24 de jun de 2017

Internet: robôs usados pelo PSDB em 2014 agora servem à Lava Jato

Manifestações de direita foram convocadas pelas redes sociais da internet
Os sistemas automatizados que imitam perfis reais das redes sociais têm sido determinantes na política nacional desde 2013, com a ascensão de grupos de oposição à Dilma no Facebook. Segundo o estudo britânico, os bots continuam ativos na Lava Jato, influenciando a opinião das pessoas sobre as investigações.

Por Cézar Xavier, do Portal Grabois

A Universidade de Oxford publicou recentemente uma série de estudos sobre "propaganda política computacional", incluindo um documento (pdf) de cerca de 40 páginas sobre o Brasil. Segundo ele, os bots - sistemas automatizados que imitam o comportamento de usuários em redes sociais - são "determinantes" nos grandes eventos da política brasileira desde 2014.

O estudo divulgado no dia 19 de junho pela Universidade de Oxford, Reino Unido, detalha como a política brasileira foi influenciada por bots na internet. Caso não saiba, bots são programas ou dispositivos que agem de maneira autônoma na internet — por exemplo, existem bots de contas falsas nas redes sociais, um dos pontos-chave nessa pesquisa.

Chamado de "Propaganda computacional no Brasil: Bots sociais durante as eleições", o estudo do especialista em cibersegurança Dan Arnaudo, da Universidade de Washington, mostra alguns dados: o PSDB gastou cerca de R$ 10 milhões em bots em Facebook, Twitter e WhatsApp durante a corrida eleitoral de Aécio Neves no final de 2014. Após a derrota para Dilma Roussef, os bots do PSDB continuaram agindo, porém foram reprogramados para divulgar o conteúdo de páginas como "Revoltados ON LINE" e "Vem Pra Rua". No caso, o estudo diz que o Revoltados ON LINE contava com 16 milhões de bots do PSDB, enquanto o Vem Pra Rua tinha 4 milhões.

Na mesma época da corrida eleitoral, o PT também utilizou bots pró-Dilma Rousseff na internet. Contudo, "em uma escala muito menor". Enquanto os bots do PSDB alcançavam cerca de 80 milhões de pessoas, os bots do PT ficavam nos 22 milhões. O estudo ainda comenta que, após o fim das eleições, os bots comprados pelo PT foram encerrados em sua maioria — e algumas contas apenas replicavam programas do governo.

"Após a eleição, todos os servidores e bots da campanha de Dilma foram desligados ou foram trabalhar para a presidente, o que significa que eles tinham regras a seguir, já que estava operando para o gabinete. Enquanto isso, os outros bots [PSDB, Aécio, Revoltados e Vem Pra Rua] não tinham regras a seguir", disse um pesquisador brasileiro citado no estudo.

O resultado disso foi que, no início do mandato de Dilma em 2015, enquanto as mensagens do partido do governo atingiam cerca de 20 milhões de pessoas, as mensagens contrárias a ela chegavam a mais de 80 milhões. O estudo atribui essa diferença ao investimento dos partidos de oposição em bots e contas falsas dedicadas a replicar mensagens contrárias ao governo, operando sob leis muito mais lenientes do que aquelas que regiam as comunicações presidenciais.

A pesquisa ressalta os problemas que leis frágeis em torno do uso de ferramentas digitais em campanhas eleitorais podem gerar. Ela também mostra uma estratégia adotada pela campanha do PSDB, de usar bots do WhatsApp para inflamar outras pessoas a se manifestar pelo Facebook e pelo Twitter. Documentos da campanha do partido indicam, segundo o estudo, que a quantidade de dinheiro necessária para mobilizar grandes quantidades de usuários em diversas plataformas sociais é relativamente pequena.

Mas por que partidos contratam bots? Ora, os bots têm a capacidade de perpetuar uma ideia pela internet e angariar novos aliados aos partidos. Além disso, os números de apoio são inflados e, com isso, acabam captando até eleitores indecisos.

Isso tem o efeito de desvirtuar debates políticos entre usuários humanos e "inflar" números de apoio a determinadas ideias ou pessoas. Com isso, candidatos ou medidas que seriam consideradas inviáveis podem acabar, ilusoriamente, sendo levadas a sério. No estudo referente aos EUA, os pesquisadores ressaltam que "a ilusão de apoio por um candidato pode gerar apoio de fato por meio de um efeito de manada. Trump fez do Twitter o palco principal nessa eleição, e os eleitores prestaram atenção". 

Um pesquisador ouvido pelo Guardian ressalta também que os bots "multiplicam massivamente a habilidade de uma pessoa em manipular outras". "Imagine que seu amigo chato do Facebook que sempre entra em discussões políticas tivesse um exército de 5.000 bots. Seria muito pior, não?"

