O Egípcio que salvou a economia britânica
Joana Moura
no sitio http://economico.sapo.pt/
sem tradução
O Harrods não foi o único negócio a contribuir para que Mohamed Al Fayed se tornasse um dos homens mais ricos do mundo.
De navios de carga a um clube de futebol, o magnata egípcio só não conseguiu um passaporte britânico. Esta é a história de uma fortuna que começou com limonada caseira nos intervalos da escola.
Em plena crise da libra esterlina, em 1984, e com o Sultão do Brunei – o homem mais rico do mundo na altura – a ameaçar retirar a sua fortuna do sistema fi - nanceiro britânico e convertê-la em dólares, Mohamed Al Fayed recebe uma missão de Margaret Thatcher: convencer o seu amigo de longa data a não tirar o dinheiro de Londres. Mohamed Al Fayed respondeu que ia tentar. Era uma missão difícil, mas não impossível: o egípcio foi bem sucedido e o Sultão cancelou a transferência de fundos do Citibank para Nova Iorque, uma crise ainda mais grave foi, assim, evitada. Já antes, várias vezes ao longo dos anos 70, foram as exportações a manter a economia britânica à tona, muitas dessas receitas ganhas no Golfo, em particular no Dubai.
Quando Mohamed viajou até ao Dubai para conhecer o seu “gestor”, o Xeque Rashid al Maktoum, esta ilha era pouco mais do que um banco de areia no meio do mar. O Xeque confessou ao egípcio que tinha planos para o Dubai e que Mohamed era uma parte importante. Al Fayed atirou: “Se existem tantos navios a passar o Golfo, e muitos mesmo ao largo do Dubai, porque não construir um porto que permita ao Dubai oferecer abastecimento e outros serviços do género aos navios e suas tripulações?”. Foi assim que Rashid convidou Al Fayed a reunir os recursos necessários para construir a primeira infra-estrutura moderna daquele Estado dos Emirados. E o egípcio voltou a Londres para conseguir capital e apoio para o empreendimento. Obra completa. O Xeque queria agora uma empresa que descobrisse petróleo no seu território. E foi Al Fayed outra vez que tratou do negócio: arranjou uma empresa tecnológica que aceitou o desafi o e descobriu 300 mil barris. Rashid não queria acreditar na sorte que Mohamed Al Fayed lhe trazia e encarregou- o da revolução que se seguiu no Dubai.
A ideia era um novo e maior porto, vários arranha-céus (incluindo o World Trade Center), um hotel Hilton de cinco estrelas, auto-estradas, um hospital e um aeroporto internacional. Demorou quase dez anos a concluir o projecto que tornou o Dubai naquilo que é hoje, mas Al Fayed colocou este pequeno Estado dos Emirados Árabes Unidos defi nitivamente no mapa do mundo. E criou a International Marine Services (IMS), que fazia operações de salvamento, reboque e trabalhos de manutenção para os petroleiros que passavam no Dubai. A IMS tornou-se numa das maiores empresas do mundo neste trabalho especializado e ao mesmo tempo operava em locais tão longínquos quanto Singapura, por exemplo. Negócio que o fi lho mais velho de um professor primário, com um avô comerciante, nunca imaginou vir a ter quando ainda na escola teve o seu primeiro impulso empreendedor e começou a vender limonada caseira aos colegas, durante os intervalos das aulas.
A MUDANÇA PARA INGLATERRA
O mais velho de quatro irmãos apaixonou-se e casou ainda muito novo com Samira Khashoggi, com quem teve o primeiro e, provavelmente, o mais famoso de quatro fi lhos, Dodi Al Fayed. O casamento durou apenas dois anos, durante os quais Mohamed trabalhou com o irmão da mulher, Adnan Khashoggi – um negociante de armas da Arábia Saudita. Mas com o fi m do casamento, o egípcio fi cou a criar Dodi sozinho e montou uma empresa de navios de carga com os irmãos, a Genavco (The General Navigation Company). A operar no mediterrâneo e no mar vermelho, a Genavco teve um papel extremamente importante no desenvolvimento dos transportes marítimos e foi um enorme sucesso, até que, em meados dos anos 50, o presidente egípcio Gamal Abdul Nasser nacionalizou todas as empresas privadas economicamente relevantes, assumindo o controlo da empresa criada pelos Al Fayed. Terminava assim o sonho de Mohamed de continuar a trabalhar no Egipto.
