mulher brasileira na presidência da República que vivenciamos os maiores retrocessos na emancipação feminina. Os eleitores da bancada religiosa, ludibriados por um discurso patriarcal, crescem a cada dia, crentes de que os parlamentares que declararam guerra ao “feminismo” estão preocupados com valores como família e vida.

É justamente nesse momento em que até um tema de redação do Enem abordando a violência contra mulher passa a ser alvo de críticas e revoltas, quando a palavra feminismo se torna um palavrão e a introdução de conceitos como “igualdade de gênero” para as crianças nas escolas se transforma em uma ameaçadora doutrinação infantil chamada “ideologia de gênero”.

Depois de termos o primeiro ministério com a participação feminina e até ministérios com 11, 15 mulheres, um presidente interino traz uma composição formada apenas por homens, sendo alvo de ridicularizações em todo o mundo. Nesse contexto, não é de se estranhar que o álibi do poder patriarcal seja usado em plena votação no Congresso como argumento de autoridade por aquele que preside a sessão. Assim, adjetivos como “louca, histérica e perturbada”, todos no gênero feminimo, ganham voz, inclusive, dentro da esquerda, entre as pessoas que lutam pela igualdade social. E, no momento mais cruel dessa onda reacionária, a palavra de uma mulher ao dizer que foi estuprada é colocada em cheque, escrachando o grito inaudível da mulher violentada.

Episódios como esses fazem parte de nosso cotidiano. Apesar disso, boa parte das pessoas acreditam que “as mulheres de hoje vivem uma luta de ontem, em um mundo em que não há mais direitos a serem conquistados”, ou que ser feminista é entender que a mulher tem o direito de ser o que ela quiser, “inclusive propriedade do marido”, ou que “uma mulher que sofre, constantemente, agressões físicas do companheiro e permanece ao lado desse faz uma escolha e merece ser punida por isso”. Aliás, é impressionante que temas como sororidade, misoginia, machismo, ainda sejam desconhecidos no universo feminino.

Antes de prosseguir com o texto, quero deixar bem claro para as pessoas que estão esperando um texto jurídico, que não precisam avançar; falarei muito pouco sobre leis e doutrina. Também não haverá poesia. Hoje, vou falar sobre primaveras, flores e espinhos, sobre misoginia, sobre patriarcado, explicação masculina, interrupção masculina, apropriação de ideias, sororidade... Venho enumerar direitos que foram furtados e outros que ainda não foram apresentados.

“Pane no sistema, alguém me desconfigurou Aonde estão meus olhos de robô? Eu não sabia, eu não tinha percebido Eu sempre achei que era vivo” Admirável Chip Novo - Pitty

Estupro coletivo, machismo e o processo de vitimização
O machismo é uma forma de opressão, justificada pelas pessoas que negam a igualdade entre homens e mulheres e assim transformam as diferenças em desigualdades, ditando um padrão a ser seguido pelas mulheres. Assim, as pessoas que se negam a seguir padrão passam a ser violentadas mais intensamente por sistema.

Segundo Ana Pagamunici, é através do machismo que

“se naturaliza o fato de que as mulheres são as “rainhas do lar”, têm por obrigação cuidar dos filhos, da casa e dos maridos sem nada receberem por isso. Essa ideologia é transmitida pela escola, pelas famílias, pelas igrejas, pelos meios de comunicação e por todas as instituições que reproduzem o sistema capitalista. De tanto ser reafirmada passa a ser natural, comum, imutável.” [1]

É, também, através do machismo que se naturalizam fatos como “a mulher gosta de apanhar”, “foi estuprada porque provocou” ou até mesmo “o jeito de uma mulher é quem vai determinar se o homem tem o direito de agredi-la a vida inteira ou não”, “apenas a castração química resolverá o problema do estuprador.”

Questões como essas, notamente, em alusão ao estupro, ganhou espaço na mídia e, nos últimos dias, deu-se início a uma discussão que há muito vem sendo ignorada. De um lado, as pessoas que julgam, culpabilizam ou ignoram a vítima. Do outro, pessoas que apresentam como solução contra a cultura do estupro a castração química do estuprador. Sobre essa proposta, não seria exagerado dizer que aqueles e aquelas que desejam a castração do estuprador, ainda que ignorantes dos motivos reais do estupro de cada dia, são apoiadores, conscientes ou não, da cultura do estupro. Contribuem com a veneração do objeto fálico masculino, através da qual apenas a ameaça das castração seria eficaz para impedir que um homem venha a apropriar-se, indevidamente, do corpo de uma mulher, punindo-o com a mesma punição apresentada “naturalmente” de forma fantasiosa, segundo a psicanálise freudiana, à mulher: a ausência do pênis.

