A Matriz de Saquarema
E a Lenda de sua Padroeira
| Matriz de Saquarema a noite - Foto Joaquim Dantas |
“Construíram Saquarema numa língua de terra que o mar envolve em um abraço carinhoso.
Cidade minúscula e de hábitos provincianos, Saquarema possui, entretanto, uma Matriz de incalculável valor histórico. A tradicional e secular Matriz de Nossa Senhora de Nazareth de Saquarema se eleva bem no alto de um monte rochoso, com uma cruz benéfica, que os navegantes de longe contemplam, erguida para o céu. A tetra-secular Matriz, cuja alva silhueta os viajantes avistam desde muito longe, tem uma história curiosa, em que o miraculoso se confunde com o real. Passamos a narrar a lenda simples e suave que há muitos anos esvoaça em torno da população de Saquarema:
| Vista lateral da Matriz - Foto Joaquim Dantas |
‘Referem as crônicas que em oito de setembro de 1630, a noite fora tempestuosa. O vento soprando sobre o mar bravio, fazia com que o oceano rugisse cada vez mais, atirando ondas revoltas sobre os cachopos da costa. Muitas árvores foram derrubadas e as pequenas casas de pau-a-pique, cobertas de palha, erguidas na margem da lagoa, como por milagre suportavam o golpe da tempestade. De repente, a chuva parou, o vento distendeu as suas asas para outras plagas, mudando de direção; o mar começou a beijar meigamente a areia branca da praia imensa, e os primeiros clarões do dia, pela aproximação do sol, transformaram o oriente em uma enorme pétala de rosa.
| A Matriz vista da Praia de Itauna - Foto Joaquim Dantas |
Os pescadores, cantando loas ao Criador, correram para o mar, em busca das suas canoas e redes. Índios, mulheres e crianças os seguiram, alegres e felizes para vê-los partir, em busca do deserto silencioso das águas, onde os peixes, como barras de prata, nadavam aos cardumes. Gritos de admiração partiram de muitas bocas: – Milagre! Milagre!
Formava-se um grupo e os mais crentes, de joelhos, erguiam os olhos para o céu.
Ali, naqueles penedos que se perdiam ao longe, jazia a doce imagem da Virgem,
imagem que no fragor da tempestade fora arrojada à costa pelo mar irado, e ‘ali
colocada pela mão de algum mortal’. Da sua boca partia um doce sorriso, que parecia acalmar as almas de toda aquela pequena e boa população. E logo a boa nova se espalhou, de choupana em choupana, para uma casinha tosca ao lado da lagoa.
| Interior da Matriz - Foto Joaquim Dantas |
Conta-se que a imagem de Nossa Senhora de Nazareth, – nome dado à imagem da Virgem, – no dia seguinte ao seu aparecimento, não mais estava na casinha tosca onde fora colocada por mãos misericordiosas. Quem a tiraria da casinha? Ninguém sabia. Só se soube que Nossa Senhora de Nazareth fora de novo encontrada no mesmo lugar da praia, onde surgira. Removeram-na. E mais uma vez ela desaparecera. Quem a teria roubado? Comentaram esse fato inexplicável: – Ninguém.
– Quem teria praticado tão grande sacrifício? Mas o fato é que a imagem foi de novo encontrada no lugar em que aparecera pela primeira vez.
| Interior da Matriz - Foto Joaquim Dantas |
Aí, um padre carmelitano, sesmeiro do Carmo, no lugar de Ipitangas, fez ver ao povo que era preciso construir uma capela. Dessa feita, porém, o povo julgando ver em todos aqueles acontecimentos uma ordem do céu, construiu no alto da colina, onde hoje existe a vetusta matriz, uma capelinha; e o povo em romaria carregou a Santa para o seu nicho.