É nesta altura que a família se muda para Inglaterra e só em 1966 – já com o Dubai a começar a reclamar um lugar no mundo – é que os Al Fayed acabam por reerguer a empresa, desta vez em Génova, Itália, embora com escritórios em Londres. Foi uma década de trabalho no Dubai e de apoio à economia britânica, já que Mohamed escolheu sempre empresas britânicas para os seus projectos, introduzindo dessa forma fi nanciadores e empresas de construção inglesas no Dubai. Com a criação da International Marine Services, em 1968, e os negócios a correr, literalmente, à velocidade- cruzeiro, o mais velho dos Al Fayed faz uma visita à Escócia, onde se apaixona por um castelo em ruínas, Balnagown – outrora pertencente ao clã Ross, mas que foi abandonado depois da morte do seu proprietário –, que estava à venda com todo o seu conteúdo e cerca de 40 hectares de terreno. Pagou as 60 mil libras que eram pedidas e uma semana depois lá estava ele.
O castelo Balnagown era rico em História e os seus quartos e divisões continham artigos artesanais de incalculável valor, como mobília e tapetes. Al Fayed investiu milhões de libras a restaurar o castelo e toda a zona envolvente, recorrendo a especialistas para conservarem o edifício e a sua atmosfera: uma das grandes descobertas foi a cadeira do herói escocês William Wallace – caracterizado por Mel Gibson no fi lme “Braveheart”. O egípcio decidiu comprar todos os terrenos que já tinham pertencido em tempos ao castelo e depressa aumentou a sua propriedade para 65 hectares. As pequenas casas espalhadas pela propriedade foram transformadas em casas de turismo rural de cinco estrelas, enquanto o castelo principal foi sendo disponibilizado a convidados e personalidades políticas. E os esforços de conservação de Mohamed refl ectiram-se também no aumento da vida selvagem: as águias-marinhas voltaram, a águia vermelha foi reintroduzida e houve mesmo avistamentos da rara águia-real.
A reconstrução de Balnagown fi cou completa em 1995 e, por isso, Mohamed Al Fayed recebeu o prémio “Freedom of the Highlands”, em 2002, atribuído pelo Ministério do Turismo escocês. SONHOS DE CRIANÇA Quando Mohamed viajou pela Europa em criança conheceu o Harrods e o hotel Ritz, em Paris, e secretamente pensou para si mesmo que um dia havia de comprar ambos. Em 1979, este seu objectivo começou a tomar forma: o legendário hotel estava à venda e Al Fayed comprou-o. Mas o esplendor de outros tempos tinha fi cado no passado e precisava de ser reavivado: o egípcio renovou o hotel, empregando os maiores especialistas para restaurarem a sua magnifi cência, tanto na estética, como nos serviços prestados. No total, Al Fayed gastou cerca de um milhão de dólares por quarto. O resultado foi ser homenageado pelo presidente francês da época, François Mitterrand, com a “Medalha de Paris” e, mais tarde, ser nomeado “Cavaleiro da Legião de Honra”.