Apresentar a castração do homem como solução para um problema extremo do machismo é o triste reflexo de uma sociedade que sofre por negar os reais problemas enraizados em sua cultura, deixando de vê-los sob um viés coletivo para absorvê-los de forma individualizada. Deveras, na ditadura da informação, culpar a pessoa do estuprador, culpar a mulher por usar uma roupa supostamente “provocativa”, culpar o movimento feminista por “ser desorganizado e não apresentar pautas concretas e fundamentais”, é mais fácil do que reconhecer a evidências que apontam para as falhas estruturais de nossa sociedade e lutar contra elas. E, justamente no momento em que estamos embriagados pela sutileza do machismo, naturalizado em pequenos atos que se apresentam como inofensivos para maioria das pessoas, que a dificuldade de combatê-lo aumenta mais ainda, trazendo consequências graves e repudiadas por todos e todas.

O estupro coletivo, sua divulgação em vídeo por parte dos estupradores, a desconfiança das pessoas das palavras da vítima, em razão de sua condição social, refletem o que o machismo tem de pior: a falta de empatia de um ser para com o outro.

Nesse ponto, é importante fazer uma relação do machismo encontra relação direta com o processo de vitimização, retirado da criminologia, em suas facetas primária, secundária e terciária [2], o que faz o que casos como esse, muitas vezes, não sejam denunciados, contribuindo cada vez mais para o processo de cifras negras ou cifras ocultas do crime, que seria um significativo número de infrações penais que não chegam a ser oficialmente conhecidas ou contabilizadas.

Em primeiro lugar, temos o processo de vitimização primária, por meio do qual a cultura do machismo influencia diretamente na conduta violadora dos direitos da vítima, causando os mais variados sentimentos, sobretudo de impotência diante de um sistema que contribui para o comportamento do agente violador de seus direitos.

Em segundo, vem a vitimização secundária ou sobrevitimização, aumentando ainda mais o sofrimento da vítima em consequência de seu contato com o sistema justiça, que, impregnado de machismo e predominantemente formado por homens, trata-se a vítima com culpada. Isso foi evidenciado no caso concreto, quando a jovem foi ouvida por três homens, além delegado, que trouxe a namorada consigo e, como se não bastasse, perguntou à garota se ela tinha hábito "de fazer sexo em grupo”.

Por fim, o machismo influencia diretamente o processo de vitimização terciária que é levado a cabo pelo ambiente social e, cada vez mais, pelas redes sociais, onde homens e (também) mulheres passam a divulgar o fato com uma conotação pejorativa, tecendo julgamentos de baixo calão a respeito do caso e da ofendida.

“Parafuso e fluido em lugar de articulação Até achava que aqui batia um coração” Admirável chip novo - Pitty

Ministério de Temer foi o primeiro sem mulheres desde Geisel
Não se pode negar que o movimento feminista trouxe várias conquistas ao longo do tempo e que a participação política das mulheres no Brasil vinha crescendo, significativamente, nos últimos anos. Desde 1979, “coincidentemente”, dois anos após a edição da Lei do Divórcio, quando finalmente as mulheres conquistaram o direito legal de pôr fim a um casamento mal sucedido, todos os presidentes nomearam mulheres para composição de seus ministérios. Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique indicaram 2 mulheres, cada um. No mandado de Lula, eram 11 mulheres. No de Dilma, tivemos uma representatividade ainda maior, com 15 ministras no executivo federal. [4]

O problema é que com o grande número de mulheres envolvidas no debate público, a repulsa, o desprezo e o ódio contra as mulheres passou a crescer na sociedade. O corte na participação feminina nos ministérios de Temer foi mais um reflexo disso. Esse sentimento egoísta de afastar as mulheres dos cargos que remetam ao poder é um exemplo do que se denomina misoginia. Ou seja, é mais um reflexo do sentimento repulsa, desprezo e ódio contra às mulheres.

Renan: “O meu pai me ensinou três coisas na vida: comer pouco, dormir muito e não brigar com mulher"

Manterrupting ou interrupção masculina é o comportamento de um homem que interrompe a fala de uma mulher. Algo muito comum em reuniões e palestras: a fraqueza do homem evidenciada na tentativa de obter vantagem diante de uma mulher sem a necessidade de contra argumentá-la.

