A menina que cobrou do general: "Quero meus amigos de volta!"
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| Dayse entrou para a escola normal ( 2º grau) aos 11 anos e aos 15 era professora de normal para crianças de 4 anos. "sai do jardim para o segundo ano primário", afirma Dayse. Foto arquivo pessoal |
De Brasília
Joaquim Dantas
Para o Blog do Arretadinho
A Revolução Praieira foi uma revolta de caráter liberal e federalista ocorrida na província de Pernambuco entre os anos de 1848 e 1850. Dentre as várias revoltas ocorridas durante o Brasil Império, esta foi a última. Ganhou o nome de praieira, pois a sede do jornal comandado pelos liberais revoltosos (chamados de praieiros) localizava-se na rua da Praia.
Contexto e causas da revolta
Em 1848 o Senado brasileiro ela dominado por senadores do Partido Conservador. Os senadores conservadores vetaram a indicação, para uma cadeira do Senado, do liberal pernambucano Antônio Chinchorro da Gama. Este veto provocou uma revolta em determinado grupo de políticos liberais de Pernambuco. Os pernambucanos também estavam insatisfeitos com a falta de autonomia política das províncias e concentração de poder nas mãos da monarquia.
O dia 7 de Novembro foi indicado para se comemorar o dia da Revolução Praieira e nós resolvemos relembrar a data contando a história de uma menina que, ao ver seus amigos sumirem nos porões da ditadura, cobra o general Médici na primeira oportunidade que teve: "Quero meus amigos de volta!"
A menina que cobrou do general Médici "quero meus amigos de volta" é a professora Dayse Silva. Em entrevista exclusiva ao Blog do Arretadinho Dayse conta como uma criança prodígio viveu durante a ditadura militar.
Filha de um oficial do exército, que trabalhava diretamente com o ditador Emílio Garrastazu Médici, conta que morava na 406 Sul, numa época em que a concentração política da capital federal acontecia na 206 Sul. No prédio em que morava era vizinha de personalidades que iam desde o embaixador da Tailândia ao bebum irmão do Cid Varela (dono do Correio Braziliense).
Superdotada a professora Dayse, quando criança, estudava na mesma escola pública das filhas do Ex-ministro Jarbas Passarinho, entrou para a escola normal ( 2º grau) aos 11 anos e aos 15 era professora de normal para crianças de 4 anos, mas não podia trabalhar nem fazer vestibular.
formou-se professora pela Escola Normal da 1º a 6º série e especialização em Ciências e Matemática da 5ª a 8ª .
formou-se professora pela Escola Normal da 1º a 6º série e especialização em Ciências e Matemática da 5ª a 8ª .
Confira a entrevista:
Blog do Arretadinho: Como você avalia hoje a ditadura militar?
Dayse Silva: como eu vejo o militarismo? vou dizer que também amo... vejo os pontos positivos que vivi,
acho que vi o que meu pai me fez ver, eu sou meio generala (risos), ordeira, mas sou contra as injustiças.
BA: Dê um exemplo...
DS: Eu voto na Dilma. Acredito e acho que ela fez muito, continua a fazer e fará muito mais pelo Brasil, mas não sou totalmente favorável ao PT.
BA: Não é meio contraditório?
DS: Não é não! Eu amo minha pátria, mas não é porque a amo que não sei distinguir o certo do errado, não gosto do Agnelo, por exemplo, nem como pessoa, nem como político de esquerda. Como "camarada" então....Horrível.
BA: Qual ponto você classifica como mais negativo do governo Agnelo?
DS: Não sei se o mais negativo, mas a educação me preocupa. A proposta educacional está toda voltada exatamente para o que era naquela época, ou seja eu vivi o que se propõe hoje como inovação da educação. Estão preparando os professores, aulas e cursos. para que os alunos tenham a educação que existia.. e era BOA VIU? Mas....
BA: Pode citar um exemplo, resumidamente?
DS: É uma educação de qualidade sem dúvidas, mas infelizmente vai esbarrar em muita coisa porque é uma educação em que Estado e povo, por assim dizer, tem que caminhar na mesma direção. É uma proposta de educação voltada para uma linha onde o perfil, povo e Estado, se afinam. Não há reprovação. Calam-se as partes.
No "Currículo em movimento" não há reprovação, o aluno é sempre um aprendiz que caminha paralelamente com a comunidade, pais e professores, mas a questão é exatamente essa: Será possível essa interação?
Vivemos dias em que a sociedade transfere para a escola as responsabilidades que são dela, sociedade.
BA: Então você acha que a proposta do "Curriculo em movimento" não é boa?
DS: A proposta é muito boa mas veja o exemplo de Portugal, tentou e está sendo atropelado.
Na época do "eu te amo meu Brasil" funcionava (risos), é sério. Andávamos todos juntos e porque a educação foi boa é que surgiram os movimentos culturais.
Naquela época estudávamos para sermos os melhores em termos de cultura, ninguém era preparado para ser o doutor, ou o Jogador de futebol, fomos educados para sermos bons com excelência no que quiséssemos.
Não existia a educação voltada para o que vou ser para ganhar dinheiro, mas o que serei para fazer um país melhor, ser colaborador. Ser modelo, ator, não era nada...
BA: Na infância, você tinha pleno conhecimento da existência da ditadura?
DS: É porque não se falava em ditadura para criança, na verdade. Só sabia e vivia quem tinha mais idade...eu era apenas uma estudante.
BA: Você gostava da ditadura?
DS: Eu vivi a ditadura em meio ao gostar e repugnar, fiquei no meio de duas guerras: uma que eu conseguia ver o lado positivo da coisa e a outra as injustiças praticadas pelo regime. de uma certa forma ainda vivo isso hoje...