O papel de junho de 2013
Foi em junho de 2013 que “autoridades” de direita surgiram pela primeira vez como mobilizadoras na internet. “A partir do dia 17, que foi quando rolou aquela pancadaria, junho já estava em disputa. A análise da rede deles mostra que quem estava chamando era gente na raiz dessa direita”, explica Sérgio Amadeu, especialista em monitoramento e intervenção digital, em entrevista à Agência Pública. Entre as páginas que conseguiram atrair grande repercussão em seus posts, estudadas pela Interagentes, já aparecem nomes como A Verdade Nua e Crua, o Movimento Contra a Corrupção (MCC) e Quero o Fim da Corrupção – além do Anonymous Brasil, grupo que, diferentemente do movimento internacional, no Brasil propaga bandeiras de direita. “O discurso da direita manteve-se estável desde então”, diz Amadeu. “A direita gostou da rua”, complementa Tiago Pimentel, também da Interagentes. Páginas que propagam a luta contra a corrupção, como o MCC, cresceram exponencialmente durante os protestos. Aberta no começo de 2010, a fanpage do MCC no Facebook tinha angariado alguns milhares de fãs até o início de 2013. Hoje, ela tem mais de 1,4 milhão. Em maio, um post propondo “Joaquim Barbosa para presidente em 2108” obteve mais de 124 mil compartilhamentos.

Hoje, a página do MCC no Facebook é um dos perfis mais influentes da rede conservadora, assim como o site Folha Política, ao qual é ligada. O site, que se diz de “jornalismo independente”, é especialista em usar o sensacionalismo como arma para fabricar “fatos” que, de tanto serem repetidos, passa a ser vistos como verdade. “Ministro de Dilma confessa a jornalista da Veja que PT quer promover guerra civil no país”, diz um vídeo postado no site. “Lula comemora e debocha da demissão de centenas de trabalhadores, revoltando internautas” é o título de outro vídeo, proveniente do canal de YouTube Ficha Social – o mesmo que tornou famoso Kim Kataguiri, a “cara pública” do Movimento Brasil Livre.

Tanto o site do MMC (contracorrupcao.org) quanto o Folha Política foram abertos pelo bacharel em direito pela USP Ernani Fernandes Barbosa Neto, segundo revela uma pesquisa avançada de DNS. É impossível descobrir quem registrou os sites através de uma pesquisa simples de domínio (Whois), porque todos pagam para ter os dados do fundador mantido em privacidade. Porém, o email de Ernani Fernandes aparece como administrador do servidor principal de todos esses sites em pesquisas feitas com ferramentas como a “dig”, que pode ser consultada no site digwabinterface. (veja aqui e aqui).

Ernani também aparece como administrador de outros sites antigovernistas que foram criados entre o começo de 2013 e o final de 2014, como Política na Rede (criado em 6 de agosto de 2013, tem quase 400 mil fãs no Facebook), Folha do Povo (criado em 26 de dezembro de 2013, tem mais de 93 mil mil seguidores no Facebook), Humor 13 (Criado em 30 de janeiro de 2014, conta com mais de 364 mil curtidas na fanpage) e Correio do Poder (Criado em 7 de setembro de 2014, tem mais de 55 mil seguidores).

Ainda em 2013, ele começou uma parceria com João Almeida Vitor Lima, o “João Revolta”, segundo uma entrevista dada por este ao canal Youpix. Procurado por email pela reportagem, Ernani não respondeu à mensagem.

Formado em Rádio pela Faculdade de Belas Artes, João Revolta credita à parceria com Ernani Fernandes o crescimento do seu canal do Youtube, que hoje conta com mais de 38 mil inscritos, 3,5 milhões de seguidores no Facebook e uma produção para lá de intensa – e cara. Ernani dirigiu e fez o roteiro de uma série de vídeos do TV Revolta, enquanto dirigia também vídeos do canal Confronto Entrevistas no Youtube, uma espécie de “talk show” que tinha João Almeida como apresentador. Boa parte da produção conjunta, no entanto, não pode ser mais acessada, pois o canal original TV Revolta foi suspenso do Youtube em março de 2014 depois de diversas denúncias de usuários. Pouco depois, estava no ar o Canal TV Revolta. Durante as eleições, João aumentou significativamente as postagens no seu site tvrevolta.com.br: em vez de 2 ou 3 posts, como costuma fazer, ele conseguiu postar 20 novos posts a cada mês, sempre com base em vídeos – a grande maioria produzidos pelo canal Ficha Social. Seu último vídeo próprio, criticando a entrevista de Dilma a Jô Soares em 12 de junho deste ano, foi assistido por mais de 500 mil pessoas. 