Essa ofensiva machista que vem aparecendo em todos os setores da sociedade, inclusive nas discussões parlamentares. Recentemente, durante uma sessão no senado, quando as Senadoras Vanessa Grazziotin e Gleisi Hoffmann questionavam sobre possíveis nulidades advindas da forma como o processo de impeachment estava sendo conduzido, tiveram suas falas interrompidas pelo Senador Renan Calheiros, que não teve o menor constrangimento de falar em alto e bom tom: “Vou suspender a sessão por dois minutos, para que Vossas Excelências gritem em paz. Está suspensa a sessão por dois minutos” e, logo em seguida, retrucando de forma vergonhosa um questionamento apontado por uma das Senadoras, respondeu: “O meu pai me ensinou que o segredo da vida é comer pouco, dormir muito e não brigar com mulher”.

Porque discutir com uma mulher, se a fantasiosa “fragilidade feminina” reduziria seus argumentos à insignificância? É mais conveniente desqualificá-la ao invés de buscar argumentos para convencê-la. Tal mensagem ficou evidente naquele momento. Mas, a grande questão é que, por muito tempo, fatos como esses não eram visto a olhos nus. Apenas com a constância da luta feminista a sutileza dessas agressões passaram a ser percebidas.

Com a participação das mulheres na vida social, é comum que as indagações complexas por elas formuladas deixem de ser respondidas em nome do álibi patriarcal; o endurecimento de suas posturas diante de injustiças passem a ser apontados como descontrole emocional, através da insistente provocação masculina na tentativa de produzir uma reação na mulher que afaste sua necessidade de argumentação diante daquilo que supostamente não possa ser levado a sério.

Bela, recatada e do lar
Nesse contexto, vem a grande mídia e a necessidade de reforçar o modelo de mulher ideal: bela, recatada e do lar, cuja maior sorte da vida é casar com um cara que a convide para jantar em um “sofisticado, caro e badalado restaurante, blindado nas paredes, no teto e no chão”. Um modelo ideal de mulher educada para casar, cuidar do filho e fazer visitas semanais ao dermatologista.

Esse modelo de mulher, segundo a revista mais reacionária do Brasil, lamentavelmente, ultrapassou os limites do machismo mundial, sendo alvo de chacota por vários jornais de todo o mundo e provocando reação em peso das mulheres brasileiras nas redes sociais.

A revista chegou ao extremo do mau gosto na produção de uma reportagem - que mais parecia matéria de revistas de fofocas. Mas, é preciso reconhecer que foi apenas uma exposição escancarada e hiperbólica daquilo que fica subtendido nos valores cultuados em nossa sociedade, quando somos ensinadas desde a infância a sermos dóceis, meigas, recatadas e belas, seguindo os padrões ditados de forma tão intensa para nós mulheres, entre unhas, depilações, cabelos, maquiagens, lipoaspirações, lipoesculturas, sandálias e roupas que mudam a cada estação… “Ninguém nasce mulher. Torna-se mulher”. Eis o sentido real da clássica frase de Simone Beauvoir, reforçando o processo de construção feminina.

“Nada é orgânico, é tudo programado E eu achando que tinha me libertado” Admirável Chip novo - Pitty

Janaína Paschoal: “Louca descontrolada”, “um parafuso a menos” e histérica

Gaslighting é um termo que surgiu a partir do filme “Gaslight", no contexto em que um homem faz com que a mulher seja considerada louca e internada em um hospital para roubar sua herança. A palavra “gaslight” faz referência às lâmpadas de gás da casa, programadas pelo homem para ligarem e desligarem repetidamente. O uso de tais artimanhas, geralmente, acontece quando um homem tenta desestabilizar uma mulher, fazendo-a acreditar que é “louca”, “insana”, “burra”, “exagerada”,. “histérica” ou “dramática”.