BA: O fato de seu pai trabalhar com o Médici o tornava igual ao chefe?
DS: Quando meu pai serviu em Suez, teve como companheiro Carlos Lamarca, antes do golpe militar. Meu pai disse que o Ten. Lamarca era muito gente boa. Serviram juntos no Canal de Suez. Eu tinha na época dois aninhos, por ai, camarada. O Lamarca era divertido , tranquilo, conta meu pai.
Quando veio o golpe e Lamarca desertou, meu pai foi chamado para fazer parte do juri, na Justiça Militar, que julgou Lamarca. Odiou ter que fazer parte daquele juri militar porque lembrou do colega. Meu pai conta que esteve entre dever, pátria e disciplina, disse que foi a pior coisa que o dever o chamou a fazer, o resto se orgulha muito.
BA: Qual a pior lembrança que você tem dessa época?
DS: Foi quando eu viajei para o Rio...eu não costumava ir ao Rio de Janeiro, mas quando ia viajava mesmo no avião presidencial...aquele de luxo, tapetão vermelho.bombom garoto etc...
Bem, fui ao Rio com minha tia e um pessoal da Polícia Federal. Não sei muito bem o motivo da viagem mas lembro-me dos personagens... é minha visão e lembranças de criança...
Domingo foi aniversário do meu pai e passaram aqui em casa as fotos de nossa infância no Rio. Eu fiquei muito triste porque não tenho qualquer lembrança, nenhuma, daquela época no RJ.
Minhas lembranças são só daqui de Brasília e à partir delas começa ai minha história...lembranças... e nela as coisas se repetem...sou a filhinha da ditadura às avessas... Bem, voltando a sua pergunta.
Nessa viagem de repente me vi conversando perto de uns carros , lembro-me de estar sentada em um para-choque...então tudo se fez noite, lembro-me de flashs...sei hoje que fui levada ao Hospital Souza Aguiar, fui levada para o setor de radiografias...mas lembro-me de entrar e sair de elevadores.
Depois lembro-me de estar em local onde as pessoas estavam seguras...presas, esperando alguma coisa, sei lá... mas não eram ladrões...
Em algumas cenas e ouvia gritos. "AI, TIA!!!"
Eram pessoas apanhando...lembro-me de ouvir a explicação que foi dada para a minha tia: "aquelas pessoas que ali estavam apanhando era para entregar..." e ali já faziam tudo... quebravam e colavam se necessário fosse... as pessoas ali pareciam famílias inteiras. A pessoa gritava para tirá-lo de lá, que não sabia de nada, mas apanhava mais.
Depois eu entrei e tive medo... e percebi que eram algumas salas, que pessoas estavam apanhando ali e minha tia dizia para eu esquecer tudinho, fechar os olhos e tapar os ouvidos.
Não eram guardas... eram outras pessoas, parecia coisa americana...eu pensava na minha cabeça de criança que era aquele filme do Maxuel Smart... (risos) os caras tinham crachás, tinha policial e militar.
Claro que depois fui dopada né?
Lembro-me de cantarem parabéns para um médico, mas eram médicos residentes... eu sabia que não eram médicos formados...olha que doido.
Hoje ainda faço terapia por causa disso, fiquei com a vida assim atrasada (muitos risos), mas não pirei não viu?
BA: Como foi esse negócio de cobrar do Médici que você queria seus amigos de volta?
DS: Me lembro bem do meu pai naquela época, ele era bem ético, mas tinha cuidado comigo pois eu era meio comuna (risos), uma pirralha que apontou o dedo para o General Medici.
Meus amigos estavam sumindo de repente, meus melhores amigos dormiam e não acordavam mais lá, aí eu comecei a questionar, a ler e a entender ao mesmo tempo em que perguntava ao meu pai sobre aqueles sumiços dos meus amigos.
Meu pai me respondia verdadeiramente e eu entendia o que estava acontecendo. Mas não odiava muito...só me indignava.
Um dia eu recebi a notícia que um de meus amigos foi levado pela Polícia. De noite sumiu o pai, de manhã a mãe e foi sumindo toda a gente devagar...mas levados. O pai do meu amigo era da UNE e estudava na UNB. Não vou falar nomes mas deixo uma dica: na casa deles eu conheci Gil, Paulinho da Viola, etc, era demais.
Meu pai levou a família à uma cerimônia no Palácio do Planalto e eu dizia que queria falar isso com o presidente, que era errado o que estava acontecendo, eu queria meus amigos de volta oras...ditadura cretina.
Então fomos. Meu pai estava trabalhando e estávamos na linha da família assistindo quando meu pai chegou mais perto porque eu não parava de falar: "eu quero ver o presidente, preciso falar com ele".
Foi então que meu pai veio tentar me deter e eu falando como uma matraca até que um homem colocou a mão na minha cabeça para me acalmar. Mas eu não parava de reclamar. Meu pai sem graça, vermelho... alguém disse algo a ele então o homem se abaixou um pouco, era gigante, eu disse com o dedo no nariz dele: "Ah então é esse ai o presidente? Olha , eu quero meus amigos de volta!" E toquei a falar desembestadamente, mas o general nada respondeu, eu tive que buscar as resposta sozinha. Então alguém me puxou,, acho que foi minha mãe. Eu fui proibida de falar em público para não ser presa pela ditadura..."Ou vão prender seu pai Viu dona Dayse!"
Eu tenho lembranças muito fortes dessa época, um exemplo é da copa do mundo, quando tentaram e conseguiram idolatrar o Pelé no lugar de outro, ditadura suja, Pelé foi feito para esconder garrincha.
Ah... eu por acaso conheci Geraldo Vandré, sabe quem é? (Muitas gargalhadas)

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