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14 de out. de 2020

Movimento Cultural do Gama agora tem representatividade

Jairo Mendonça/Foto Joaquim Dantas - Blog do Arretadinho


 Foi encerrado o processo eleitoral para o Conselho Regional de Cultura do Gama, que elegeu representantes legítimos e ativos na cena cena cultural da cidade.

Do Gama

Joaquim Dantas

Para o Blog do Arretadinho

Os novos gestores atuarão pelo período de 2021 a 2024, e temos certeza que as ações por eles propostas irão valorizar todas as formas de expressões artísticas desta celeiro cultural que é a cidade do Gama.

Paulim Diolinda/Foto Joaquim Dantas - Blog do Arretadinho


Funções dos conselheiros
O principal objetivo do CRC é fortalecer e aprofundar o Sistema de Arte e Cultura (SAC), trazendo a voz da sociedade civil para a construção coletiva das políticas públicas culturais no DF. O colegiado é composto por nove membros, dos quais oito são representantes da sociedade civil com atuação na área cultural e um, de atuação comprovada como líder comunitário de cultura.

Composto pela comunidade local, o conselho propõe e acompanha políticas públicas de cultura do Distrito Federal, podendo ajudar a avaliar ações e metas consolidadas, bem como processos. Também cabe aos conselheiros regionais fiscalizar as iniciativas discutir o orçamento destinado ao setor.

O importante é que a comunidade cultural está muito mobilizada”, avalia a conselheira de cultura Elizabeth Fernandes, que considera um desafio a eleição no formato on-line. “Agentes culturais dos diversos segmentos da cultura e economia criativa estão fazendo campanha e ajudando uns aos outros durante este processo virtual. Mesmo pela internet, o processo está sendo muito seguro, por meio de uma plataforma on-line confiável.”

Entre os novos conselheiro eleitos no Gama, destacamos o músico Jairo Mendonça e o poeta Paulim Diolinda.


com informações da Agência Brasília



24 de jul. de 2020

Pirulito esboçando um sorriso que não explicitava sua solidão

Palhaço Pirulito Foto Joaquim Dantas
Palhaço Pirulito
Foto Joaquim Dantas
por Jairo Mendonça

José dos Santos Cavalcanti, popularmente conhecido como Palhaço Pirulito, simbolo popular e afetivo da cidade do Gama, nos deixou na madrugada dessa sexta-feira, 24 de junho de 2020.

O Palhaço Pirulito era o símbolo ambulante do time de futebol, SEG (Sociedade Esportiva do Gama), 

time da cidade. Era da cidade, dos parques de diversões, das festas comemorativas, era de todos... mas não era de ninguém... não tinha familiares por aqui.

Perambulava pela cidade com seus balões coloridos, sua maquiagem borrada e suas roupas surradas em busca da sobrevivência diária. A velha camisa do time do coração, da cidade que o transformou em símbolo! Símbolo de não se sabe exatamente o que...

O que sabe-se é que viveu esboçando um sorriso que não explicitava sua solidão...

O Gama fica menos Gama sem sua presença e simbologia identitária e afetiva.

O Palhaço Pirulito desapareceu numa límpida nuvem de outono-inverno, levado por um monte de balões coloridos e se transforma para sempre em infância! 

Perdemos um amigo que era um patrimônio sentimental de nossa cidade.

Perdemos um amigo que era um patrimônio sentimental de nossa cidade.

Era carinhosamente conhecido como o nosso palhaço, o palhaço do Gama, o palhaço que passava caminhando pelas feiras e eventos com sei lá quantos balões, fazendo nossos filhos nos azucrinarem o juízo por um balão.

E ele não entregava só balão, normalmente o sorriso e alguma brincadeira vinham de brinde, o serviço era completo.

Certa vez estava sentado num boteco da feira com Vinny, e lá vem pirulito com uma tonelada de balões.

- Papai quer balão?

- Porra Pirulito! Tu é um filho da puta né?

- Isso é uma palhaçada!

- Também acho! Me dá a merda de um balão desse por favor! Se acostuma não Vinny!
Foto Joaquim Dantas

Trocamos sorrisos. Era o terceiro fim de semana seguido que eu comprava balões dele.
-Valeu Pirulito! Bom trabalho!

E lá se foi ele com seus balões, sua alegria, sua luta por mais um dia de sobrevivência.

Vai em paz querido! Não o esqueceremos!

Juan Ricthelly

23 de jul. de 2020

E agora José?


Morre Sergio Ricardo, expoente da bossa nova e do cinema novo

RIO - Morreu na manhã de quinta-feira, aos 88 anos, no Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro, o músico, compositor escritor, pintor e cineasta João Lutfi, que passou à história com o nome artístico de Sergio Ricardo.

Um dos integrantes de primeira hora da bossa nova, autor de canções como "Zelão" e diretor de expressão do cinema novo (com o longa "Esse mundo é meu", de 1963), Sergio ganhou fama, a contragosto, em 1967 por ter quebrado um violão no II Festival da Música Brasileira, quando foi vaiado ao apresentar a canção "Beto bom de bola". Não foi divulgada causa de morte do artista.

Em nota, a família escreveu:

"Amigos queridos,

hoje pela manhã partiu nosso mestre Sérgio Ricardo, nosso amado João Lutfi, aos 88 anos de muita luta e amor, muita resistência, alegria, artes e infinitas expressões. Até os mais inspiradores guerreiros precisam descansar.

Sérgio será sempre mais que Sérgio, mais que João. Estará pra sempre em toda diversidade que nos cria. Nosso compositor de múltiplos, que faz o braço ser mais que braço, a voz ser mais que voz, e o um ser “um mais um”.

Infelizmente, por conta da pandemia em que nos encontramos, as cerimônias provavelmente restritas à família. Mas estaremos todos juntos como sempre, celebrando sua memória e sua vida.

Siga sua busca, mestre!

A gente vai seguir também.

Viva Adriana, viva Marina, viva João, viva o amor de toda a família.

E, pra sempre, VIVA SÉRGIO!"

fonte O Globo

Essa música tem um meta refrão microtonal e policemiótico

Essa música tem um meta refrão microtonal e policemiótico. Maravilhosa!✌️😎✌️

21 de jul. de 2020

Viva Lirinha! Viva o Cordel do Fogo Encantado!