Tais adjetivos sempre foram usados com formas de afastar as mulheres das discussões coletivas, colocando-as como seres emotivos demais, incapazes de tomar decisões importantes, de racionalizar. Isso fica evidenciado quando um ato de uma mulher, embora seja passível de críticas, como o foi no caso da advogada Janaína Paschoal, passa a ser qualificado dessa forma. [5]

Antes de tudo, não estou aqui para defender o ato de Janaína Paschoal durante uma das reuniões sobre o impeachment. Apenas para deixar bem claro que a performance exagerada da advogada nada tem a ver com gênero ao qual pertence. Ou seja, nada justifica a utilização de termos jocosos tipicamente utilizados para adjetivizar mulheres como forma de criticar sua postura. Acha que isso não é machismo? Então, veja como é difícil imaginar um homem referindo-se a outro como histérico, surtado, descontrolado e dramático…

A constatação que se faz a cada momento é que o machismo está presente em todas as ideologias, mesmo entre as pessoas que fizeram a opção pela esquerda, na luta pela igualdade. Isso ficou bem evidenciado nas reações e comentários sobre vídeo da advogada, cuja atitude foi teatral e reacionária, mas que não justifica as comparações que lhes foram feitas, nem a associação com o gênero.

O sexismo e o governo de Dilma Rousseff
Sexismo é, conforme Karin Ellen von Smigay, “um vasto conjunto de representações socialmente partilhadas, de opiniões e de tendência a práticas que desprezam, desqualificam, desautorizam e violentam as mulheres, tomadas como seres de menor prestígio social".

No governo da presidenta Dilma, vivenciamos todas as formas de sexismo possíveis de se imaginar. Chegou-se ao extremo com a confecção de adesivos com a imagem de Presidenta Dilma com as pernas abertas, a serem utilizados na bomba de gasolina, bem no lugar onde estaria situado o órgão sexual de Dilma. Segundo os seus defensores, seria uma espécie de “protesto” contra o preço da gasolina.

O fato é que nunca se imaginou um protesto contra atos praticados por homens realizados com essa conotação sexista, restando evidenciada a intensificação das represálias pelo simples fato de termos, no governo, uma presidenta mulher - que, por sinal, vem colecionando uma cartilha de formas machistas de protesto.

Em outra ocasião, a expressão “tchau, querida”, retirada de um áudio telefônico que vazou na mídia com uma conversa entre a presidenta Dilma e o ex-presidente Lula, ganhou reprodução nas redes sociais, por ter sido insistentemente repetida em tom de ironia durante a votação do processo de impeachment por parte de alguns deputados.

Não é demais rememorar fato já citado no texto de Victoriana Leonora, publicado aqui no Justificando, que o uso de expressões como “querida, gracinha e etc” utilizada por homens com tom totalmente pejorativo, vem sendo combatida por movimentos feministas de todo o mundo e, inclusive, foi tema de campanha da ONU, numa temática que visava a igualdade de gênero e o empoderamento feminino. [6]

Outro ataque sexista à figura da presidenta Dilma foi a matéria publicada pela revista “Isto é”, a qual se refere à presidenta com expressões como “explosões nervosas”, “surtos de descontrole”, em uma capa que por si só gera ofensividade, comparando-a à Rainha Maria, aquela carinhosamente apelidada de “a louca”. [7]

Sociedade patriarcal
Todos esses fatos seriam menos graves e talvez mais fáceis de combater se não tivessem sido praticados pelas próprias mulheres.

Confesso que fiquei estarrecida ao ver mulheres julgando a moça vítima do ato brutal de estupro coletivo; ao ver mulheres usando de termos jocosos em referência à advogada do impeachment Janaína Pascoal; ao tomar conhecimento de que autoria da confecção dos adesivos fora atribuída a uma mulher, e que a autora da matéria publicada na “Isto é” também era mulher.

O fato é que vivemos em uma sociedade patriarcal, baseada em um sistema que foi construído historicamente com base nos privilégios da classe masculina em detrimento da feminina. Situação refletida na ausência de mulheres nos livros de história, nos nomes da própria literatura, na participação da política. Uma sociedade que, apesar de apresentar contornos modernos, continua a escravizar a linguagem com suas formas masculinas; uma sociedade com uma religião patriarcal, que, na figura do homem, reproduziu um Deus à sua imagem e semelhança, um Deus homem.

Vivemos em uma sociedade que criou as mulheres para serem rivais, para competir entre si pela atenção e amor de um homem. Como ensinou Simone Beavouir, essa foi a estratégia machista que a sociedade criou no intuito de dividí-las, enfraquecendo a união, e, assim, mantendo-as submissas, enquanto o homem foi educado para buscar o outro como cúmplice de suas conquista. [8]

Assim, a repetição constante de verdadeiros mantras machistas tais como “mocinhas não fazem isso”, “isso é coisa de menino”, “é natural do homem trair”, “aquela mulher não merece o respeito” ou a mulher empoderada sendo chamada “mulher histérica e autoritária”, acaba incutindo tais ideias de forma tão forte em nosso subconsciente que muitas de nós reproduzimos diariamente, ainda que inconscientemente, atitudes machistas: encampando a questão da rivalidade; julgando uma mulher como “vadia” ou “sem futuro”, pelo simples fato dessa mulher dispor livremente de sua sexualidade, ou porque cumpre de forma inquestionável a opressão que nos é imposta.

