6 de jul. de 2013

Os avanços de Lula e Dilma

Os avanços de Lula e Dilma

Por Íkaro Chaves
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O novo ciclo aberto por Lula e continuado por Dilma trouxe, em dez anos, avanços indiscutíveis do ponto de vista da soberania nacional, da diminuição da vulnerabilidade externa da economia e principalmente da inclusão de milhões de brasileiros primeiramente no mundo do consumo de bens essenciais e também no gozo de direitos. 
Milhões de brasileiros passaram a comer todo dia, depois passaram a ter acesso a serviços como energia elétrica, educação básica e até mesmo ao ensino técnico e superior. Ainda falta muito e as manifestações pedindo investimentos na saúde, educação e principalmente transporte público com dignidade mostram isso.
Mas há um campo estratégico onde não houve avanço e talvez tenha havido mesmo retrocesso. O campo da subjetividade, ou seja, no campo ideológico e nisso os governos do PT erraram tanto por ação quanto por omissão.
Houve omissão quando o governo não tocou em nenhum dos privilégios da mídia golpista. 
As vitórias de Lula em 2006 e Dilma em 2010, mesmo sob ininterrupto bombardeio midiático geraram a impressão de que a mídia não era mais decisiva nos embates políticos, de que o povo havia chegado a um nível de conscientização tal que as mentiras lançadas pela radio difusão não mais surtiriam efeitos. O crescimento da internet também criou a ilusão que o cerco da grande mídia estaria definitivamente rompido, além disso, o governo passou a crer que a população beneficiada pelos programas governamentais e na defesa de suas conquistas seria uma base social sólida o suficiente contra o ataque do poderoso aparelho midiático.
Não bastasse não ter avançado no campo da comunicação social, seja limitando o oligopólio midiático, seja construindo meios alternativos o governo ajuda a grande mídia em sua guerra por corações e mentes de brasileiros.
Um dos maiores orgulhos desse governo, propalado o tempo todo é a emergência de uma tal “nova classe média”. Transformar o Brasil em um país de classe média, esse era um dos objetivos da então candidata Dilma Roussef. 
Em primeiro lugar isso é um absurdo. Desde quando uma renda de R$ 1.600,00 por mês transforma uma família em classe média? O que é classe média, afinal? Se classe média for a classe que está na média da distribuição de renda então a classe média haitiana é composta por pessoas que vivem em barracos de madeira, mas que se dão o luxo de comer todo dia, mas que sentido tem isso?
Interpretações sociológicas à parte, o que o senso comum, e nesse caso é isso que conta, diz é que classe média é aquela que não está na base da pirâmide social, mas tampouco é a classe dominante. 
Quem são? Pequenos empresários, funcionários públicos do topo da hierarquia, alguns profissionais liberais, executivos intermediários, alguns intelectuais e artistas, enfim, se é difícil definir, todo mundo sabe do que se trata.
E quais são os valores da classe média? Historicamente as classes médias tem se destacado pelo seu radicalismo, lembremos que alguns dos mais destacados revolucionários, desde a revolução francesa são oriundos dessa classe. No Brasil, principalmente, o ativismo da classe média é conhecido. O movimento abolicionista contou com entusiasmada simpatia de muitos elementos das camadas médias da época, os tenentes revoltosos da década de 20 eram quase todos de classe média, enfim, a classe média gosta de engrossar movimentos.
Se por um lado a classe média empresta alguns de seus filhos para causas nobres, por outro sua característica majoritária é o conservadorismo. No Brasil, se até a revolução de 30 ainda podia-se contar com as camadas médias como força motriz do avanço, a partir daí essa passou a ser a massa humana a serviço da reação na maioria das vezes.
Em outros países acontece o mesmo. Na Alemanha dos anos 20 o proletariado se organizava e seu partido comunista avançava a olhos vistos. A burguesia já não conseguia manter o poder através de sua democracia burguesa tradicional, eis que aparece um movimento novo, radicalizado e autoritário, basicamente de classe média, inclusive com relação a seu líder. Era o nazismo.
O núcleo inicial do nazismo era de classe média e seus votos vinham majoritariamente da classe média, assim como aconteceu em outras partes aonde movimentos fascistas chegaram ao poder e isso não é um acaso. As massas humanas que encheram ruas brasileiras pedindo a intervenção militar em 1964 eram majoritariamente da classe média.
Se há uma coisa que a classe média teme é aproximar-se das camadas de baixo da pirâmide social. Na Alemanha dos anos 20 isso acontecia pelo empobrecimento geral que fazia os antes remediados viverem em condição próximas dos operários, já no Brasil do século XXI são as classes trabalhadoras que passam a ter acesso coisas que antes eram exclusivas das classes médias para cima. 
Ao ter que sentar-se ao lado de um operário pardo ou negro dentro de um avião ou a ter que dividir as ruas com milhões de carros de operários, ou mesmo a ter que contracenar com grande quantidade de famílias tipicamente trabalhadoras nos shopping centers a classe média sente que seus territórios estão sendo invadidos. Ao ver jovens humildes ingressando em universidades públicas essa classe percebe que o próprio status quo está ameaçado, pois as profissões tipicamente de classe média serão disputadas por filhos de trabalhadores em um futuro próximo.
Portanto a classe média, especialmente no Brasil de hoje, é uma classe profundamente reacionária e como a grande burguesia é tão pequena que não lotaria passeata nenhuma, é essa a massa a serviço da burguesia, a rentista e a midiática em especial.
A mídia golpista e outros setores das classes dominantes perceberam que esse movimento lhes poderia ser útil e ajudaram a propalar o mito da “nova classe média”. Foi assim que milhões de jovens de famílias trabalhadoras foram ganhos pela ideologia reacionária da classe média.
O que ocorre hoje no país é uma radicalização da luta de classes e nesse cenário se por um lado o movimento social progressista está enfraquecido até mesmo por conta de um governo que se distanciou dele, por outro a ideologia reacionária e fascista da classe média ganha espaço e a internet que muitos acharam que seria o instrumento capaz de se contrapor ao oligopólio midiático passa a ser infestado por uma tendência nazi-fascista que nem a grande mídia teria coragem de divulgar.
É assim que vejo jovens com a mesma origem humilde que eu tornarem-se propagandistas do fascismo, é assim que vejo colegas trabalhadores que ganham bem menos que eu defenderem as bandeiras mais reacionárias com um fervor que a FIESP não teria.
O movimento popular progressista deve fazer seu papel, mas cabe ao governo liderado por uma corrente de esquerda e chefiado por uma histórica combatente de esquerda dar uma guinada no discurso e reafirmar a centralidade da classe trabalhadora, com esse nome, no Brasil de hoje. Ou será que o PT vai deixar de ser o Partido dos Trabalhadores para se transformar em Partido da Classe Média?
O ciclo político da conciliação entre os interesses da burguesia nacional e da classe trabalhadora parece estar se esgotando. É hora de tomar atitudes e de escolher para qual dos lados se deve governar. O governo social-democrata alemão dos anos 20 cometeu muitos erros, fez um governo voltado para a burguesia buscando sempre a conciliação entre essa e sua base tradicional, o proletariado alemão. O resultado foi o surgimento do nazismo. 
Certamente nossos colegas do PT conhecem essa história.

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