16 de jul. de 2020

A Máquina do Mundo

A Máquina do Mundo

Carlos Drummond de Andrade

"E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas".
                          =======
Este poema foi escolhido como o melhor poema brasileiro de todos os tempos por um grupo significativo de escritores e críticos, a pedido do caderno “MAIS” (edição de 02-01-2000), publicado aos domingos pelo jornal “Folha de São Paulo”. Publicado originalmente no livro “Claro Enigma”. A informação acima foi extraída do livro “Nova Reunião”, José Olympio Editora

7 de jul. de 2020

Lutar (Cláudia Martins)

Claudia Martins  Foto Joaquim Dantas Fotografia®
Claudia Martins
Foto Joaquim Dantas Fotografia®
Lutar (Cláudia Martins)

Que o ar nos falte,
Mas não nos falte poesia!
Que o pão seja regrado, suado,
Mas nunca escasso.

Que haja resistência, luta,
Mas também resiliência...
Que a lida seja dura, longa,
Mas nunca desmerecida.
Que os sonhos sejam muitos, impossíveis,
Mas nunca extintos.

Porque a nós, podem bater, frear, e até nos matar,
Mas ao nossos ideais, jamais.

Tirem-nos temporariamente a fala, o espaço, a rede, o cais...
Mas o direito de lutar
- ah, isso não podem nos tirar, jamais!

Julho/2020

5 de jul. de 2020

Jairo Mendonça e Zémiguel Rodrigues

Da esquerda para a direita: Jairo Mendonça, Zémiguel Rodrigues e Paulim Diolinda Foto Joaquim Dantas Fotografia®
Da esquerda para a direita: Jairo Mendonça, Zémiguel Rodrigues e Paulim Diolinda
Foto Joaquim Dantas Fotografia®
Olhos de Primavera - Zemiguel Rodrigues e Paulim Diolinda - Ensaio live-show Onde Nascem as Canções,

2 de jul. de 2020

Vereadora e dona de "cabaré" está no 5º mandato na PB

Lilia Saldanha, dona de cabaré Imagem: Arquivo pessoal
A população de um m município no estado da Paraíba elege, pela 5ª vez, uma vereadora que é lésbica e dona de um "cabaré" em outro estado.

Do Gama
Joaquim Dantas
Para o Blog do Arretadinho

São José do Brejo do Cruz é um município o do estado da Paraíba, que fica próximo ao município de Catolé do Rocha, que tornou-se conhecido nacionalmente pela música do cantor e compositor Chico César, Beradêro.

São José do Brejo da Cruz, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em 2019 tinha uma população de, aproximadamente,  1.801 habitantes, entretanto, as informações confrontadas pelo Blog do Arretadinho com o TRE/RN, dão conta que a quantidade de eleitores do município aproxima-se do número de habitantes.

Lilia Saldanha é campeã em quebrar tabus. Ao mesmo tempo em que é vereadora e dona de bordel, ela assumiu publicamente a homossexualidade após os 40. Em uma cidade conservadora e viés coronelista, ainda conseguiu se eleger presidente da Câmara de Vereadores da cidade.

A vereadora resolveu abrir um bar na cidade de Caicó, no Rio Grande do Norte, (que fica a 70 quilômetros de São José do Brejo da Cruz) com o objetivo de juntar dinheiro para pagar dívidas de campanhas anteriores, mas o negócio deu tão certo que hoje é o local mais famoso e frequentado da região.

Questionada pela imprensa local de como ela encara presidir a Câmara de Vereadores da cidade, respondeu que "é muito mais fácil dirigir um cabaré, na Câmara tem muitos problemas, enquanto o Sol e Lua, nome de seu estabelecimento, não tem a burocracia do Legislativo", afirmou.

Questionada também sobre a sua relação com os outros vereadores, principalmente pela questão de sua sexualidade e das atividades do Sol e Lua, Lilia terminou a entrevista de forma bem objetiva: "Todos gostam de mim. O pessoal sabe que comigo é prego batido e ponta virada".

Evoé!

1 de jul. de 2020

Wilson Aragão e Zé Geraldo - Cuide bem da sua Estrada


Wilson Aragão Foto Joaquim Dantas Fotografia®
Wilson Aragão
Foto Joaquim Dantas Fotografia®

Biografia de Wilson Aragão

Wilson Oliveira Aragão (25 de abril de 1950) é um cantor e compositor brasileiro. Com quase 40 anos de carreira, cinco discos lançados e músicas gravadas por grandes artistas nacionais e internacionais, é autor de pérolas do cancioneiro nacional como “Capim-Guiné”, “Mosaicos”, “Guerra de Facão” e “Sertões e Sertões”. A sua história é celebração às raízes do nordeste e, também, lembrete para a importância da música nordestina no cenário nacional.

Nascido na cidade de Piritiba/BA, no piemonte da Chapada Diamantina, começou cantando na adolescência em corais de igreja e de colégio. Já neste tempo, se achava diferente por gostar de músicas, estilos e ambientes proibidos por sua família, que era evangélica, e por já sentir a veia artística se manifestando por meio de poesias, pinturas e músicas. Com a separação dos pais foi para São Paulo, trabalhar e fazer faculdade, mas continuou compondo e escondendo as músicas. A arte ficou escondida nos seus cadernos até criar coragem de mostrar aos amigos mais próximos, que o encorajaram a mostrar as composições aos artistas da época. Com a gravação de Raul Seixas, Capim Guiné foi sucesso em todo Brasil. A partir daí Aragão ganhou o mundo fazendo shows e divulgando seus trabalhos em rádios e televisões.

A sua música fala, principalmente, do homem do campo, suas lutas e anseios, seus amores e dissabores. Seus ritmos passeiam por baladas, xotes, martelos, galopes e canções. Tem como Pátria o sertão baiano, inspiração do seu cancioneiro, sempre voltado para a dignidade, humildade e sapiência do sertanejo. Aragão já faz parte do grande São João e cantorias pelo sertão brasileiro, tornando-se parte da vida poética do Nordeste. Em seu vasto trabalho, já teve parcerias com grandes nomes da música brasileira, como o inesquecível Raul Seixas com a canção “Capim Guiné”, título do seu primeiro disco.

