10 de ago. de 2013

Dia dos pais: a dor de uma saudade

Dia dos pais: a dor de uma saudade

por *Osvaldo Bertolino
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Trouxe meu avô para São Paulo para comemorar os seus 74 anos quase rurais comigo, seu neto que se transformou num hiperurbano. Ele teve a oportunidade de entrar num avião pela primeira vez na vida. Sempre quis proporcionar a ele essa experiência. Ver as nuvens de cima. Ver São Paulo, essa coisa monstruosa, de cima. Cruzar 700 quilômetros em uma hora. Conhecer os trejeitos das aeromoças, o gosto da comida de avião, o friozinho na barriga na hora de subir e de aterrissar.
Meu avô iria embora um dia sem rever o mar — escolha dele, que desde que veio de Portugal ficou quase o tempo todo em Marialva, uma simpática cidade do Noroeste do Paraná, a capital da uva fina — hoje, uma das cidades da Região Metropolitana de Maringá. Ele se recusa a ir a Maringá porque acha a cidade incivilizada, muita agitada. “Quem quiser me ver, que venha aqui”, diz, com voz que convence pela doçura.
Ele pertence a uma geração que tem uma noção de distâncias muito menor e de velocidades muito mais lentas do que as da geração a que pertenço. (Que, aliás, também já ficou para trás). Seus interesses são na maioria das vezes menos amplos e variados. 
Quase não se come peixe em Marialva porque o litoral fica a 400 quilômetros. Quase ninguém dos antigos que moram lá conhece o mar porque o que tem por perto são muitos rios. Come-se o que dá na horta, atrás da casa. Esse é o mundo dele. Um mundo que pariu este em que vivo. E pelo qual eu nutro um interesse curioso, um carinho nostálgico. 

Mas trouxe meu avô para São Paulo para mostrar a ele um pouco do meu mundo. Para testar um pouco os seus limites, as suas noções. Por vezes pensei que havia algo de perverso no meu convite. E que ele cedeu para ver o sorriso do neto. Assisti encantado a ele se mover na metrópole que só conhecia pela tela sensacionalista da televisão. São Paulo alaga, não é uma cidade bonita e é violenta. Mas alaga menos e é muito menos violenta do que se vê na tevê do Datena e do Ratinho.
Moro no 20º andar. Meu avô nunca tinha dormido a quase 80 metros de altura. Nunca tinha provado comida árabe, comida japonesa, comida mineira. Nunca tinha trafegado por uma avenida de seis faixas — engarrafada! Nunca tinha andado de escada rolante. Eu ia, faceiro, reaprendendo a olhar São Paulo pelo brilho dos olhos dele.
Não era a primeira vez que a lente com que meu avô vê o mundo me ensinava lições. Mas dessa vez, sei lá, curti a sua aula de sensibilidade como em nenhuma outra. Fomos à Vila Belmiro, assistir a Santos e Vasco da Gama. Olhei em volta e comentei que cabiam 30 mil pessoas naquele estádio — metade da população de Marialva. Ele fez que sim com a cabeça, em silêncio, quase dormindo. (Ele não é louco pelo Santos como eu.) 

Em determinado momento, a torcida do Santos começou a vaiar intensamente o time cruzmaltino — que jogava melhor. E inevitavelmente uma nuvem de palavrões pairou no ar à nossa frente. Meu avô olhou para mim e disse, com maciez: “Quanto maior a cidade, maior a educação”. 
A tirada do meu avô é um recado dos velhos para os jovens. Um recado que o Brasil nascido no campo e criado numa família patriarcal entrega ao Brasil nascido na metrópole. Vale ouvir esse recado. Não perderemos nada em analisá-lo com cuidado. Sobretudo, eu ri muito da frase do meu avô. Dei um beijo estalado em sua bochecha e ri muito. Depois fiquei abraçado a ele um longo tempo. 
Talvez ele até tenha cochilado no meu ombro, enquanto eu assistia em silêncio ao Santos melhorar substancialmente em campo e ganhar o jogo. Antecipando um pouco a imensa, a funda saudade que um dia sentiria do seu Antônio Sampaio. A dor me despertou e fez lembrar intensamente do meu avô — o pai inesquecível que tive até 1974, quando eu tinha 12 anos de idade.

*Editor do portal Grabois.org.br 
na empresa Fundação Maurício Grabois

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