“Pense, fale, compre, beba Leia, vote, não se esqueça Use, seja, ouça, diga Tenha, more, gaste, viva” Admirável chip novo - Pitty

Essa forma mais que tradicional do machismo, que se manifesta no fato de uma pessoa julgar ou excluir uma mulher por ter comportamentos socialmente reprovados pela sociedade machista, sobretudo em razão de sua liberdade sexual, se denomina de slutshaming.

Talvez, por essa razão, poderemos dizer que a mulher apenas reproduz o machismo e que, por isso, não pode ser considerada machista tal qual é um homem, sob pena de se criar uma falsa simetria entre a equivalência de um comportamento masculino e um comportamento feminino, já que a propagação de atitudes machistas por parte de uma mulher, ainda que lhe possa trazer benefícios imediatos, está contribuindo para uma cadeia de privilégios masculinos e de submissão feminina de um modo geral e, por conseguinte, opressão dela mesma. A título de exemplo, posso citar a autora da mencionada matéria da “Isto é”, Débora Bergamasco, que, em outra ocasião, teria sido vítima do machismo, quando publicou uma “reportagem” sobre a delação de Delcídio do Amaral, tendo, inclusive, relatado à impressa: “É a primeira vez que me vi diante de um machismo desta magnitude”. [9]

Assim, o machismo invisível nos coloca na posição de oprimidas e, ao mesmo tempo, de opressoras, sobretudo nos momentos de crise, quando mais dói o pouco que se retrocedeu do que o que muito que falta para ser alcançado.

Na verdade, o que se deve ter em mente é que o machismo não tem nome, nem ideologias, nem sujeitos individualizados. Eis que é um sistema opressor, embora relacionado diretamente a outros sistemas de opressão, assim como o é o racismo e outros que sustentam a desigualdade entre as pessoas. É esse sistema que deve ser combatido.

“Mas lá vem eles novamente, eu sei o que vão fazer Reinstalar o sistema” 
Admirável chip novo - Pitty

De mais a mais, é de se lembrar que assim como acontece em todo sistema opressor, poucas são as pessoas que, naturalmente privilegiadas por ele, usam da consciência para combatê-lo. Nesse ponto, é importante lembrar que na Revolução Francesa (1789) foi onde vivenciamos os maiores exemplo de mansplaining e bropriating. Por isso, antes de explicar o fato, vou conceituá-lo.

A maioria das mulheres nunca ouviu falar de mansplaining, ainda que tenham sido vítimas do que ela representa. Praticamente todos os homens, inclusive os mais conscientes, praticam atitudes como essas. Trata-se do fato de o homem, dotado de autoconfiança excessiva, explicar para a mulher certo assunto no qual ela, evidentemente, sabe mais do que ele, ou então, em uma situação despida de completa noção, um homem explicar para uma mulher que ela está errada a respeito de algo sobre o qual ela está certa. Já o bropriating ocorre quando um homem reproduz uma ideia de uma mulher como se fosse algo originalmente pensado por ele.

Retomando agora o fato: no auge da Revolução Francesa, quando várias mulheres participavam intensamente, junto aos homens, da luta pelo ideal francês de igualdade, os próprios jacobinos resolveram se apropriar de muitas das ideias de suas companheiras e descartá-las do processo de construção social e política, extinguindo, por decreto, 56 clubes políticos de mulheres entre os anos de 1789 e 1793. Os políticos jacobinos desprezaram a luta de suas parceiras ideológicas e encontraram na ideologia de Rousseau argumentos necessários para extirpar a participação política das mulheres silenciando os protestos das revolucionárias.