Este poeta-cantador faz as suas andanças, sempre irreverente, levando consigo vários “causos” que, sempre bem contados, despertam no povo o sentido alegre da vida após um dia de batalha e é respeitado por todos os cantadores pela grande luta por uma música de qualidade. Wilson Aragão é casado com Mirian e possui três filhos: Pedro, Wilson Filho e Rui.


Wilson Aragão Foto Joaquim Dantas Fotografia®


Wilson Aragão, cantador e poeta do Piemonte


Nome: Wilson Oliveira Aragão. Sina: de cigarra, cantar até morrer. A estrada de um cantador tem origem no barro que primeiro o concebeu. E neste caso, é a cidade de Piritiba, que naquele longíncuo 1950, quando ainda pertencia a Mundo Novo, é a origem de tudo para aquele menino magrinho que, desde pequeno já acompanhava o pai nos plantios de mangalô, aipim e feijão. Filho de Alda Oliveira Aragão e Deolino Ferreira de Aragão, o menino era um apaixonado pela paisagem. De vez em quando, o garoto largava se apoiava na enxada e olhava para a paisagem em volta, o mar de pequenas serras espalhadas naquela amplidão ora desolada, ora verdinha quando as raras chuvas caíam naquela área vizinha à Chapada Diamantina. Poderia ter enveredado pela pintura mas preferiu colorir sua existência, e a de seus ouvintes, com as sete notas da aquarela musical.

A lua, quando nascia cheia, parecendo uma imensa bolacha, iluminava a mente do menino. Os dizeres dos matutos, em seu rude filosofar, também. Dona Alda, briosa com a formação literária do menino, lia Castro Alves, Cecília Meirelles e Catullo da Paixão Cearense. Nos dias dos sambas rurais, ia com o pai para os povoados de areia Branca e do Cobé, ver as chulas, repentes e batuques de Bel, Silvano, Zé Beté, Gildásio. Em casa, um rádio de quatro faixas colocavam Wilson em sintonia com a música brasileira nacionalizada em ondas de AM: Nelson Gonçalves, Jackson do Pandeiro, Anísio Silva, Zé Gonzaga e Luiz Gonzaga. Ainda na infância, Wilson muda-se com a  família para Mirasserra, distrito de Morro do Chapéu.

Começou a freqüentar na adolescência a Igreja Presbiteriana. “Tínhamos bons maestros e cantando em coral e me iniciei na música”, relembra Wilson que logo descobriu o violão. Em 1965 a Jovem Guarda de Roberto Carlos invade litoral e sertões espalhando eletricidade, romances e carros nas suas músicas. O incauto matuto, no calor dos 15 anos, ganhou novos ídolos, vestiu calça apertada, deixou a cabeleira rebelde e, de repente, seu Deolino viu o filho, em pleno sol da caatinga andar naqueles trajes, como se Liverpool fosse Morro Chapéu e a Rua Augusta o Chapadão. “Foi nessa época da Jovem Guarda que a gente montou um grupo de bailes chamado Os Horríveis e aí me iniciei na música”, relembra com saudade Wilson Aragão em seu apartamento no Engenho Velho de Brotas. Sua casa, aliás, é uma galeria de artesanato sertanejo, presentes de amigos e de admiradores.

De volta ao regional, Wilson se junta a Trovão, Babá e Tom Andrade para formarem o grupo Chapada Diamantina, de duração curta mas que vem a Salvador e se apresenta em programas nas TVs Itapoan e Aratu , sem repercussão. Quando os pais se separam, no início dos anos 70, ele vai trabalhar e estudar em São Paulo, onde faz faculdade e se aperfeiçoa em recursos humanos, tornando se especialista em planos de cargos e salários. Com o violão pontilhando somente as horas vagas, trabalhava na Eletropaulo e Listas Telefônicas Brasileiras. Um belo dia o cantador vê num jornal paulista um grande anúncio convocando trabalhadores especializados em diversas áreas para o Pólo Petroquímico e o Cia. Voltou para Bahia e ficou no Pólo por 15 anos. “Empresas me disputavam” pontua sem falsa modéstia, devido a sua especialização em planos de cargos e salário,s mas o coração do cantador se apertou com as injustiças que presenciou. “Naquela época vi muita coisa no pólo que não concordei, corrupção na minha mesa, diretores tirando salários de operários para dar a quem não merecia”.

Casado com Miriam há mais de 20 anos, Wilson conta que, junto com a companheira, botou a viola nas costas e saiu pelo Brasil afora deixando os chaminés pra trás. Contador de causos e memorialistas das coisas do sertão, logo se enturmou e participou de eventos alternativos na cultura sertaneja na capital e no interior como feiras, bares e restaurantes em vários estados do Nordeste, Sudeste e Centro Oeste. Assim, “em sua carreira de errante cantador”, foi se aproximando mais de outros cantadores e violeiros como Elomar, Vital Farias, Décio Marques, Diana Pequeno Helvécio Santana, Fábio Paes, Paulinho Jequié e Dinho Oliveira, dentre outros, brotando muitas parcerias. O ano de 79 foi um ano marcante em sua vida. Segundo relata, uma ‘tramamóia’ acontecida nos tempos da ditadura, entre um banco, um grileiro e outras instituições tiraram o pedaço de terra de seu pai. O filho tomou as dores do pai e o lamento saiu com o nome de Capim Guiné: como se a raposa, a sussuarana e o pardal e os outros bichos fossem os atores da farsa.

“Eu ficava aqui nesta salinha no Engenho Velho de Brotas e meus amigos no Engenho Velho me dizia Aragão sua música é boa porque você mostra a Elba Ramalho, pra fulano pra cicrano. Depois de pronta botei tudo numa fita e fui mostrar pra Elba Ramalho, ela estava em evidência e me disse, bicho, tua música é toda linda mas dá um tempo porque os produtores pediram pra eu tirar uma música pra botar outra música não sei de quem, essas coisas assim”…

TOCA RAUL – Naufragado o plano de ser gravado por Elba Ramalho, Wilson viu uma nova no horizonte, o roqueiro Raul Seixas. Como ele apareceu na história? Wilson relembra: “aparece um rapaz de Piritiba chamado Beto Sodré, ele pegou minha fita e disse: me dá que quem vai gravar isso aqui vai ser Raul Seixas, e levou a fira pra Raul Seixas. Na época eu não tinha telefone em casa então nós fomos pro posto da Telebahia telefonar, na Barra. Ansioso, ele foi com Beto Sodré. O Maluco Beleza, do outro lado, cumprimentou e foi direto ao assunto: Bicho, adorei tua música, linda! Mas tem uma coisa assim, Cê faz assim: Comprei um sítio/ plantei jabuticaba/ dois pés de guabiraba/  não tem isso aí? Eu queria mudar! Mudar como Raul?”, perguntou Wilson Aragão.

