O fim dos mistérios na redação científica
do sitio O Povo
Criador do "Método Lógico para Redação Científica", o professor doutor Gilson Volpato defende, em entrevista exclusiva ao O POVO, o uso de simplicidade e criatividade em textos acadêmicos
O professor Gilson Volpato é especialista em uma área que muitos acreditam ser o “bicho papão” da vida acadêmica: a redação científica. Criador do “Método Lógico para Redação Científica”, ele percorre o País esmiuçando as particularidades deste tipo específico de escrita, cujo domínio é cobiçado por muitos.
Antes de desembarcar em Fortaleza, onde ministrou ontem e hoje disputado curso na Universidade Federal do Ceará, Volpato concedeu entrevista exclusiva ao O POVO, por email, explicando como seu método funciona e falando sobre a importância da escrita na vida do cientista. “A forma principal de comunicação entre os cientistas é por meio de textos publicados em revistas científicas. Portanto, saber se comunicar bem é importante nesse sistema” .
O POVO - O que é o Método Lógico para Redação Científica?
Gilson Volpato- Ele é um método que criei e que basicamente procura responder as dúvidas sobre redação científica a partir da base metodológica e filosófica da ciência, incluindo, às vezes (após essas bases), elementos de comunicação. Ou seja, nossas decisões na construção do texto científico não vêm de regrinhas ou de costumes de áreas... vêm de uma análise lógica da situação, podendo ser complementada com uma análise de comunicação. Com isso, cada texto é um texto. Um formato pode ficar bom num artigo, mas não necessariamente bom em outro... dependerá da lógica do discurso desenvolvido em cada caso. Atualmente, vemos que a redação segue mais costumes de áreas do que a lógica da ciência. Com o método que proponho, para se escrever bem devemos primeiramente conhecer bem o que é ciência, sua metodologia e processos de comunicação. Atuando aí, desdobramos em textos bem escritos. Até o estilo de construção de frases passa por esse método. Nada deve ser escolhido sem que se tenha uma boa justificativa da ciência ou da comunicação. Reforço que em primeiro lugar estão os requisitos científicos. Uma vez atendidos, podemos então optar por formas mais bonitas de apresentação.
OP - De acordo com o seu Método Lógico para Redação Científica, quais são os requisitos para ter uma escrita científica?
Gilson - Considero o texto científico composto por dois argumentos lógicos. Um no contexto da descoberta (Argumento 1 = Introdução) e o outro no contexto da justificação (Argumento 2 = métodos, resultados, discussão e conclusão). Esse dois contextos e o argumento emprestei da lógica. Um argumento lógico não pode ter premissas sobrando e nem faltando. É assim que fazemos o texto. Cada informação deve ser necessária, ou então pode ser excluída. Essa é a temática na ciência internacional. E isso vale para todas as áreas, inclusive a área de Humanas, embora nessa área aleguem que é diferente... mas não é!
A partir daí, entenda as mudanças do ambiente da redação científica que estão ocorrendo desde o final do século passado. Por exemplo, não considere o texto como uma história de mistério que o leitor só saberá a informação principal no final. Ao contrário, considere que o leitor deve saber a informação principal já a partir do título. O cientista de bom nível, que é o que importa nesta discussão, não se contentará com a manchete. Lerá o texto para saber se concorda ou não com a conclusão do autor. Mais ainda, hoje em dia o texto deve ser aberto, simples. Aberto significa que devemos usar palavras simples, pois queremos comunicar. Há vários textos científicos que simplesmente não conseguimos entender; mas que poderiam ser escritos também para cientistas de áreas paralelas. O artigo científico é produzido para ser lido por um cientista (difere do texto de divulgação científica), mas não deve ser necessariamente escrito para o especialista. Sempre que possível, use palavras simples ao invés dos jargões e palavras da especialidade. Isto é reforçado pela tão divulgada interdisciplinaridade. Falamos de abordagens interdisciplinar, mas escrevemos coisas que só os ultraespecialistas entendem. Isso é contraditório.
OP - Como tornar uma escrita científica atraente?
Gilson - Pense simples... escreva simples. Quem pensa com clareza tem chance de escrever com clareza. Os erros de escrita são erros de pensamento. É o cérebro que controla a mão. Portanto, se erramos na escrita (lógica da escrita), é porque erramos em nosso pensamento. Isso é prerrogativa do método. Além disso, esse pensamento deve ser guiado pelos pressupostos da ciência. Com isso, tudo fica mais fácil. Lembre-se que está escrevendo argumentos para seus leitores. Converse com eles por meio de seu texto. Esqueça regrinhas de redação, esqueça ABNT e esqueça a camisa de força que o ensino equivocado da redação científica tem passado em nosso País. O texto pode ser composto de forma criativa, à vontade, sendo o único limite a lógica do discurso, que é a lógica da ciência. É assim na maioria das grandes revistas e, particularmente, nas boas revistas internacionais mais modernas. Sempre que usar a forma natural de expressão, será melhor. Ao dizer “o alimento foi ingerido pelo peixe”, apenas ao ler a frase toda o leitor perceberá que o final é o início e que o início é o final. Se disser “O peixe ingeriu o alimento”, será mais direto, rápido e a sequência lógica de ocorrência do fenômeno (este comeu aquilo - causa e efeito) não é transgredida e torna tudo mais fácil e natural ao leitor. Outra coisa importante é considerar que o texto científico conta uma história. Não torne essa história técnica e chata. Ela pode ser agradável, mesmo assim mantendo os detalhes técnicos pertinentes. Há introduções gostosas de serem lidas, enquanto outras são um aglomerado de informações e citações que não percebemos beleza nenhuma do texto. Talvez sirvam apenas para mostrar erudição.
OP - Quais dicas o senhor daria para aqueles que estão tentando escrever seus artigos científicos?
Gilson - Buscar simplicidade, elegância, clareza. O objetivo é comunicar e não mostrar erudição. Afaste-se das revistas ruins; procure ler revistas internacionais de alto nível. Uma revista internacional é definida como aquela que tem publicado artigos de autores de vários países e que é citada por autores de vários países. As demais são regionais. Dentre as internacionais, defino em meu método dois níveis: as que são conhecidas principalmente dentro de uma especialidade e as que são conhecidas entre várias especialidades. Os textos mais elegantes e agradáveis estão no último tipo (internacionais conhecidas em várias especialidades).
Considere também que terá que contar uma história. Não escreva nada antes de ter essa história completamente clara em sua cabeça! Fale dela quantas vezes for preciso. Quando menos espera, fica pronto para escrever. A redação é a última coisa a fazer. Usando o método que criei, você consegue escrever um artigo em um dia e uma tese em cinco dias; nos dois casos, depois usará mais alguns momentos para deixar tudo bonito, mas a base já está acertada. Enfim, o Método Lógico é intuitivo, simples, mas sua compreensão necessita de estudo e não é simples.
PERFIL
Gilson Volpato é graduado, mestre e doutor em Ciências Biológicas. É professor da Unesp desde 1981 e é autor do livro Método Lógico para Redação Científica, entre outros

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