“Não, senhor, sim, senhor Não, senhor, sim, senhor” Admirável chip novo - Pitty

Assim, por muitos anos mulheres sonharam com o tempo em que os seus nomes estariam nos livros de história; sonharam com o tempo em que o número de mulheres na política seria igual ao número de homens; sonharam com a liberdade de ser o que quisessem, apenas isso; sonharam com um dia em que não precisariam de um instrumento legal para garantir-lhes respeito, que apenas elas (e mais ninguém) teria domínio sobre seu próprio corpo. Mulheres como Olga Benário, Margaret Thatcher, Joana D’arc, Simone de Beauvoir, Marie Curie, Frida Kahlo (e muitas outras que a história fez questão de apagar dos livros) sonharam e lutaram. Mas, não tiveram oportunidade de ver a colheita. Eis que os frutos que colhemos hoje são consequências de uma luta de ontem. A luta de hoje, provavelmente, só será colhida amanhã.

Nesse momento, vem a calhar a advertência de Simone de Beavouir: “Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados”. É que no meio de uma crise muitos poderes são subtraídos, restando a alguns homens apenas a superioridade frente as mulheres.

E a nós, mulheres, o que resta nessa crise é ajudar mutuamente umas às outras, sem julgamentos, pois só assim conseguiremos conquistar espaços e direitos que nos foram furtados. Algo nos dará empoderamento necessário para combater as opressões, rompendo com o estigma da rivalidade. Com essa consciência, nos tornaremos mais fortes para desconstruir os papéis de submissão que a sociedade nos impõe. Para aquelas que já são auto-vigilantes, cabe como inspiração um apelo formulado através de uma paráfrase de Ernesto Che Guevara: não esperem a colheita, estejam sempre a semear.

Essa união entre mulheres como uma ferramenta poderosa para o empoderamento denominamos de sonoridade; e empoderamento é o que precisamos para alcançar a equidade e desconstruir os papéis que a sociedade machista nos impõe.

Monaliza Maelly Fernandes Montinegro é Bacharel em Direito pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte; Analista do Seguro Social com formação em Direito; Aprovada no concurso da Defensoria Pública do Estado da Paraíba.

REFERÊNCIAS
1 ANA PAGU, DA SECRETARIA NACIONAL DE MULHERES DO PSTU – TEXTO PUBLICADO NO LIVRO “O QUE É…”, DE HENRIQUE CANARY, PELA EDITORA SUNDERMANN. O que é machismo? Disponível em http://sinte-sc.org.br/artigos/o-queemachismo/ Acesso em 16.06.2016.
2 DRUMOND, Mariana; OLIVEIRA, Álvaro Borges de. Análise da tutela da vítima no processo penal. Revista Eletrônica de Iniciação Científica. Itajaí, Centro de Ciências Sociais e Jurídicas da UNIVALI. V. 4, n.2, p. 1487- 1505, 2º Trimestre de 2013. Disponível em: www.univali.br/ricc - ISSN 2236-5044
3 BEIRA, Gabriela. Glossário de termos do feminismo. Disponível em http://www.geledes.org.br/glossario-de-termos-do-feminismo/#ixzz48RkTaazY.Acesso em 16.06.2016.
4 OLIVEIRA, de Andre. #AgoraNãoSãoElas? O ministério masculino de Michel Temer. Disponível em http://brasil.elpais.com/brasil/2016/05/12/política/1463073214_630598.html.Acesso em 16.06.2016.
5 NOGUEIRA, Kiko.“Essa cobra quer dominar nossas mentes!”: o “discurso” de Janaína Paschoal, autora do pedido de impeachment. Disponível em http://www.diariodocentrodomundo.com.br/essa-cobra-quer-dominar-nossas-mentes-pomba-gira-baixa-em-ja...
6 GONZAGA, Victoriana Leonora Corte. O que a expressão 'tchau, querida' pode nos dizer sobre a desigualdade de gênero? Disponível em http://justificando.com/2016/04/19/o-queaexpressao-tchau-querida-pode-nos-dizer-sobreadesigualdade-d.... Acesso em 16.06.2016.
7 PARDELLAS, Sérgio. BERGAMASCO, Débora. Uma presidente fora de si. Disponível em http://istoe.com.br/450027_UMA+PRESIDENTE+FORA+DE+SI/. Acesso em 16.06.2016.
8 CESAR, Maria Auxiliadora. Exílio da Vida: o cotidiano das mulheres presidiárias. Brasília, 1996. Editora Thesaurus.
9 GONÇALVES, Vanessa. Repórteres da" IstoÉ "divulgam repúdio às ofensas recebidas por Débora Bergamasco. Disponível em http://portalimprensa.com.br/noticias/ultimas_noticias/76397/reporteres+da+istoe+divulgam+repudio+as...
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