E Raul sugeriu o novo verso pelo telefone: “Eu queria fazer assim: Plantei um sítio no Sertão de Piritiba… . Eu tive em tua terra, bicho, adorei Piritba” O compositor de Metamorfose Ambulante visitou o solo piritibano em 1979, com Beto Sodré. “Conheceu todo mundo, tirou fotografia, ficou amigo de todo mundo, ficou 10 dias e virou nome de avenida,”, relembra.  A segunda mudança da música operada por Raul Seixas foi o verso Dois pés de guataíba. A conversa seguiu e é Wilson que fala: “Cê quer colocar Comprei um sítio no sertão de Piritiba e pra rimar com Piritiba, Raul? Pode deixar que eu já achei uma planta! Misturou meu pé de guabiraba com as pindaíbas que ele bebia nas cachaças e  saiu dois pés de guataíba, que até hoje eu procuro nos dicionários de planta e não acho”. Em 83 Capim Guiné tocou no Brasil todo e Raul assumiu a co-autoria. Piritiba bombou e hoje “Capim Guiné” é o nome do seu arraial junino. Com participações em vários eventos ligados à militância de esquerda, Wilson gravou ainda o LP Capim Guiné e o CD Filosofia do Jegue. Mora no mesmo lugar, no Engenho Velho de Brotas, com seu proseado de cabôco violeiro e sua simpatia sertaneja.

editado a 14:12hs

29 de jun. de 2020

Tom Zé, um gênio!


27 de jun. de 2020

Grande Otelo e a Discriminação do negro

"Você vê discriminação ainda hoje no Brasil?" foi o que perguntaram para o Grande Otelo no Roda Viva
de 1987.
Grande Otelo, foi um dos maiores atores e comediantes da história do cinema e da TV no Brasil. E se você não sabe quem é ele, talvez essa pergunta do programa continue sendo feita.


25 de jun. de 2020

Para matar a saudade do PERNAMBUCANTO


18 de jun. de 2020

A única tribo indígena do Brasil que mantém a língua viva

Foto Joaquim Dantas - Blog do Arretadinho
Os Fulni-ô são o único grupo do Nordeste que conseguiu manter viva e ativa sua própria língua - o Ia-tê - assim como um ritual a que chamam Ouricuri, que atualmente realizam no maior sigilo.

Na parte central das terras da reserva indígena se encontra assentada a cidade de Águas Belas rodeada totalmente pelo território Fulniô.

 Nome e língua
Na literatura histórica, e em uma parte da literatura antropológica, os índios de Águas Belas são chamados Carnijós ou Carijós, inclusive Cajaú (Hohenthal, 1960). Não se têm notícias do ano em que foram aldeados; o certo é que, em meados do século XVIII, já eram designados pelo nome de Carnijós. É possível que nesta aldeia tenham se fundido elementos provenientes de vários grupos étnicos que mais tarde se reorganizaram de forma clânica, adotando então o nome do grupo anfitrião: Fulni-ô.

Os Fulni-ô foram durante muito tempo considerados, pelos estudiosos, como os últimos remanescentes dos históricos índios Karirí, cujo hábitat abarcava todo o Nordeste do Brasil (Boudin, 1949). Um exemplo desta posição é a de Mario Melo, que os considerou como o "último rebento dos Cariris que dominaram os nossos sertões" (Melo, 1929). Segundo Boudin (1949), esta confusão ocorreu porque ambos grupos habitavam a mesma região, ou seja o alto e médio São Francisco.

A hipótese de que os Fulni-ô foram kariri ficou descartada desde o momento em que uma análise lingüística comparativa concluiu que "a língua dos índios Karnijós difere consideravelmente da dos amerícolas da família kariri" e que o Ia-tê bem pode ser uma língua autônoma, já que "representa as relíquias de uma família lingüística, ainda não computada na relação das línguas americanas do Brasil ou liga-se a alguma família que não tem representantes no nosso território, pelo menos devidamente conhecidos" (Sobrinho, 1935: 49). Recentemente, o lingüista Aryon Dall'Igna Rodrigues (1986) classificou tanto a família kariri como a língua ia-tê como integrantes do tronco macro-jê, embora sem incluir esta língua em uma família particular.

Atualmente todos os índios em Águas Belas falam português; em Ia-tê se comunicam principalmente os adultos e idosos; os mais jovens e as crianças usam com mais freqüência o português. Apesar de que o Ia-tê possa estar perdendo terreno para o português, tem ou cumpre um importante papel dentro da sociedade indígena.
Foto: Memélia Moreira

 Localização
Os Fulni-ô atualmente habitam o município de Águas Belas, situado na zona fisiográfica do Sertão, a 273 quilômetros da capital do estado de Pernambuco. O município está compreendido no chamado polígono das secas. A região de Águas Belas é cortada de norte a sul pelo rio Ipanema, que desemboca no São Francisco. Em 1980, a população do município era de 37.057 habitantes, dos quais  11.714 viviam na área urbana, e 25.343 na área rural. Esta última cifra inclui a aldeia indígena.

A vida dos Fulni-ô transcorre em duas aldeias. Uma delas se localiza junto à cidade de Águas Belas. É nesta aldeia que se encontram as instalações do Posto Indígena da Fundação Nacional do Índio (FUNAI); a outra é o lugar sagrado do ritual do Ouricuri, onde se estabelecem nos meses de setembro a outubro.
Foto: Jorge Hernández Díaz, 1983

 Informação demográfica
Os dados mais antigos sobre a população Fulni-ô remontam a 1749, quando, segundo registro da "Informação Geral da Capitania de Pernambuco" (1906), na aldeia da Ribeira do Panema, viviam 323 pessoas pertencentes a este grupo. Estêvão Pinto, citando como fonte relatórios da Diretoria dos Índios, diz que em 1855 a população ascendia a 738; já em 1861 esta cifra havia caído quase pela metade, pois só restavam 382 pessoas, que compunham 90 famílias (Pinto, 1956:25). Comenta o autor citado que a causa da diminuição da população pode ter sido uma epidemia de cólera que atacou a aldeia em 1856. Em 1873 o número de indígenas Fulni-ô se reduziu a pouco menos de uma centena (Costa Júnior, 1942:11; Pinto, 1956: 26). Pouco a pouco a população foi se recuperando; em 1922 a aldeia contava com aproximadamente 500 índios "...distribuídos por cento e cincoenta choças, quase todas de palha" (Pinto, 1956: 26). Deduzimos que já para 1937 deva ter aumentado consideravelmente o número de indígenas Fulni-ô, pois, em um artigo escrito naquela época, Carlos Estêvão de Oliveira, ao referir-se a este grupo, comenta que havia um milhar de pessoas que falavam a língua Ia-tê (1942: 171).