Em 1660, antes de agosto, o capitão Manoel de Aguilar Moreira e a sua mulher Dona Catharina de Lemos transformaram a capelinha na Igreja, tendo o provimento do Bispo do Rio de Janeiro, Dom José de Barros Alarcão de curada e filial (sic) a Matriz de Nossa Senhora de Assunção de Cabo Frio, a cujo Município pertencia o terreno de Saquarema. Essa Igreja foi em 1675 substituída por uma de maiores proporções, construída de pedra e cal.
| Interior da Matriz - Foto Joaquim Dantas |
Por alvará de 12 de janeiro de 1755, foi Saquarema elevada à Freguesia, em
resolução de Sua Majestade, de 29 de novembro de 1750. E a 13 de novembro do mesmo ano foi criada e erigida de natureza colatéra (sic) e para seu primeiro pároco colado foi apresentado, aos 16 de janeiro de 1755, o Reverendo Padre Antônio Moreira, que depois de colado foi empossado pela provisão de conformação de 23 de abril do mesmo ano de 1755.
Arruinada a Igreja, os moradores da margem setentrional da lagoa de Saquarema apresentaram ao Bispo Dom José Caetano da Silva Coutinho o seguinte requerimento: Senhor, dizem os moradores principais da Freguesia de Saquarema, que pela Provisão inclusa mostram os supl., que o Ex.mo e Rev.mo Bispo Capelão Mor designara certo lugar mencionado na mesma para a construção da Igreja, que deve ficar servindo de matriz, se não podem erigir Igrejas sem licença expressa de Vossa Majestade, seja servido fazer-lhes a graça de revalidar a concessão inclusa, mandando passar-lhes a competente Provisão, para, em virtude d’ela, dar-se princípio à obra, como está determinada. P. a V. Majestade se digne de fazer aos sup. a graça a que aspiram. E. R. Mace. P. em 24 de outubro de 1820.’
O Procurador Custódio José Coelho, atendendo à reclamação, mandou o Bispo que fosse levantada a nova Matriz no lugar denominado Boqueirão do Engenho, nas 50 braças de terra que para esse fim doava o Tenente Luiz José de Almeida. Construída a nova Igreja, para lá levaram a Santa em procissão, e com solene rito, colocada a Excelsa Virgem em seu novo nicho.
No dia seguinte, grande grupo de romeiros dos arrabaldes, sentados nos lajeados
das calçadas, esperavam do sino as badaladas, chamando todos para a Santa Missa.
| Interior da Matriz - Foto Joaquim Dantas |
O silêncio que até então reinava foi quebrado pelas vozes do clero: – ‘A Santa não estava onde fora colocada, desaparecera’. – Como das outras vezes, encontraram a Santa nos alicerces de sua velha Igreja.
O povo vendo nisso um milagre, tendo à frente o vigário – Antônio Joaquim Freitas –, deu logo começo à construção de uma Igreja, prestando-se homens, mulheres e crianças ao carreto de pedra, cal e madeira para a construção; e já em 1837 a substituíram pela matriz atual, que é incontestavelmente um dos templos católicos mais importantes do Estado do Rio e quiçá do Brasil, não só pela sua beleza arquitetônica, arrojado empreendimento dos nossos antepassados, como pelas tradições milagrosas da sua Excelsa Padroeira, a Virgem de Nazareth. Pela construção da nova Matriz, concluída em 1837, ficou sem efeito a Provisão de 12 de maio de 1820.”
“Da provisão datada de 1675, que se acha registrada a fls. 95 do livro 9 dados
obtidos da freguesia de São Sebastião do Rio de Janeiro, consta que a imagem de
Nossa Senhora de Nazareth fora achada milagrosamente nas costas do mar bravo de Saquarema, entre uns penedos em que batia o mar, no dia 08 de setembro de 1630.”
“Saquarema, a maior nação de índios Tamoios. Por séculos esses indígenas
dominaram a parte litorânea da lagoa em que hoje se localiza a sede do município e apelidaram a lagoa em apreço de – Sóco-rêma –, que quer dizer bando de socóses – ave pernalta muito abundante então na referida lagoa, mais tarde passou por evolução da ocupação colonial a ser SAQUAREMA, nome que persiste até hoje.”
Fonte Livreto da Matriz.
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