9 de dez de 2015

Médica camponesa diz que "o povo não precisa mais pagar consultas"

Foto: Arquivo de Josiene Costa
Médica brasileira formada em Cuba diz que "o  povo já não deixa de comer para pagar consulta em clínica particular”

De Brasília
Joaquim Dantas
Para o Blog do Arretadinho

O Movimento dos Pequenos Agricultores, MPA, publicou no último dia 2, uma entrevista com a médica brasileira formada em Cuba, Josiene Costa, onde ela afirma, entre outras coisas, que a população no interior do país "já não deixa de comer para pagar consulta em clínica particular”.

Josiene afirma ainda na entrevista que "nunca tive a perspectiva de seguir essa profissão. Venho de uma família camponesa e sempre estudei em escolas públicas. Entrar em uma universidade não era um sonho fácil de ser realizado".

Confira a íntegra da entrevista:

Da Comunicação do MPA*

Ainda é bem cedo quando a Jovem Josiene Costa inicia sua caminha semanal pela casas da periferia da cidade de Araripina, no sertão pernambucano, seu jaleco branco não esconde sua função, sobre tudo depois dos gritos da meninada, “a doutora chegou”. Josiene é natural do estado do Piauí, de família camponesa organizada pelo MPA, agarrou com todas as forças a possibilidade de ir estudar medicina em Cuba em meados de 2008, agora formada, atua no programa Mais Médicos do Governo Federal, e nos conta um pouco sobre sua experiência na tarefa, além de todos os desafios em sua vida como jovem, nordestina, camponesa e agora médica popular.

Comunicação MPA: Nos conte um pouco porque escolheu a carreira de medicina, e como surgiu essa oportunidade de estudar em Cuba?
Confesso que nunca tive a perspectiva de seguir essa profissão, venho de uma família camponesa, e sempre estudei em escolas públicas, entrar em uma universidade não era um sonho fácil de ser realizado, imagine então conseguir um curso de medicina em uma universidade Brasileira onde só os filhos e filhas da burguesia teriam condições financeiras de fazer o curso e se formar.

Desde 1959, com o triunfo da Revolução, Cuba tem tido uma alta sensibilidade para a saúde pública. Eles já formaram ao longo dos anos mais de 49.000 médicos, dos quais 24.486 são pelo Projeto ELAM (Escola Latinoamericana de Medicina) que atende 84 nações, hoje médicos e médicas cubanos contribuem ativamente em 12 faculdades de medicina, principalmente em países africanos, onde se formam centenas de médicos todos os anos.

 O presidente cubano, Fidel Castro Ruz, concebeu a criação da Faculdade de Medicina da América Latina (ELAM) para formar jovens médicos, e a maioria desses estudantes vêm de famílias pobres, de baixa renda, em áreas remotas e de organizações sociais de todos os continentes.

 C.MPA: E em todo esse período que morou na ilha, oque mais te tocou?
Se eu fosse citar tudo o que existe de marcante e forte na ilha de Cuba eu teria que parar de exercer a medicina para me dedicar a escrever um livro (risos), mas uma das coisas que mais me tocou é o humanismo do povo Cubano, um povo que lutou por liberdade de seu país e que até hoje luta todos os dias para manter a revolução de pé. Hoje vivem em um país livre graças a Revolução Cubana.

Mas existem alguns detalhes que passam despercebidos pelos olhares de muitas pessoas que viajam para lá que muitas vezes vão com uma visão preconceituosa, elitista e não percebem coisas simples, como as crianças brincando pelas ruas de Havana e demais províncias, correndo pra cima e pra baixo, sem que seus pais se preocupem, não importa a idade pois nada irá acontecer com eles lá fora, nenhuma criança ira pedir o que comer nas esquinas pois estão todas nas escolas e quando chegar em casa terão comida na mesa garantida.

Me toca muito saber que lá não existem famílias querendo um pedaço de terra para plantar , pois a Reforma Agrária foi o primeiro ponto discutido pós Revolução, não existem jovens sem acesso a escola pois hoje em Cuba todos os jovens tem direito a universidade.

C.MPA: Cuba é reconhecida pela universalização e a qualidade de sua medicina, nos conte sobre essa experiencia, o que te chamou atenção?
Primeiro temos que entender a diferença da medicina preventiva exercida em Cuba e a curativa exercida no Brasil, sendo que a preventiva é bem mais barata e eficaz do que a curativa que vem de uma visão mercantilista implantada pelo capitalismo e sustentada até hoje pela classe Médica Brasileira.

O sistema de saúde cubano é admirado por grande parte do mundo por garantir atendimento médico gratuito a toda população, baseado em uma essência humanista, sem essa visão mercantilista que vemos aqui e em outras partes do mundo. Mais de 99,1% da população está coberta com um médico e enfermeira da família, índice que coloca a saúde do país entre os de países do primeiro mundo. 

Cuba conta com 381 áreas de saúde com cobertura completa do programa médico da família, superando a cifra de 28 mil médicos distribuídos em todo o país.