É possível que a cifra dada por Carlos Estêvão de Oliveira seja um pouco otimista, já que, segundo os relatórios da IVa. Inspetoria Regional correspondentes a 1945 e 1948, a aldeia contava com 823 e 1.263 indígenas respectivamente (Pinto, 1956: 26). Em 1982 residiam na aldeia 2.668; esta cifra havia aumentado para 2.788 em 1989, segundo registros da FUNAI (Povos Indígenas no Brasil 1991/1996, ISA, 1996).

 Antecedentes históricos
No território da Capitania de Pernambuco viviam numerosos grupos tribais que falavam a língua Tupi. Os índios que não falavam tupi eram conhecidos como "Tapuios" ou "Tupuyaa". Na época colonial, os índios que habitavam o litoral foram empurrados para o interior, dando lugar a novas populações. Assim, por exemplo, o povoamento de boa parte do vale do São Francisco se deve aos indígenas e à obra catequista dos sacerdotes.

Também teve muito que ver na conformação de uma nova distribuição demográfica a luta que, em meados do século XVII, sustentaram portugueses e holandeses na disputa pelo território brasileiro. Depois que os holandeses foram expulsos de Pernambuco, os portugueses decidiram reorganizar a administração dos grupos indígenas da região. É possível que, tendo em vista essa reorganização administrativa, a coroa portuguesa tenha decidido reunir em aldeias os indígenas, para manter melhor controle sobre eles. Assim se explica sua insistência em dotar os índios de "uma légua de terra em quadra" para que aí fossem concentrados pelo menos 100 casais indígenas. Supomos que foi aproximadamente nessa época que os Fulni-ô foram aldeados.

 O ritual do Ouricuri
Os preparativos para a mudança para a aldeia do Ouricuri se iniciam nas últimas semanas do mês de agosto. Todos os Fulni-ô que trabalham fora de Águas Belas, como funcionários, professores, policiais, durante a primeira semana do ritual pedem licença para se ausentarem do trabalho e se concentrarem na aldeia do Ouricuri; os que podem aí permanecem sem sair durante todo o ritual.

Todos os Fulni-ô têm como norma a proibição de falar do ritual. Os anciãos asseguram que aqueles que infringiram esta norma tiveram morte estranha. Sem dúvida esta é uma advertência para evitar a quebra do sigilo.

Uma parte do que acontece na aldeia do Ouricuri é de domínio público. Sabemos assim que existem áreas onde as mulheres não podem entrar, embora elas tenham conhecimento das atividades que se realizam nesses lugares. Durante a noite os homens dormem separados das mulheres, estas nas casas e aqueles nos galpões. Durante os meses do ritual está proibido manter relações sexuais dentro da aldeia do Ouricuri. Embora não se pratique uma abstinência sexual absoluta, respeita-se o lugar sagrado do ritual, mantendo este tipo de relações fora da aldeia. Está proibido também tomar bebidas alcoólicas, escutar música, e inclusive assobiar. Quando um Fulni-ô na cidade ou na aldeia do Posto Indígena toma alguma bebida alcoólica, não pode ir à aldeia do Ouricuri. Por esse motivo nesta época evitam tomar qualquer bebida embriagante. No dizer de alguns anciãos no ritual rezam e oram pelo bem de todos, pois asseguram que sua religião é bastante parecida com a religião católica.

No ritual do Ouricuri, o Ia-tê desempenha um papel fundamental, já que é a língua preferencialmente falada durante as suas quatorze semanas de duração. É aí que se socializam os membros mais jovens pelo ensino de um código simbólico diferente daquele utilizado pela sociedade envolvente.

Um dos eventos de maior importância no ritual é a eleição de suas autoridades, ou seja o Pajé, o Cacique e a Liderança. No ritual do Ouricuri, tanto o Cacique como o Pajé são figuras centrais. Não sabemos quais são suas atribuições nem tampouco os limites de sua autoridade. Quando perguntamos qual dos dois tinha mais autoridade fora do ritual, obtivemos respostas que se contradiziam. Assim, enquanto uns diziam que era o Cacique, outros diziam que era o Pajé. Mas parece haver um consenso de que, ao se abordar qualquer assunto que incumba ao grupo como um todo, os dois devem atuar de comum acordo.

Antigamente a aldeia ritual se erigia com casas de palma de ouricuri. Cada ano, ao aproximar-se a abertura do ritual, os índios levantavam suas respectivas casas, a quais desmontavam ao fim do mesmo. Atualmente as casas são permanentes, embora construídas com materiais de qualidade inferior ao daquelas existentes na aldeia do Posto Indígena. As condições sanitárias são também mais precárias do que nesta última. Até 1981, os Fulni-ô se abasteciam, durante os meses do ritual, da água depositada durante o período das chuvas em dois grandes poços; geralmente a água se esgotava antes da conclusão do ritual; então tinham que buscá-la na cidade, ou nos rios da serra distantes seis ou sete quilômetros, transportando-a em carroças puxadas por mulas. Com a falta de água, as condições sanitárias pioravam ainda mais, e o número de mortes causadas por infecções intestinais era alarmante. Afortunadamente, em 1982, conseguiram que a empresa que provê de água a cidade de Águas Belas fizesse uma extensão de suas instalações até a aldeia do Ouricuri; em troca os indígenas permitiriam que esta empresa (COMPESA) explorasse um dos rios que existem em suas terras para abastecer a cidade de Águas Belas.