Para alcançar tamanha popularidade, a página da TV Revolta no Facebook apela aos temas que viralizam. Um post com diversas fotos de cachorros em que estava escrito “vira-latas não são lindos, feio é o seu preconceito” chegou a ter 21 mil compartilhamentos e 77 mil curtidas. Além dos ataques pessoais centrados em Dilma e Lula, posts satíricos contra a Copa, críticas à TV Globo, imagens de autoajuda, citações filosóficas e campanhas pelo direito dos animais também estão entre as postagens que fizeram dela um fenômeno nas redes. “A filosofia de João Revolta é usar a linguagem informal para atrair o telespectador. Para representar a raiva, João Revolta usa uma mesa e diferentes artefatos, usados para quebrar objetos durante a gravação dos vídeos”, explicou João Almeida na entrevista ao Youpix. “O objetivo do canal TV Revolta e da página TV Revolta no Facebook sempre foi e sempre será dar voz ao povo ignorado pelas mídias tradicionais.”

Como muitas “sub-redes” ou clusters, as páginas ligadas a João Almeida e Ernani Fernandes ganharam proeminência ainda maior durante a eleição, tendo sido fundamentais nos movimentos pós-eleição. A Pública entrevistou jornalistas que trabalharam nas três campanhas e especialistas em marketing digital, além dos coordenadores das três principais campanhas à Presidência, para ouvir sua avaliação daquela que ficou conhecida como a campanha mais agressiva nas redes.

Mais casos e vendas
Uma das companhias que vendem esse serviço, chamada de "Brasil Liker", vende curtidas em páginas no Facebook: são 50 likes por R$ 4,99 e 3 mil likes por R$ 200. Já para posts, a conta é R$ 90 por 10 mil curtidas. Agora, imagine o preço de um serviço automatizado e que une as três principais redes utilizadas por brasileiros — R$ 10 milhões? Uma pessoa que trabalhou na campanha do PSDB disse operar mais de 250 contas diferentes para reproduzir mensagens favoráveis ao candidato e desfavoráveis à sua adversária.

As eleições municipais do Rio de Janeiro também contaram com bots. Segundo pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo, uma rede com 3,5 mil contas falsas no Twitter atacavam diretamente o candidato Marcelo Freixo (PSOL) postando 100 ou mais vezes por hora. O candidato contrário e atual prefeito, Marcelo Crivella (PRB), negou a conexão com os botnets.
Gráfico mostra repercussões no Twitter de debate televisivo
de candidatos à Prefeitura do Rio de Janeiro.

"A tática de propaganda computacional usada durante as eleições de 2014 não parou após a eleição da ex-presidente Rousseff. Esses métodos foram usados para engajar pessoas em grupos opositores tanto à presidente quanto ao partido da presidente, o que aumentou os pedidos por impeachment, sendo concretizado em outubro de 2016", diz o estudo.

Um estudo realizado pela USP em protestos contra e a favor do governo mostrou que os dois lados foram pesadamente influenciados por notícias falsas. Entre os apoiadores do impeachment, por exemplo, 64% disseram acreditar que o PT queria implementar um regime comunista. Os fatos, segundo o estudo, eram "demonstravelmente falsos", mas ajudaram a mobilizar os manifestantes. "Não há dúvida de que as redes sociais tiveram um papel crucial em criar essa narrativa e organizar os protestos. Os bots tiveram um papel na paisagem online desde o começo, e nunca pararam sua oposição eletrônica à sua administração, possivelmente um fator determinante na agilidade de sua suspensão", diz o estudo. 

Abaixo, resultado parcial de pesquisa feita durante manifestações de opositores ao governo Dilma na Avenida Paulista:

Conclusões
O levantamento conclui que a legislação brasileira é insuficiente para lidar com os casos de propaganda política computacional. "Embora a lei proíba qualquer propaganda eleitoral a três meses da eleição, isso é extremamente difícil de se controlar [na era digital]", diz o documento. 

Além disso, ele sugere também que o uso massivo de bots para fins políticos tem continuado ao longo das investigações da Operação Lava-Jato, da Polícia Federal. E ressalta que "propaganda política computacional terá um papel ainda maior nas eleições nacionais de 2018".

Outro dado interessante levantado pelo documento é o de que a agência de consultoria política responsável pelas campanhas bem-sucedidas a favor de Donald Trump e da saída do Reino Unido da União Europeia está investindo no Brasil, tendo aberto um escritório em São Paulo. 

Para finalizar, Dan Arnaudo, neste estudo da Universidade de Oxford, comentou o seguinte:

"Certamente, depois de anos de escândalos, a sociedade brasileira está examinando a reforma do seu sistema político. Em maio de 2017, com o alargamento do escândalo Lava Jato, a polícia lançou uma gravação do presidente Michel Temer organizando subornos para Cunha, ex-chefe do Senado preso, e com o chefe das maiores empresas de embalagem de carne no mundo (GREENWALD, 2017). As fitas levaram a um novo processo de impeachment (...) O Brasil, novamente, parece perto de um cataclismo político. O destino do governo não está claro, mas tudo isso demonstra que o desenvolvimento rápido da propaganda computacional desempenhará um papel crescente nas próximas eleições nacionais em 2018, o potencial impeachment e os processos políticos mais profundos que ainda não foram revelados."
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