Não foi preciso muito para outro dos sonhos de criança do mais velho dos Al Fayed começar a concretizar- se. Apenas cinco anos depois, os quatro irmãos voltaram a juntar-se para comprar 30% da House of Fraser (que detinha o Harrods) e, em 1985, Mohamed conseguiu adquirir os restantes 70%, o que levou a uma batalha de anos nos media com Tiny Rowland, com quem Mohamed já se tinha cruzado dez anos antes, quando fez parte da administração da empresa de Tiny, a Lonrho (ver caixa). A House of Fraser empregava 30 mil pessoas e precisava urgentemente de dinheiro, que Mohamed investiu. O egípcio começou a devolver ao Harrods a sua condição de loja mais famosa do mundo: investiu cerca de 400 milhões de libras e durante o primeiro quarto de século sob a sua supervisão, libertou as áreas de armazém e escritórios para dar às marcas de luxo mais espaço de venda. Contratou o famoso arquitecto Bill Mitchell para criar alguns dos espaços livres mais emblemáticos de Knightsbridge, como o ‘hall’ e o “Escalator” egípcios, que contam a história do Vale dos Reis, cuja imagem de mármore no topo é a cara de Mohamed – uma espécie de pirâmide egípcia própria. Ao longo dos anos, os 140 espaços do Harrods foram sendo sempre reiventados, até que, em 2010 – depois de ter dito várias vezes que não vendia –, o egípcio decidiu vender este espaço à Qatar Holding por quase dois mil milhões e meio de dólares. Muito antes, entre 1986 e 1989, Jacques Chirac convidou Al Fayed a restaurar a Villa Windsor, a casa dos duques de Windsor na capital francesa.
A Villa reabriu formalmente em 1989, depois de um trabalho de restauração tão meticuloso quanto o que tinha sido feito com Balnagown e o que estava a ser feito no Ritz, onde o trabalho de Mohamed continuava, ao mesmo tempo que começava a dedicar-se à fundação que criara para apoiar crianças órfãs e com problemas: a Al Fayed Charitable Foundation. Foi só em 1994 que os irmãos Al Fayed decidiram colocar na bolsa de valores londrina o grupo House of Fraser e todas as suas empresas subsidiárias – que já incluíam a Harrods Aviation, o Harrods Bank e a Harrods Estates. Começa aqui a maior empreitada de Mohamed: a luta pela nacionalidade britânica. Já com quatro fi lhos nascidos em Inglaterra e com os seus negócios sediados naquele país, o egípcio pede a nacionalidade britânica, até porque o seu passaporte egípcio acabava por lhe difi cultar a vida, passada a viajar de um lado para o outro. Nunca conseguiu.
Dois anos depois, deu os primeiros passos na indústria de aviação ao lançar a Air Harrods, uma empresa de serviços de luxo de helicóptero. Mas só em 1997 é que Mohamed fez o negócio que mais visibilidade lhe trouxe nos últimos anos: comprou o clube de futebol inglês Fulham, prometendo aos seus adeptos transformar aquele clube de segunda divisão numa equipa da Premier League em menos de cinco anos. Cumpriu. Mas foi também este o ano em que viu o seu fi lho mais velho, Dodi – na altura namorado da princesa Diana – morrer num acidente de carro em Paris com a mãe do futuro Rei da Inglaterra.
O trágico acontecimento levou a que o magnata travasse uma batalha de mais de uma década com a justiça inglesa, que deu como provado ter-se tratado apenas de um despiste devido à condução negligente do motorista, afastando permanentemente a tese de possível assassinato (ver caixa). Mohamed vendeu, há três anos, aquele que foi o seu maior sonho de criança, o Harrods. Hoje, com 84 anos, dedica-se ao seu mais recente negócio, a Cocosa, um loja ‘on-line’ com marcas de luxo a preços ‘low- -cost’ e promoções ‘fl ash’ que, por vezes, duram apenas algumas horas. “Eu vivi e respirei Harrods mais de 26 anos e todos os dias vi compradores privilegiados gastar milhares de libras em roupas de ‘designers’. Agora posso fazer algo diferente. Com Cocosa dou às pessoas que normalmente não são capazes de pagar as marcas de luxo, a hipótese de comprar roupas de marcas requintadas que apenas sonharam ter um dia. E tudo por preços quase de custo”, explicou Mohamed. Por tudo isto, diz-se igualmente feliz.
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