 Os matrimônios interétnicos
Entre os Fulni-ô, numericamente falando, as uniões interétnicas são proporcionalmente importantes. Assim, com base em dados encontrados no Posto Indígena, entre 1940 e 1970 se registraram na aldeia 173 destas uniões.

Um dos requisitos indispensáveis para poder participar do ritual do Ouricuri é a exigência de ser filho de pai e/ou mãe Fulni-ô. Além desse, existe outro requisito: o de assistir ao ritual do Ouricuri desde a mais tenra idade. Quem não o faz perde o direito de participar mais tarde e, portanto, deixa de ser considerado índio Fulni-ô. Assim, todos aqueles filhos de uniões interétnicas que participam do ritual se identificam como índios Fulni-ô e são assim reconhecidos (na maioria dos casos) pelos "brancos" ou "civilizados".

No que tange aos filhos de uniões interétnicas que não assistem ao ritual, podemos dizer que alguns deles se auto-identificam como índios e exigem ser reconhecidos como tais, com o que os Fulni-ô não concordam. Geralmente os filhos de uniões interétnicas, embora não assistam ao ritual, mantêm estreitas relações com os Fulni-ô e vivem dentro da Terra Indígena ou inclusive na própria aldeia do Posto. Os filhos de uniões interétnicas enfrentam problemas devido, como dizia um ancião, estarem "entre duas nações": por um lado os índios legítimos os discriminam chamando-os de "grogojó", por outro os "civilizados" lhes negam seu status de índios, mas sem aceitá-los totalmente como parte da comunidade "branca".

Mas, apesar de ambas as sociedades não aceitarem totalmente os matrimônios interétnicos, estes continuam a se realizar. Quando algum jovem indígena pretende casar-se com uma "civilizada", os anciãos tentam dissuadi-lo. Os "civilizados" tampouco têm simpatia por este tipo de união.

 Remanescentes e descendentes
Existem duas categorias sociais em que os Fulni-ô classificam seus descendentes, mas sem considerá-los parte do grupo. A primeira está formada por aquelas pessoas que vivem nas terras da reserva e que, por possuírem parte delas, a FUNAI as reconhece como índios; a elas chamam remanescentes. A segunda é constituída por aqueles indivíduos que são filhos de uniões interétnicas, mas que não participam no ritual.

Na Terra Indígena viviam em 1982 aproximadamente setenta famílias que possuiam terrenos dentro da mesma. Para a FUNAI estas famílias são indígenas, mas para os Fulni-ô não são. A origem deste grupo é um tanto incerta. O mais provável é que se trata de descendentes de uniões interétnicas que deixaram de assistir ao Ouricuri.

Os Fulni-ô justificam a exclusão dos remanescentes de seu grupo, argumentando que não são índios, pois não assistem ao ritual do Ouricuri, não falam Ia-tê e vivem fora da aldeia. A maioria destes remanescentes tampouco se identifica como índios, embora reconheça que descende de pais indígenas. O único vínculo que atualmente parece existir entre os Fulni-ô e os remanescentes é a possessão da terra e é para mantê-la que os segundos manipulam sua identidade, de modo a alegar direitos sobre as propriedades que possuem.

Quanto à segunda categoria, existem dois grupos: aqueles que se identificam com os índios e que se fazem assim chamar, mas não são reconhecidos como tais; a sociedade Fulni-ô não os rechaça mas tampouco os aceita no ritual. De outro lado estão aqueles que definitivamente foram socializados como brancos e estão totalmente integrados na sociedade regional; a estes os Fulni-ô chamam descendentes quando conhecem sua origem.

 A luta pela terra
Desde sua fundação, há mais de duzentos anos, o atual assentamento dos Fulniô esteve ligado à história da cidade de Águas Belas e seus habitantes não-índios. Segundo a tradição, foi um homem branco, chamado João Rodrigues Cardoso, tomou as primeiras iniciativas que deram origem ao povoado de Ipanema, que anos mais tarde se transformaria na cidade de Águas Belas. Mario Melo (1929) diz que o fundador, com a ajuda dos Fulni-ô, erigiu a capela de Nossa Senhora da Conceição, obtendo também do governo a nomeação de seu amigo, Lourenço Bezerra Cavalcanti, para diretor dos aldeados, cargo que havia sido criado em 1757.

A Lei Imperial de Terras de 1850 entregava às províncias a posse dos aldeamentos indígenas extintos. Conseqüentemente, as províncias nordestinas tiveram pressa em declarar os índios de seus aldeamentos como extintos. Foi por isso que em 1875 o presidente da província de Pernambuco, pelo ato do 4 de maio de 1875, considerou extintos diversos aldeamentos, entre eles o de Ipanema ou Águas Belas.

Ao se extinguirem os aldeamentos, os "civilizados" ansiosos por expandir suas possessões empreenderam furiosas investidas contra os Fulni-ô, empurrando-os para a caatinga e tomando-lhes os terrenos cultivados, apropriando-se assim ilegalmente das terras que por direito pertenciam aos indígenas.

Possivelmente os Fulni-ô tiveram mais sorte que outros grupos indígenas, pois o governo provincial, tendo em vista as invasões das terras indígenas pelos "civilizados", acudiu os índios, mandando demarcar as terras doadas aos Fulniô por cartas régias e alvarás. Em 1875, a terra foi demarcada e entregue aos Fulni-ô (Cerqueira Vianna, 1966; Pinto, 1956; Melo, 1929). Esta demarcação respeitou a doação anteriormente feita à capela de Nossa Senhora da Conceição, cuja superfície era de 759.664 m2 (Pinto. 1956:14).

Esta intervenção do governo provincial em favor dos indígenas, ainda que tenha ajudado a frear os interesses da população "civilizada", não a deteve do todo, pois anos mais tarde novamente começou a pressionar os indígenas a abandonarem as terras que legitimamente lhes pertenciam. Assim, em 1886, a Câmara de Vereadores considerou irregular a demarcação e pediu ao governo "a creação no termo de ... um juizo comissario", com a finalidade de legalizar as terras ocupadas por todos os invasores (posseiros).

