1 de out. de 2012

Os lanceiros negros da farroupilha


Covardia e traição em Porongos



 Prof. Julio Sosa
A história deles não é contada nos livros didáticos e muito pouco falada nas escolas, sem esquecer, claro,  que a história oficial foi, e, é escrita pela burguesia. Mas, é preciso falar dos verdadeiros, e talvez únicos, heróis da Revolução (sic)  Farroupilha (1835-1845,  Rio Grande do Sul), e prestar uma justa homenagem aos valentes Lanceiros Negros, tropa formada por escravos, e que foi dizimada pelo exército imperial no Massacre de Porongos. Esse verdadeiro genocídio ocorrido, em novembro de 1844, não pode ficar esquecido.
            A chacina foi fruto de um nefasto e criminoso  “acordo de paz” entre um dos chefes farrapos (Canabarro) e o Barão de Caxias, (futuro Duque), que vitimou entre 600 a 700 negros farroupilhas.
A Revolução Farroupilha não foi uma guerra popular e sim um conflito da elite estanceira e escravocrata gaúcha. Fazendeiros gaúchos versus governo imperial. Mas, no seu decorrer acabou arrastando camadas do povo que deu um caráter popular à Revolta.
Também não tinha, inicialmente, um caráter emancipatório seus principais líderes não pensavam em formar uma República, embora fossem, alguns, republicanos. Após vencer uma surpreendente batalha, empolgado, Neto resolve Proclamar a República-grandense, esse episódio ficou conhecido como Batalha do Seival. Mesmo sem o conhecimento de Bento Gonçalves, líder do movimento.
Antes de iniciar a rebelião armada contra o império, os chefes farroupilhas prometeram aos patrões (estancieiros e charqueadores) que não usariam escravos como combatentes. Por certo para não tirar a mão-de-obra das fazendas, o que prejudicaria seus negócios e lucros.
Porém, logo que começaram as primeiras batalhas, os farrapos sentiram que possuíam um contingente tacanho para vencer os imperiais, o que os levou em 1837 a formar o 1° Corpo de Lanceiros Negros, comandados por um branco, Teixeira Nunes, o Gavião. O próprio Giuseppe Garibaldi, herói da unificação italiana e grande internacionalista que lutou ao lado dos farrapos, chegou a dizer que nunca viu um corpo militar lutar com tanta bravura como os destemidos guerreiros negros.
Os farroupilhas prometiam dar liberdade aos escravos que batalhassem a seu favor. Ao final de 1844, já há 9 anos em conflito, a província desgastada, a guerra parecia perdida.
Era preciso dar um fim ao movimento. Mas, o que fazer com os Lanceiros? Cumprir a promessa e dar-lhes a liberdade? Impossível! Isso revoltaria os escravos das demais províncias. Mantê-los como escravos? Certamente alimentaria uma revolta, esta sim de caráter popular, contra as classes dominantes.
Se os Lanceiros Negros fossem mantidos vivos seria um perigo, uma tocha rebelde acesa a por em xeque as elites, fossem elas o latifúndio gaúcho ou os capitalistas da monarquia.
Na noite de 14 de novembro, os Lanceiros foram covardemente atacados. Durante a tarde, Canabarro desarmou os lanceiros, deixou-os apenas com lanças e espadas. Mais tarde, à noite, as tropas de Morigue atacaram exatamente no lugar onde eles estavam acampados, em Porongos.
 Numa carta de Caxias, herói nacional,  destinada ao coronel Francisco Pedro de Abreu, foram dadas as ordens para o genocídio: "No conflito poupe o sangue brasileiro quanto puder, particularmente da gente branca da Província ou índios, pois bem sabe que essa pobre gente ainda pode ser útil no futuro".
Assim, por volta das 2 horas da manhã, as tropas imperiais de Abreu, conhecido como Moringue, entraram nos campos de Porongos, hoje município de Pinheiro Machado.
O Corpo de Lanceiros Negros, desarmado, desprotegido, foi dizimado. "Era a Surpresa de Porongos”, que há décadas vem sendo discutida pelo movimento negro.
Numerosos Lanceiros foram mortos. Mais de 300 farrapos (principalmente brancos), além de 35 oficiais foram presos. Vinte negros sobreviveram e foram mandados para o Rio de Janeiro, onde provavelmente voltaram a ser escravos.
As entidades, do Movimento Negro, informam que os Lanceiros assassinados foram de 600 a 700. Outras versões falam de 100.
O único entrave, a questão dos escravos,  para as tratativas de conciliação não mais existia. Ou seja, as duas facções da camada dominante mais tarde acabaram entrando em acordo e a massa, de negros e brancos pobres, que combateu bravamente, doando seu sangue com generosidade, foi traída e descartada.

Por Blog do Prof. Júlio Souza

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