O atendimento primário de saúde cubana se destaca na saúde pública internacional, especialmente com a implantação e desenvolvimento do modelo de atendimento de medicina da familiar a partir de 1984. Cuba desenvolveu um grupo de programas de atendimento de primeiro nível para garantir a saúde da população.

Entre eles, vale destacar os programas para prevenção, diagnóstico e tratamento do câncer, insuficiência renal, cardiologia, diagnóstico precoce das afecções congênitas, pré-natais, exames de sangue e hemoderivados, doenças da pele e outros. A área de vacinas é considerada uma das mais avançadas do mundo.

C.MPA: E sobre o programa “Mais Médicos” no qual atua, como está sendo a experiência? E também como você avalia os ataques da direita ao programa?
A experiência é única, a cada dia que passa vejo que um dos principais problemas de Saúde da população Brasileira é a falta de atenção, poder contar seu problema sem que seja interrompido por alguém que se quer olhou na sua cara. Todos os dias na minha consulta escuto " Dra. Você é diferente, tem paciência de escutar, nos toca, entende nossa linguagem" e vários outros comentários. Hoje eles se espantam quando uma vez na semana percorro toda minha área a pé entrando nas casas das pessoas que não tem como ir até a Unidade de Saúde, já chegaram a me perguntar se eu iria ser candidata a prefeita (risos).Os moradores da cidade que atuo afirmam que nunca tinham visto médicos tão atenciosos.

É por essas e outras que a burguesia brasileira tenta todos os dias das formas mais baixas possíveis acabar com o Programa Mais Médicos, porque o povo já não deixa de comer para pagar uma consulta em uma clínica particular, é por que diminuiu o número de mortalidade materna e infantil, é por que também os médicos do Mais Médicos formados em Cuba são acima de tudo educadores pois foi isso que Cuba nos ensinou que um povo desinformado, é um povo doente. E todos os dias além de receitas e exames físicos também os informo e isentivo a lutarem por seus direitos.

C.MPA: pode nos contar um pouco do trabalho que vem desenvolvendo, o que percebe nas pessoas que atende? E a sociedade em si como trata o programa?
O povo todos os dias agradece e reconhece que o programa realmente dá resultado, apesar que na cidade que estou sou a primeira médica do programa. Mais a fama dos médicos que atuam nas cidades vizinhas chegam até aqui.

Hoje atendo uma população de quase 4 mil pessoas em uma das comunidades mais carentes do município de Araripina, onde começo meus atendimentos logo pela manhã, em média atendo cerca de trinta pacientes em conjunto com a minha equipe de Saúde realizamos atividades educativas, voltadas nos princípios da promoção de saúde e prevenção de doenças, principio este que Cuba provou e prova todos os dias sua eficácia.

A população em geral reconhece que o programa Mais Médicos efetivamente está garantindo mais acesso, qualidade e mais humanização no atendimento. Em Araripina eu sou a única Médica do Programa então ainda é novidade para a população, um dia uma senhora me agradeceu pela consulta e falou, ``pensei que esses medico do Mais Médicos só tinha na televisão`` e eu perguntei por que, ela respondeu, `` Por que foi a melhor consulta que tive em meus 67 anos de vida``, ouvir isso é muito gratificante e só prova a que o programa tem profissionais de qualidade.

C.MPA: e suas origens camponesas, como elas te influenciam como profissional da saúde?
Te falo sinceramente que não sei se iria conseguir fazer esse trabalho com minha população se eu não tivesse essa origem camponesa, sobre tudo humilde, de saber realmente o que cada um e cada uma que entra na minha consulta de fato sente e precisa. Fica bem mais fácil trabalhar quando você tem conhecimento e vivência dos problemas da população. O MPA faz parte do meu processo de formação político e acadêmico também, pois foi através do Movimento que aprendi a importância de falar para meus pacientes sobre o uso da medicina natural e tradicional, o por que de não usar agrotóxicos, de não comerem alimentos transgênicos e o que tudo isso causa. Hoje uso todos esse conhecimentos diariamente graças a minha origem camponesa.

C.MPA: por fim quais são os maiores desafios que enfrentamos em nosso país relacionado a saúde? Como os saberes camponeses podem contribuir em na superação desse desafios?
Hoje o maior desafio da Saúde no Brasil é tornar o Sistema Único de Saúde um sistema ao qual o povo seja protagonista na sua construção, só assim podemos ter uma Saúde popular voltada as comunidades cada uma com suas particularidades, hoje o estado Brasileiro praticamente financia a privatização da nossa saúde, se o povo não começar a lutar por uma saúde popular de qualidade, que atenda a todos os povos e suas realidades Quilombolas, Ribeirinhos, Camponesas, Indígenas, Urbanas. Não podemos permitir que a Saúde no Brasil seja privatizada e fica nas mãos dos ricos.

Hoje temos que resgatar saberes e práticas dos camponeses para ter uma saúde de qualidade com seus recursos, através de uma medicina natural com suas ervas, benzedeiras, parteiras. uma saúde construída por eles e para eles tudo isso junto com o Sistema Único de Saúde. Nosso povo tem muito a contribuir nessa construção.

Por Comunicação MPA
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