No século XX, os Fulni-ô continuaram com sua velha contenda pela terra. Em 1904, com a mudança de governo, os "civilizados", incentivados pelas novas leis que o regime republicano estabelecia, procuravam novas formas (ou formas legais) para se apropriarem dos bens indígenas. Em 1908, as terras da aldeia foram arrendadas a Nicolau Cavalcanti de Siqueira, por um prazo de seis anos. Determinava-se que, ao finalizar esse contrato, os imóveis voltariam ao domínio estadual (Vasconcelos 1962:36; Pinto, 1956:16).

Ao terminar o contrato, o Prefeito Cezar Montezuma de Oliveira, baseando-se na Lei Orgânica dos Municípios, que determinava que as terras devolutas passavam ao poder dos municípios, convidou, por meio de um edital, todos os moradores das terras para providenciarem o respectivo arrendamento. Entretanto, isso não se efetivou, passando as terras novamente ao domínio dos índios.

Em 1928 esta área foi dividida por representantes do Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, que então incluia o Serviço de Proteção aos Índios. Da divisão resultaram 400 lotes de 550x550 metros (30,25 hectares) e mais outros 27 lotes de menor extensão com dimensões irregulares. Em 14 de maio de 1929 os Fulni-ô receberam títulos individuais da terra que possuiam, de caráter provisório, expedidos pelo mesmo Ministério.

Embora em 1929 cada família Fulni-ô tenha recebido um lote, na atualidade algumas carecem de terra.

 Arrendamento da terra
A partir de 1929, os Fulni-ô começaram a arrendar suas terras aos habitantes não-índios do Município de Águas Belas. Muitos dos "civilizados" que cultivavam estas terras de maneira irregular, começaram a pagar uma quota anual aos índios donos dos lotes, mediante um contrato firmado no Posto do SPI; desde então muitos "civilizados" cultivam as terras pertencentes aos indígenas.

Em 1982, os registros do Posto indicavam que, dos 427 lotes em que está dividida a Terra Indígena, 275 tinham arrendatários que em sua maioria eram pessoas com poucos recursos econômicos.

Outra modalidade de arrendamento é aquela a que chamam de "chão de casa". Devido à peculiar situação da cidade de Águas Belas, a partir da década de 1950, a solução encontrada pelas famílias brancas sem casa foi a construção de moradas dentro da Terra Indígena. Para que um branco possa construir uma casa nesta situação, é necessário que conte com a permissão do respectivo dono e do chefe do Posto. Em 1980, o total de casas era de 485, e estavam situadas em 11 lotes. Um relatório de 1986 menciona 800 casas nesta situação (Povos Indígenas no Brasil 1985-1986, CEDI, 1986).

 Economia
Na atualidade a maioria dos Fulni-ô cultiva suas roças, em média de dois a três hectares, utilizando unicamente a força de trabalho disponível da família. Geralmente, vendem uma parte da totalidade de sua produção agrícola. Produzem a forragem e o algodão principalmente com a intenção comercializá-los em sua totalidade. Já o feijão, o milho e a mandioca são cultivados tanto para venda como para consumo pela unidade doméstica.

A atividade remunerada na qual a unidade doméstica emprega preferencialmente mão-de-obra feminina é a confecção de artefatos de palma. São os homens os que se ocupam de procurar, cortar e transportar a palma da serra para a aldeia. Quando uma família carece de homens, então as mulheres se vêem obrigadas a realizar essa extenuante tarefa.

Os produtos que se elaboram com maior freqüência são bolsas, esteiras, escovas, chapéus, e abanos. Outros artigos, como sandálias, se fazem sob encomenda. Alguns desses produtos são decorados com fibras pintadas com tinta; dizem os anciãos que seus antepassados usavam corantes que eles mesmos fabricavam.

Esses artefatos se confeccionam preferencialmente nos meses de setembro a dezembro, época em que o trabalho nas roças está terminado, quando é mais fácil conseguir a matéria-prima e elaborar os artigos, pois a palma seca rapidamente, o que não ocorre na época das chuvas, quando os Fulni-ô também têm que se ocupar de seus cultivos. Os meses de maior produção coincidem com a época do ritual do Ouricuri; é também neste período que aumenta a demanda desses produtos, embora caiba esclarecer que são fabricados durante todo o ano.

 Os Fulni-ô no mundo dos brancos
Os Fulni-ô participam em várias atividades fora de sua aldeia, alguns como estudantes, outros como trabalhadores. Em 1982, por exemplo, 80 jovens estudavam nas escolas da cidade de Águas Belas. Muitos outros trabalhavam fora da Terra Indígena, alguns como funcionários da FUNAI, em postos que não o de Águas Belas. Alguns eram professores nessa cidade; outros, trabalhadores da construção civil em distintas cidades dos estados de Pernambuco, Alagoas, Bahia, São Paulo e no Distrito Federal.

A participação dos índios na vida política da municipalidade tem sido também muito ativa; e também muito significativa, já que sob determinadas circunstâncias podem decidir a eleição em favor de um ou outro candidato, pois proporcionalmente o número de eleitores índios é alto. Em 1982, o número de votos dos Fulni-ô era suficiente para eleger dois vereadores. Se quisessem, poderiam manter uma representação na câmara municipal. Entretanto, nas eleições de 1982 tal situação não foi possível porque o voto indígena esteve bastante dividido. Nas observações realizadas naquela ocasião, o comportamento político dos Fulni-ô foi bastante heterogêneo: alguns votaram considerando o programa de um partido; outros, seus vínculos pessoais com certos candidatos; e outros, suas relações de clientela com líderes políticos regionais.

Para terminar, vale fazer alusão à opinião que os Fulni-ô deram a Jorge Hernández sobre os livros escritos sobre eles, em particular sobre os assuntos referentes ao ritual do Ouricuri e à organização clânica tratada na obra de Estêvão Pinto. Como são temas zelosamente guardados, um ancião disse que o livro não se baseava numa boa recopilação da informação e que seu conteúdo era uma interpretação do autor: "Foi o civilizado que escreveram isso, de acordo o entendimento deles. Não foi nós nem nossos chefes índios, não foi o índio que escreveu isso. Foi os civilizados que estudaram e interpretaram." Espera-se que em breve sejam os próprios Fulni-ô que escrevam e interpretem sua história para nós.

 Nota sobre as fontes
A primeira elaboração das informações históricas e etnográficas sobre os Fulni-ô data de 1929, quando Mario Melo publicou os resultados de sua investigação. Outras fontes com informação desta natureza são os textos escritos por Max Boudin e Estêvão Pinto a quem se deve a maior parte da informação etnográfica disponível, sobretudo a referente à organização clânica e ao ritual do Ouricuri. Esta informação foi colhida entre os Fulni-ô na década de 40, quando o ritual começava a resguardar-se com segredo.

Dados sobre a fundação da cidade de Águas Belas se encontram na obra de Mario Melo, Estêvão Pinto e num livro escrito por Sanelva de Vasconcelos especificamente sobre esse tema.

No que se refere à estrutura do Ia-tê, a língua dos Fulni-ô, pode-se consultar o livro de Geraldo Lapenda. Outro texto com alguma informação desta natureza é o Lemos Barbosa.

Sobre as condições de vida existentes na aldeia Fulni-ô nos anos 60 existe um relatório escrito por Mabel Cerqueira Vianna.

As dissertações de mestrado de Jorge Hernández Díaz, de 1983, e a de Miguel Vicente Foti, de 1991, ambas defendidas na Universidade de Brasília, contêm informação sobre as novas condições em que se desenvolve o ritual do Ouricuri. Sobre o arrendamento das terras podem-se consultar a dissertação de Hernández Díaz e a de Sidnei Clemente Peres, esta última defendida no Museu Nacional, da UFRJ, em 1992. Há também relatórios mais recentes de Ivson José Ferreira.





 Fontes de informação


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Aos guerreiros do silêncio. Dir.: César Paes. Vídeo Cor, Betacam, 54 min., 1992. Prod.: Laterit Producions.

12 de jun. de 2020

Coxinhas vão invadir Cuba, diz ator

(Foto: Reprodução)
Com a proibição do desembarque de brasileiros na Europa e EUA nestes tempos de pandemia, tem gente se perguntando onde será que essa gente vai gastar seus Dólares?

Do Gama
Joaquim Dantas
Para o Blog do Arretadinho

Confesso que fiquei imaginando se essa gente endinheirada aguentaria, pelo menos, meia hora no SAARA do Rio de Janeiro, talvez na 25 de março de São Paulo, quem sabe no Mercado de São José de Recife, ou até no Mercado Ver-o-Peso do Pará...

Fiquei fazendo um ranking só por zoação para satisfazer minha própria curiosidade, até que dei de cara com um Twitter do ator Zé de Abreu e ví que minhas suposições estavam todas erradas, confira:


10 de jun. de 2020

RITA LEE- mais uma vez, dizendo muito!

RITA LEE- mais uma vez, dizendo muito!

“Eu tinha 13 anos, em Fortaleza, quando ouvi gritos de pavor. Vinham da vizinhança, da casa de Bete, mocinha linda, que usava tranças. Levei apenas uma hora para saber o motivo. Bete fora acusada de não ser mais Virgem e os irmãos a subjugavam em cima de sua estreita cama de solteira, para que o médico da família lhe enfiasse a mão enluvada entre as pernas e decretasse se tinha ou não o selo da honra. Como o lacre continuava lá, os pais respiraram, mas a Bete nunca mais foi à janela, nunca mais dançou nos Bailes e acabou fugindo para o Piauí, ninguém sabe como, nem com quem.

Eu tinha apenas 14 anos, quando Maria Lúcia tentou escapar, saltando o muro alto do quintal da sua casa para se encontrar com o namorado. Agarrada pelos cabelos e dominada, não conseguiu passar no exame ginecológico. O laudo médico registrou vestígios himenais dilacerados, e os pais internaram a pecadora no reformatório Bom Pastor, para se esquecer do mundo. Realmente, esqueceu, morrendo tuberculosa.

Estes episódios marcaram para sempre a minha consciência e me fizeram perguntar que poder é esse que a família e os homens têm sobre o corpo das mulheres? Ontem, para mutilar, amordaçar, silenciar. Hoje, para manipular, moldar, escravizar aos estereótipos. Todos vimos, na televisão, modelos torturados por seguidas cirurgias plásticas. Transformaram seus seios em alegorias para entrar na moda da peitaria robusta das norte americanas. Entupiram as nádegas de silicone para se tornarem rebolativas e sensuais, garantindo bom sucesso nas passarelas do samba. Substituíram os narizes, desviaram costas, mudaram o traçado do dorso para se adaptarem à moda do momento e ficarem iirresistíveis diante dos homens. E, com isso,Barbies de fancaria, provocaram em muitas outras mulheres - as baixinhas, as gordas, as de óculos - um sentimento de perda de auto-estima.

Isso exatamente no momento em que a maioria de estudantes universitários (56%) é composto de moças. Em que mulheres se afirmam na magistratura, na pesquisa científica, na política, no jornalismo. E, no momento em que as pioneiras do feminismo passam a defender a teoria de que é preciso feminilizar o mundo e torná-lo mais distante da barbárie mercantilista e mais próximo do humanismo.

Por mim, acho que só as mulheres podem desarmar a sociedade. Até porque elas são desarmadas pela própria natureza. Nascem sem pênis, sem poder fálico da penetração e do estupro, tão bem representado por pistolas, revólveres, flechas, espadas e punhais. Ninguém diz, de uma mulher, que ela é de espadas.

Ninguém lhe dá, na primeira infância, um fuzil de plástico, como fazem com os meninos, para fortalecer sua virilidade e violência. As mulheres detestam o sangue, até mesmo porque têm que derramá-lo na menstruação ou no parto. Odeiam as guerras, os exércitos regulares ou as gangues urbanas, porque lhes tiram os filhos de sua convivência e os colocam na marginalidade, na insegurança e na violência.

É preciso voltar os olhos para a população feminina como a grande articuladora da paz. E para começar, queremos pregar o respeito ao corpo da mulher. Respeito às suas pernas que têm varizes porque carregam latas d'água e trouxas de roupa. Respeito aos seus seios que perderam a firmeza porque amamentaram seus filhos ao longo dos anos. Respeito ao seu dorso que engrossou, porque elas carregam o país nas costas.

São as mulheres que irão impor um adeus às armas, quando forem ouvidas e valorizadas e puderem fazer prevalecer a ternura de suas mentes e a doçura de seus corações.

Nem toda feiticeira é corcunda. Nem toda brasileira é só bunda.

Rita Lee.

6 de jun. de 2020

Vidas Negras Importam

Foto Joaquim Dantas Fotografia®

Vidas Negras Importam

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